(L-r) ABIGAIL BRESLIN as Hailey and SARAH JESSICA PARKER as Kim in New Line Cinema’s romantic comedy “NEW YEAR’S EVE,” a Warner Bros. Pictures release.

New Year’s Eve: uma agradável receita de bolo

Essa noite saí da caverna e resolvi visitar as salas de cinema. Escolhi, por algum motivo, ver “Noite de Ano Novo”, filme do qual eu não esperava muita surpresa. Mas por já conhecer a receita, juntei um grupo de amigos e encaramos a sessão, mesmo sem muitas expectativas. Fosse pela companhia, por estar com um humor agradabilíssimo essa noite, ou apenas porque o filme é sim legal, a verdade é que, admito, gostei.

Noite de Ano Novo (New Year’s Eve), do diretor Garry Marshall não difere em muito de sua última produção, Valentine’s Day (2010). A receita é simples, como em todo título de Marshall (vide O Diário da Princesa e Uma Linda Mulher): uma data especial e uma amontoado de histórias que se desenrolam e caminham para uma “lição de moral” que pode aparecer no fim do filme ou no decorrer dele. Sem esquecer que a intenção final é fazer com que o espectador saia com aquele velho e bom sentimento ilusório de perfeição, acreditando que a sua data será tão especial quanto a dos personagens da película. Nesse filme, questionar-se não adianta muito. O bom mesmo é deixar-se levar pelo clima e sair da sala dançando a baladinha dos créditos finais.

Portanto, como estava extasiada e, por isso, 80% do meu olhar crítico foi inibido, falarei do único aspecto no qual realmente consegui me centrar: as atuações. Verdade seja dita: embora muitos critiquem a “utopia exagerada” nos filmes de Marshall, o cara tem um feeling para a seleção de elenco invejável. Equipara-se, nesse aspecto, a Woody Allen, que parece conseguir milagres com o elenco que seleciona, por mais desacreditados que os atores possam parecer. A grande diferença é que, enquanto Allen impressiona com as atuações singulares que consegue, Marshall parece simplesmente arranjar personagens de acordo com os perfis dos atores. É como se, em uma quase regra geral, o ator interpretasse a si próprio, sem muito esforço. Em New Year’s Eve não pude evitar a sensação de déja vu quando da aparição de alguns personagens.

Halle Berry (enfermeira Aimee) manteve o bom estilo “Cássia Eller afro-americana” que me faz achar que ela interpreta uma lésbica até o último minuto. Jessica Biel, como uma mulher grávida e casada, fugiu à sua personagem em Valentine’s Day, em que ela interpretava uma produtora auto-suficiente e despeitada com o amor. Convém dizer que ela está linda. E, na verdade, frente a sua atuação quase insignificante foi tudo o que consegui notar. Jon Bon Jovi, de quem eu não esperava muita coisa, surpreendeu na atuação. Nada extraordinário, não se animem. Mas foi melhor do que eu esperava. Mas surpresa mesmo foi a lindinha Abigail Breslin, de Pequena Miss Sunshine, que não está mais tão pequena assim. A jovem atriz interpretou uma adolescente impedida pela mãe de ir atrás de sua paixonite na noite de ano novo. O papel foi tosco, mas ganhou certo brilho com o talento de Abigail. Outra surpresa foi Zac Efron, que começa a exibir os primeiros sinais de sua masculinidade e, depois de uma quantidade avassaladora de tentativas em filmes juvenis, talento. O personagem de Robert De Niro também surpreendeu. Esse porque, durante todo o filme, demonstra alguns indícios de ser um doente velho e tarado por sua enfermeira, que parece ser lésbica (a Halle Berry). Fiquei altamente compadecida e culpada por minha mente maliciosa quando o pobre senhor morre ao fim do filme. Katherine Heigl não difere muito de suas últimas atuações. Para mim, ela é a nova Jennifer Aniston, a garota das comédias românticas. E o melhor é que nem se preocupam em mudar o cabelo, maquiagem ou nada que denuncie de cara o título. Ashton Kutcher faz o neandertal fofinho de sempre. Grandão, bobão, cabeludo, romântico e vestido de pijamas. Lea Michele, SUA LINDA! Lea está diferente da neurótica Rachel, de Glee. Mas não muito. Ela continua falando muito e seduzindo pela voz. Por um instante achei que veria apenas o talento da atriz Lea Michelle em seu primeiro longa-metragem, mas, claro, que diretor não se aproveitaria de suas ungidas cordas vocais? E ela dá um show. Sarah Jessica Parker é Sarah Jessica Parker, não é mesmo? Sempre correndo, com vestidos extravagantes, botox escrachado e um homem gostoso no fim das contas. Michelle Pfeifer prova que envelhece, mas continua talentosa. Pfeifer interpreta uma cinquentona, com ambições de adolescente, insegura e um tanto perturbada. Não chama muita atenção, mas foi divertido vê-la loira e em um papel menos dramático que a maioria dos que lhe são destinados. Agora, Hilary Swank, mulher, volte para os seus tempos de Menina de Ouro e Meninos Não Choram, sim? A incrível Hilary, que com certeza não receberá o seu terceiro Oscar por essa atuação, teve seu talento ofuscado por uma comédia romântica que não lhe suporta. Assim você nunca vai chegar aos quatro de Katherine Hepburn, bicha. Foco, ok? Por fim, Sofía Vergara estava uma coisa linda. O diretor soube fazer uso de sua tendência natural para o humor, seu sotaque latino carregado, peitos e bunda. Mas algo me diz que essas são as únicas razões que levam um diretor a convocar Vergara para um elenco. Não que não sejam motivos suficientes… ao menos para uma comédia romântica previsível e cheia de açúcar.

Quanto aos demais atores do filme que não falei… Bem. Das duas uma: ou estava sem criatividade, ou eles estavam tão ruins, mas tão ruins, que preferi não me pronunciar.

Em síntese, vale a pena dar uma assistida no filme. Vá preparado para divertir-se e até emocionar-se (se tiver um coração de jujuba). Mas só vá se não estiver, decididamente, no seu dia de crítico de cinema, como eu não estava.