Quando o projeto “Ninfomaníaca”, do polêmico diretor Lars Von Trier, começou a ser divulgado, parecia bastante duvidoso que ele pudesse chegar às salas de projeção de todo o Brasil pelo circuito comercial tradicional. O primeiro entrave, que já é considerada sempre uma dificuldade, independente do filme, é a censura de 18 anos. No filme, há cenas de sexo explícito e restringir um público apenas aos maiores de 18 anos é bastante complicado para quem pensa cinema de forma comercial. Além disso, o cineasta dinamarquês Lars Von Trier tem aquele selo “cult” que também é um problema no “cinemão”. Há o receio de o filme ser chato, de não agradar ao público, de ter um roteiro ou um formato pouco atraente… etcétera, etcétera…

Lars Von Trier (à esquerda) e elenco de Ninfomaníaca

Lars Von Trier (à esquerda) e o elenco de Ninfomaníaca

A junção de vários fatores fizeram com o que “Ninfomaníaca – Volume 1” fosse solenemente ignorado pelos cinemas de Natal em ocasião de seu lançamento, na primeira quinzena de janeiro de 2014. Contudo, fruto do esforço do Cine Cult (projeto encabeçado por Roberto Nunes, em parceria com a rede Cinemark), a primeira parte de Ninfomaníaca chegou um mês depois ao Cinemark, em seis sessões distribuídas ao longo de três semanas. Quase 2.000 pessoas tiveram acesso ao filme em sessões sempre lotadas – e olhe que muita gente ainda ficou de fora. O episódio foi considerado uma vitória para o Cine Cult e acabou chamando a atenção das redes de cinema da cidade (Cinemark e Cinépolis), que adiantaram-se para exibir “Ninfomaníaca – Volume 2” em sua data de estreia nacional, essa quinta-feira, 13, mesmo sem terem exibido a primeira parte da história da viciada em sexo, Joe.

A segunda parte do filme de Lars Von Trier será exibido em duas sessões diárias no Cinépolis e outras duas no Cinemark, incluindo as duas sessões semanais (segunda-feira, 17, e terça-feira, 18) do Cine Cult. Que ótimo, não? Um filme do circuito alternativo ganhando espaço nas salas comerciais de Natal (onde receber filmes que não sejam hollywoodianos ou globais é sempre uma odisseia), graças à participação do público! Calma, pera lá. Nem tanto.

Cartaz de "Ninfomaníaca - Volume II"

Cartaz de “Ninfomaníaca – Volume II”

Pedro Fiúza, realizador audiovisual, resumiu à situação em uma conversa: “Claramente há um plano de fundo de exploração comercial pelos cinemas que só agora programaram o volume 2 em sessões diárias. O Cinemark usa o Cine Cult como boi de piranha, ou seja, se o desempenho for ruim, só o Cine Cult sofre, mas se for bom, o Cinemark se aproveita sozinho dos lucros”, explica Fiúza. Segundo o próprio Roberto Nunes, organizador do Cine Cult, a empresa Cinemark fez a proposta ao Cine Cult de exibição paralela do filme Ninfomaníaca em sessões tradicionais e sessões “especiais” do Cine Cult com a condição de que metade da participação das exibições do Cine Cult fossem para os cofres do Cinemark.

Em suma, podemos considerar a postura do Cinemark, ao mesmo tempo em que tenta privilegiar (ou não?) o seu público espectador, como um boicote ao projeto Cine Cult, que tem se mostrado uma entidade de resistência em Natal, exibindo filmes que pouco circulam pelo país, e permitindo aos espectadores potiguares respirarem uma cultura cinematográfica diferente. Mais uma vez, recorro à análise do colega Pedro Fiúza para explicar a situação: “Por que não fazer a sessão Cine Cult todos os dias, dois horários, e dividir os lucros? O Cinemark vai fazer isso mas queria o Cine Cult fora da jogada”. Relembro aqui que só foi possível medir o sucesso de “Ninfomaníaca – Volume 1” e identificar um terreno seguro para a exibição da segunda parte devido ao risco previamente corrido pelo Cine Cult.

Contudo, a quantidade de público nas sessões do Cine Cult, embora tenham influência no projeto, não determinam a postura de sempre nutrir o público natalense com uma proposta de cinema diferenciada. Já presenciei sessões praticamente vazias, como a de Fausto, do diretor russo Aleksandr Sokurov, a que assisti no início de 2013, e sessões lotadas, como as de Tatuagem (2013) e Ninfomaníaca (2014). E como bem enfatiza Roberto Nunes através do perfil do Cine Cult Natal no Facebook, “o Cine Cult continuará a exibir filmes para 1800, 180 ou 18 pessoas”.

Texto do Cine Cult Natal no Facebook

Texto do Cine Cult Natal no Facebook

No meio de tudo isso, é necessário questionar: é realmente intenção dos cinemas comerciais mudarem suas programações? Teremos novidades nas escalações das próximas semanas partindo do “sucesso” de Ninfomaníaca? O Cine Cult continuará sendo o único oásis para aqueles que buscam o circuito alternativo? A atitude do Cinemark foi de respeito ao público ou meramente de benefício a si própria enquanto oprimia um projeto de resistência cultural, em meio a uma maré de mais do mesmo? Confesso a você, leitor, que sou daquelas desconfiadas que pensa que é “melhor prevenir que remediar” e que, nesse caso em questão, é melhor dois pássaros na mão do que catorze voando…

2 Responses

  1. Avatar
    Melissa

    Achei esse blog e esse post procurando informações sobre o fim do cine cult no cinemark.
    Alguém sabe por que acabou? vai voltar? uma pena perdermos o único espaço de cinema fora do circuito hollywoodiano na nossa cidade.

    Responder
    • Andressa Vieira
      Andressa Vieira

      Oi Melissa! Não tenho informações oficiais, mas ao que tudo indica, o Cine Cult acabou porque o seu idealizador, Roberto Nunes, morreu e ninguém seguiu com o projeto. Estamos na torcida para que um dia volte… realmente é muito triste ficar refém apenas dos cinemas comerciais sem programações alternativas, ainda que escassas… Espero que tenha gostado do blog e que continue nos visitando 😉

      Responder

Deixe um comentário

Your email address will not be published.