‘No’: Os bastidores do ‘não’ que disse ‘sim’ à democracia no Chile

As ditaduras militares, elemento comum em quase toda a América Latina entre as décadas de 60 e 80, causaram uma ferida na sociedade que resiste à cicatrização. Mas deveria essa ferida se fechar? Se depender de movimentos relevantes perante à sociedade civil, como a Comissão da Verdade, a violação de direitos políticos e humanos jamais deverá ser esquecida. A mesma função vem sendo exercida pelo cinema latino-americano contemporâneo, especialmente pelos filmes “O ano em que meus pais saíram de férias” (2006 – Brasil) e “Infância Clandestina” (2011 – Argentina). O representante desse tema no Chile é o filme “No” (Dir: Pablo Larrín), cuja aclamação em Cannes resultou na sua indição para o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2013, o único filme da região que concorre à estatueta.

Gael García Bernal interpreta o exilado René Saavedra, um publicitário que, ao retornar ao Chile, começa a fazer conteúdo político para ao horário gratuito de TV. As peças audiovisuais tinham o intuito de convencer os chilenos a votarem no “Não” (daí o nome do filme) no plebiscito de 1988, que decidiu se o General Augusto Pinochet deveria permanecer ou não no poder por mais oito anos. Mesmo tendo sentido na pele as sanções dos anos de chumbo, Saavedra parece hesitar quando é convidado a compor a equipe que coordena a campanha do “Não”. O fator que deixa o publicitário com o pé atrás é representado por Alfredo Castro, seu chefe numa agência de propaganda, que acaba tornando seu adversário na campanha do plebiscito. Assim,  a dupla Larrín – Gael acerta ao evitar a construção de um personagem extremamente idealista ao mesmo tempo que desmitifica o perfil desmoralizador dos profissionais em publicidade que, de alguma maneira, o cinema também ajudou a construir.

No: candidato latino-americano ao Oscar de filme estrangeiro cuja imperfeição estética intencional deixa o filme mais atraente

A fim de representar fidedignamente a complexidade histórica do final da ditadura, Larrín ousa filmar – numa época em que as imagens em definição são, simultaneamente, regra e objetivo – no suporte de baixa qualidade conhecido como “U-matic 3/4”, usado no final dos anos 1980. A utilização desse suporte é um dos êxitos do diretor, pois permitiu que as cenas de ficcção pudessem se fundir, perfeitamente, com as imagens de arquivo das emissoras de TV chilenas. Assim, alternando momentos de documentário e de ficção, Larrín impõe a seu filme um ritmo veloz e alcança seu objetivo de tornar a película mais verossímil.

O final de um dos mais sangrentos regimes ditatoriais é apenas o pano de fundo da história. Na verdade, o filme foca mesmo nas campanhas publicitárias e suas estratégias argumentativas; algumas delas tão violentas quanto os conflitos armados que explodiam nas “calles de Chile”, tais como o marketing de guerrilha, ou seja, o ato de provocar – no espectador – a desconfiança do concorrente. Sendo assim, devido à sua construção um tanto documental, “No” é recomendável a todos que não querem esquecer o sofrimento de seus semelhantes para renovar a compreensão de que formas de governo semelhantes jamais devem ascender ao poder. Mas é fundamental para os profissionais da comunicação por conseguir aliar singularmente a compreensão da organização político-social do Chile e – por extensão – da América Latina, a estratégias de comunicação para marketing político.

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Vinícius Vieira
Sagitariano carioca que mora em Natal. Jornalista formado pela UFRJ e UFRN. Apaixonado por cinema, praia e viagens.
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Vinícius Vieira

Sagitariano carioca que mora em Natal. Jornalista formado pela UFRJ e UFRN. Apaixonado por cinema, praia e viagens.

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