Não sei foi a minha mudança de planos repentina ou o “shuffle” do player ter escolhido a dedo todos os Blues da playlist, ou ainda se pelo fato d’eu estar com o coração machucado mesmo, mas algo me dizia que tinha algo errado naquela insone madrugada. Fui dormir com a ideia de um texto na cabeça, alta noite.

Sou acordada por uma ligação, resolvo meus trâmites e me conecto à rede. Deparo-me com a notícia da morte do gênio Riley Ben King, mais conhecido como B. B. King. Idoso, já vinha sofrendo com a diabetes há algum tempo, mas ao menos morreu dormindo. Xingo o universo e passo o resto da manhã irritada com a notícia, mas eis que Robert Johnson ganhou mais um blues brother pra tocar com ele na encruzilhada do além.

Nascido em 1925, o moleque que colhia algodão em Berclair, Mississippi, se virava sozinho. Encontrou na música um refúgio e um ganha pão, com apenas dois dólares no bolso e sua fiel escudeira, a guitarra, em punho mudou-se pra Memphis e com os olhos brilhando viu o mito T-Bone tocando e ali decidiu o que queria fazer para o resto de sua vida: tocar blues. Sua primeira grande chance veio quando tocou no programa de rádio da KWEM do gaitista Sonny Boy Williamson. E na rádio teve seu primeiro sucesso, ganhou o apelido/nome artístico de  Blues Brother, posteriormente abreviado para B. B. King.

King trabalhou duro, fazia shows por todo lugar, pequenos cafés, botecos, salões lotados de jazz, até chegar às grandes casas de show. Do Delta do Mississippi ao condados californianos, todos identificavam seu estilo sensível, sedutor e sucinto de se tocar guitarra. Tocando poucas notas , na sua inseparável companheira Lucille (sua guitarra), emanava uma energia e emoção a cada acorde, o guitarrista se tornou referência para Jimmi Hendrix, Buddy Guy, Johnny Winter, Eric Clapton,  Stevie Ray Vaughan e Jeff Beck, para citar alguns.

Lenda viva, talvez está fosse a definição mais comum do blusista, justo ele que já tinha tocado e aprendido com os grandes, inspirado outros gênios, permanecia ativo, fazendo aquilo que melhor sabia e que mais gostava: tocar. Ouvir B. B. King era o mesmo que flertar, é uma experiência sensorial, como o bom blues deve ser. A música de King nunca foi sobre status, fama ou dinheiro, mas sim pelo prazer de se tocar, pela paixão que o movia e nada, nem mesmo o tempo e as conquistas o fizeram parar.

De corpo atarracado, cabelos grisalhos, brilho nos olhos e um sorriso vívido, B. B. King era de uma simplicidade que só aqueles verdadeiros sábios tinham. Os títulos de “Rei do Blues”, a cadeira no Hall da Fama do rock e os seus 16 Grammy’s Awards não são nada diante dos seus sessenta anos de palcos e mais de 50 discos que imortalizaram seu legado, ao longo dos seus oitenta e nove anos de vida. E como diria a letra do seu maior sucesso: “The thrill is gone/ the thrill is gone away/ the thrill is gone baby […] You know I’m free, free now baby…”

Adeus, ao deus!

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