Salesman

“O Apartamento” e o surpreendente encanto do cinema iraniano

O meu primeiro contato com o cinema, como de muitos, foi através dos filmes americanos, com alguns britânicos aqui e acolá. Grande parte das pessoas normalmente fica nesse estágio. Como todo cinéfilo, contudo, não tardou para começar a me aprofundar em “coisas mais pesadas”, e hoje a minha lista de filmes é muito mais colorida. Ganhei toda uma apreciação pelo cinema do Leste Europeu, que me ensinou que toda paciência pode ser recompensada. Filmes Japoneses e Chineses são de uma beleza e sensibilidade ímpar, e os Coreanos são insanos e divertidos. O cinema Alemão explora ideias claras e criativas. Os filmes Argentinos me dão raiva: por que nós, brasileiros, não conseguimos contar histórias em pequena escala de forma tão eficiente?

Mas eu me lembro claramente, há menos de 10 anos atrás, de fazer piadas com filmes Iranianos. Por que assistir filme de um país que, na minha mente, não passava de uma republiqueta religiosa retrógada, com cidadãos reprimidos? Como fazer qualquer cinema significativo com toda a censura?  Claro, como toda e qualquer opinião formada a partir de ignorância e preconceito, eu estava muito errado.

Shahab Hosseini como Emad e Taraneh Alidoosti como Rana.

Em “A Separação”, de 2011, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o diretor iraniano Asghar Farhadi mostrou a força do cinema do Irã explorando as pequenas idiossincrasias do viver em um país que, sim, é cheio de restrições, mas cujos cidadãos ainda enfrentam encontros e desencontros em seu cotidiano, em histórias que se tornam ainda mais interessantes pela peculiaridade do ambiente. Em qualquer cenário, sobre quaisquer condições, sempre existem muitas histórias para serem contadas. Mesmo que algumas liberdades não estejam disponíveis, por questões religiosas ou políticas, a vida segue, sempre trazendo motivos para rir e para chorar.

Com “O Apartamento” (Forushande, 2016), Farhadi retoma a estratégia de seu filme anterior, também com uma história em pequena escala, contida, sobre um incidente que irá perturbar o dia a dia dos personagens. A história começa com nosso casal de personagens principais, Rana e Emad, forçadamente expulsos de seu apartamento às pressas devido a um risco de desabamento. Em meio aos ensaios de uma peça teatral, o casal encontra, através de um amigo, um lugar para ficar por alguns meses e é justamente esse o fato que desencadeará toda a trama do filme.

O novo apartamento de Rana e Emad costumava ser a residência de uma garota de programa. Uma prostituta, puta, rameira, “prima”, mulher de vida fácil, etc. O que no Brasil e em muitos países, embora com muito preconceito, é tratado de forma aberta ou cômica, é um gigantesco tabu para uma República Islâmica como o Irã, e o conceito de uma mulher que troca sexo por dinheiro é tão ultrajante que o roteiro faz toda sorte de malabarismo para evitar o uso do termo diretamente. Os eufemismos dão a tônica: “ela era uma mulher complicada”, “ela recebia muitos amigos”, “ela não tinha uma boa fama”.  Não há, é preciso dizer, má vontade dos envolvidos no filme: a questão é que um filme com uma abordagem mais direta provavelmente não seria aprovado pela censura do país.

O incidente que motiva a trama (e que prefiro manter o mistério) é um ato de violência motivado pela má fama de tal apartamento. Farhadi é muito hábil, tratando a situação com sutileza ao mesmo tempo em que mantém o espectador ruminando sobre a real dimensão do que aconteceu, sem nunca oferecer respostas diretas de valor absoluto. O otimismo ou realismo do espectador irá ditar as conclusões de cada um, mas é possível dizer que, mesmo quem sair do cinema com dúvidas, não sairá insatisfeito.

Um olhar no cotidiano de forma primorosa.

As peculiaridades do dia a dia no país são sutis, mas facilmente perceptíveis. A divisão na educação entre os sexos, na aula de literatura ensinada por Emad, a presença constante de mulheres cobertas da cabeça aos pés, o tabu em relação à prostituição, todas são pequenas nuances dentro da trama, mas que ajudam o público a entender o cotidiano dos personagens. A menção à censura da peça encenada – “A Morte do Caixeiro Viajante”, do americano Arthur Miller, com a qual o filme faz alguns paralelos – é um lembrete que mesmo esse filme, em uma bela metalinguagem, passou por um comitê que aprovou ou não certos trechos do roteiro.

E nisso, talvez, esteja um dos pontos mais interessantes de reflexão. Farhadi aqui conta uma história extremamente humana e íntima, tratando da violência contra a mulher, do desgaste de uma relação em meio a uma tragédia doméstica, e da obsessão por satisfação em uma sociedade que privilegia um antiquado “sistema de honra” de forma provocativa e reflexiva. Tudo isso enquanto lida com censores analisando minúcias no seu roteiro e questionando aspectos do filme. “O Apartamento” nos faz lembrar que é possível contar histórias relevantes e provocativas de forma muito mais eficiente e de forma sutil, em que menos é mais. Este é, definitivamente, um filme que merece a sua atenção, assim como todo o cinema iraniano.