A Casa Branca como pano de fundo. Um presidente carismático e negro. Um ataque iminente. Centenas de homens treinados e fardados sendo mortos ou impossibilitados de qualquer ação. Um desconhecido que por ventura se encontra no local e, sozinho, tenta salvar o dia e o principal prédio administrativo da maior potência do mundo. Não esqueçamos que o protagonista é um ator canastrão, forte, e simpático. Você, leitor, certamente tem a impressão de já ter visto esse filme. Pois é, eu também. É impossível não remeter a isso a cada minuto do desnecessário “O Ataque”, filme atualmente em cartaz, dirigido por Rolland Emmerich, e que não traz qualquer inovação narrativa ou técnica. Muito pelo contrário: seleciona os maiores clichês dos filmes do mesmo estilo, e bate em um liquidificador para resultar em um produto atrativo para o público médio, mas que não convence nem um pouco os mais exigentes.

John (Channing Tatum) em sua entrevista de emprego, com a agente Finnerty (Maggie Gyllenhaal)

Não vou muito longe. Já esse ano, saiu em cartaz “Invasão à Casa Branca”, dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado por Gerard Butler. O argumento principal de “O Ataque” diverge em pouquíssimo do filme de Fuqua, me fazendo situar o responsável pelo roteiro do filme de Emmerich, James Vanderbilt, na lista dos roteiristas mais non-sense e pouco criativos da história do cinema. Vamos ao enredo.

John Cale (Channing Tatum) é um agente que deseja se tornar membro do serviço secreto de proteção ao presidente, James Sawyer (Jamie Foxx). Conhecido por suas quebras de ordens e individualismo em campo, John acaba tendo o emprego negado pela agente Finnerty (Maggie Gyllenhaal). Paralelo a isso, também existe o conflito familiar entre John e sua filha, Emily (Joey King), uma garota inteligente e retraída que acredita que o pai não se importa o suficiente com ela. John tenta compensar as faltas mais recentes conseguindo para a filha um passe para uma visita à Casa Branca no dia da sua entrevista. Emily, que é encantada por todo o mistério que envolve o prédio presidencial, se empolga com a ideia e segue com o pai para o passeio. Durante o tour, contudo, acontece um atentado ao prédio e, enquanto Emily esconde-se e foge, John tenta proteger o presidente Sawyer e encontrar a filha.

 

John no tour pela Casa Branca com sua filha, Emily, interpretada pela talentosa Joey King

É bom lembrar aqui que Emmerich já tem um histórico de filmes que exaltam os Estados Unidos ou remetem a sua história e personagens patriotas. Exemplos são: O Dia Depois de Amanhã (2004), O Patriota (2000), Godzilla (1998), e Independence Day (1996). Então não havia como chamar nome melhor para dirigir um filme em que os herois e as organizações americanas são vendidos a todo momento.

Salva a ausência de originalidade da ideia principal, tem-se à mesa um enredo receita de bolo e propício para a realização de um trabalho atraente. Infelizmente, não foi nisso que resultou o produto final da parceria de Vanderbilt e Emmerich. O filme começa num ritmo até agradável, com uma atuação decente de Channing Tatum, e a apresentação dos personagens principais. Inclusive, até certo ponto, achei que fosse uma versão melhorada de “Invasão à Casa Branca”, mas não foi preciso muito para perceber que o nível de clichês e previsibilidade estava no mesmo patamar, ou talvez em um superior. Corroboram para isso as resoluções simplistas para os conflitos que aparecem no decorrer do filme, o excesso de personagens estereotipados  e que pouco demonstram razão de ser (a exemplo do personagem de Jimmi Simpson, Tyler) e a trilha sonora, que nos passa a impressão de ser a mesma de tantos outros filmes do mesmo estilo. Me pergunto por que tanto medo da inovação.

John Cale e o presidente Sawyer (Jamie Foxx)

Outra característica que incomoda é o excesso de piadas desnecessárias no decorrer do filme. Nos momentos de tensão, algum personagem solta uma frase completamente inimaginável naquela situação, quebrando a tensão que se construíra e consequentemente o ritmo da produção. Por várias vezes, o filme não se decide se almeja ser um pastelão ou um respeitável filme de ação, não vestindo a camisa nem de um e nem de outro, característica que não me agrada muito.

Uma boa surpresa é, contudo, a pequena Joey King, de 14 anos, que vinha fazendo uma carreira desde 2006 em alguns poucos filmes e várias participações em séries de TV. Embora a garota, em algumas vezes, exagere nas cenas mais dramáticas, é notável o potencial, competência e talento de uma boa atriz, e já a coloquei na minha lista de promessas futuras. O restante do elenco se mostra razoável, e Channing Tatum esforça-se no papel que lhe caiu como uma luva, devido ao carão e porte físico. Sua inexpressividade veio a calhar para a concentração e frieza necessárias ao seu personagem em boa parte das cenas.

Channing Tatum está comprometido e esforçado como o protagonista de “O Ataque”

“O Ataque” é um filme que entretém e até mesmo prende, pela quantidade de coisas que acontecem a todo momento, os efeitos especiais, câmeras nervosas e trilha sonora tensa. Contudo, no fim das contas, não se mostra inovador ou diferente em nenhum aspecto. Fica a impressão que foi realizado apenas com o intuito de fazer dinheiro com o público que consome cinema por diversão, sem esperar muito da obra. Para aqueles, como eu, que se indignam com produções que subestimam o senso crítico e de apreciação do público, melhor passar longe das salas de cinema para não correr o risco de se arrepender pelo valor pago no ingresso.

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