O Brasil e a Ditadura: artistas e canções para não serem esquecidos

O período da Ditadura que se iniciou em 01 de Abril de 1964, como é de conhecimento de muitos, foi também um período de vasta produção cultural e artística como nunca antes visto, e a música, face e parte dessa cultura nascida da Ditadura, é até hoje influenciadora de posicionamentos, composições e reflexões sobre o já citado momento histórico.

GILBERTO GIL

Eu, na minha formação educacional, tive a sorte de ter professores de educação artística que me mostraram muito dessa época do Brasil através de músicas como “Roda Viva” e “Cálice” (Chico Buarque), “O bêbado e a Equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc) e tantas outras já conhecidas. Daí veio o meu entusiasmo pra conhecer outras composições que eu nem imaginava que pudessem ter sido influenciadas pelo período ditatorial, mas que sim implicitamente, explicitamente e acima de tudo genialmente, se opuseram ao momento de maior vergonha da história deste país. Foi por isso que nessa postagem resolvi falar sobre algumas músicas, fatos e obras que eu fui descobrindo ao longo destes anos e também na atualidade, que têm a mesma importância dos clássicos já conhecidos , mas que por algum motivo têm uma menor visibilidade. Artistas e canções para não serem esquecidos:

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1- Caetano, Chico e Gil

Envolvido com o movimento da Tropicália, Caetano e Gil inicialmente não voltaram suas letras para o Regime Militar Brasileiro. Na verdade, as suas críticas eram mais no sentido da contracultura. Erroneamente a censura militar vetou várias canções e atribuiu-as como críticas ao Regime. Depois da decretação do AI-5, Caetano, Gil e Chico receberam a visita dos militares, principalmente depois da canção Soy Loco por Ti América, de autoria de Torquato Neto, Gilberto Gil e Capinan, e gravada originalmente por Caetano.

Outra canção vinda do tropicalismo, além da famosa Alegria Alegria, escrita por Gil e Caetano em 1968, a qual criticava ferrenhamente a acomodação e aceitação da “política do pão e circo” executada pela ditadura militar era Panis et Circenses que no latim significa “política do pão e circo”.

“Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer”

Chico Buarque foi sem dúvida um dos artistas mais censurados pelo Regime Militar, e a proporção desta censura tinha a mesma proporção de suas respostas pelas suas composições, porque quanto mais ele era censurado, mais produzia.

Exilado na Itália, de 1969 a 1970, Chico Buarque sofreria com a perseguição da censura após o retorno ao Brasil. Em 1970, recém chegado do exílio, o compositor enviou a música “Apesar de Você” para a aprovação da censura, tendo a certeza de que a música seria vetada. Inesperadamente a canção foi aprovada, sendo gravada imediatamente em compacto, tornando-se um sucesso instantâneo. Já se tinha vendido mais de 100 mil cópias, quando um jornal comentou que a música referia-se ao presidente Médici. Revelado o ardil, o exército brasileiro invadiu a fábrica da Philips, apreendendo todos os discos, destruindo-os. Na confusão, esqueceram de destruir a matriz. Fonte: Vermelho.Org.Br

Depois de canções como Apesar de Você e Cálice terem sido censuradas, Chico “malandramente” começou a usar o pseudônimo de Julinho de Adelaide para poder obter aprovação de suas canções pelos censores. Não deu outra e a canção “Acorda Amor” passou pela censura só sendo descoberto o seu pseudônimo depois, pela reportagem do Jornal do Brasil que o denunciou. Em Acorda Amor, Chico genialmente denuncia os desaparecimentos cotidianos de várias pessoas que foram sequestradas e depois torturadas e mortas pelo Regime. Na canção, o compositor ironiza, e inverte os papéis ao invés das pessoas chamarem os militares para serem socorridas, chamavam os ladrões, tudo isso por causa da falta de confiança e medo dos agentes da Ditadura.

“Acorda amor
que o bicho é bravo e não sossega
se você corre o bicho pega
se fica não sei não
Atenção, não demora
dia desses chega sua hora
não discuta à toa, não reclame
chame, clame, clame, chame o ladrão.”

Outra canção escrita por Chico ainda com o pseudônimo de Julinho Adelaide foi “Jorge Maravilha”, que pela versão contada teria sido feita para a filha de Geisel, admiradora assumida de Chico, versão essa que em entrevista do cantor foi desmentida.

“Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.

images2- Milton Nascimento

Pouco tempo depois do lançamento do famoso álbum “Clube da Esquina”, Milton Nascimento enfrenta a censura do seu novo álbum “Milagre dos Peixes”, na época quase todas as canções foram censuradas, mas mesmo assim Milton se manteve firme e lançou o álbum só com as melodias , sem a letra das canções censuradas.

“É claro que as músicas tinham um teor político, mas não era nada explícito. Houve um exagero por parte da censura, porque nunca preguei que o pessoal pegasse em arma e coisa e tal; a gente só botava pra fora o nosso descontentamento com tudo, não só com o Brasil, mas com o mundo. Fiquei puto da vida quando a gravadora me propôs gravar um outro disco. Disse que não, que o disco ia sair como estivesse; se não havia letras, que as pessoas entendessem. E foi uma surpresa pra EMI Odeon em todos os sentidos, porque o disco vendeu bem, fora a repercussão que causou. Como músico, o Milagre foi muito importante, porque foi aí que me larguei na música de uma forma diferente, passei a usar minha voz como um instrumento.

images (1)A própria EMI chegou a censurar internamente obras minhas. A música chamada “Bodas” tecia alguns comentários não muito elogiosos à rainha da Inglaterra, que por sinal ainda é a maior acionista da EMI. Aí eles acharam que não ia pegar bem; eles foram os censores, daí sempre tive que usar aquele negócio: ‘Quer? Não quer, me libera!’.

No fundo, você acaba descobrindo a censura de tudo que é lado, às vezes levando sustos com censura dos próprios colegas, então é muito doido. Eu acho que cada um tem de ser de circo pra aguentar essa estrutura que foi montada em cima da gente, em cima do ser humano.”

3- Belchior

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Conhecido como “poeta marginal”, o grande Belchior não ficara de fora da censura do Regime Militar. Em “Eu sou apenas um rapaz latino-americano”, Belchior escracha o seu sentimento de não adequação à censura, defende o jeito pessoal da sua música.

“Mas sei
Que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido
Até beijar você
No escuro do cinema
Quando ninguém nos vê
Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer
A vida é muito pior”

Outro fato curioso, que eu julgo como tosco, coisa que a Ditadura sabia fazer muito bem, foi ter censurado a música “Os Doze Pares de França” , de Belchior e Toquinho, porque para os censores os autores vangloriavam a França, “fazendo dele um país melhor para se viver do que o Brasil”. A canção “Pequeno Mapa do Tempo” do Belchior , uma crítica implícita ao regime, por causa dos versos “eu tenho medo e medo está por fora” e “eu tenho medo em que chegue a hora, em que eu precise entrar no avião”, também teve censura por fazer referência ao exílio.

4- Vinícius de Moraes

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Vinícius, que era embaixador na época do Golpe de 64, foi tratado como “vagabundo” pelo General Costa e Silva, e demitido do seu cargo no Itamaraty.

“Demita-se esse vagabundo”

Mas por infortúnio do destino, Vinícius, que antes do Golpe havia composto “Marcha da Quarta Feira de Cinzas”, sem nenhuma intenção, já que o Golpe ainda não tinha acontecido, teve esta música como símbolo da deposição de Jango em 1964. Vinícius sofreria outras censuras, e experimentaria o exílio, fato que sempre lhe causou muito sofrimento. Uma outra curiosidade foi a censura da música do poetinha e de Toquinho, “A Valsa do Bordel”, que por se referir à vida de uma prostituta não pode mais ser executada. Vinícius, com tom de crítica começou a cantar a música como “A Valsa da Pura”.

5- Zé Ramalho

download Em “Vila do Sossego“, Zé Ramalho pontualmente descreve a Tortura, elemento de controle e coação da Ditadura, largamente usado naqueles anos negros. Zé Ramalho mesmo depois do período ditatorial, manteve o protesto, a crítica e o tom político de suas canções.

“Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Em seus papiros Papilon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai
Oh, com precisão”

O cantor, na descrição abaixo, fala um pouco sobre a música Vila do Sossego e sobre como ele e seus companheiros sofreram durante os anos de chumbo.

“Desde cedo trabalho com Geraldo Azevedo. Elba Ramalho e eu fazíamos teatro juntos em João Pessoa. Tomávamos cachaça e ficávamos juntos de madrugada na praça conversando sobre tudo: música, arte, sobre o sul maravilha. Tomávamos cachaça e tocávamos violão. Várias vezes fazíamos isso.

A Vila do Sossego era uma casa de praia. Depois da temporada com Alceu no Rio voltei para recuperar as forças no Nordeste, e uma tia minha tinha essa casa. Aí eu coloquei uma placa. Vila do Sossego. Em 73 essa casa tornou-se um ponto de encontro de artistas de João Pessoa que se reuniam para fumar um baseado, tomar umas, conversar sobre arte e outros rumos. Provocou um grande tititi na cidade. O que aparece na música são citações desses encontros. Tudo era muito louco e muito novo nas nossas vidas. A gente era chamado de viado e outros termos da época. Era muito difícil, estávamos em plena ditadura. Tomamos muitas porradas e hoje triunfamos.” (Depoimento dado a Jorge Salomão no dia 17 de fevereiro de1998 na Jerimum Produções, Rio de Janeiro. )

6- Geraldo Azevêdo e Geraldo Vandré

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Para não dizer que não falei de Vandré, compositor da música mais simbólica da Ditadura na minha opinião, “Para não dizer que não falei das flores”, trago aqui a história da possível parceria dos dois Geraldos da MPB, o Azevêdo e o Vandré, na composição de “Canção de Despedida” . Sim, digo possível pois Geraldo Azevêdo afirmou categoricamente que a composição da canção era de ambos e que esta tinha sido feita na época em que Geraldo Vandré se escondia do Regime Militar na fazenda da viúva de Guimarães Rosa. Entretanto, Geraldo Vandré, em entrevista a Ricardo Anísio em 2004, desmente explicitamente a parceria e afirma a autoria apenas para si. E como pra saber quem está com a verdade requer pesquisa mais profunda, de antemão quero apenas mostrar a beleza e a importância da canção para a história e para música popular brasileira.

“Se me perguntarem o que é minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando é a minha pátria.
Mas sei que a minha pátria é a luza, o sal e a água
Em longas lágrimas amargas.”
(Vinícius de Moraes)