Selton Mello interpretando Lourenço

Geralmente tomamos por ideia que um filme brasileiro precisa do esquema-clichê composto por palavrões, samba, violência, uma mulher curvilínea e muito erotismo a cada cinco minutos de duração. O cheiro do ralo, homônimo do livro de Lourenço Mutarelli e lançado em março de 2007, no entanto, orgulhosamente foge desse padrão pré-estabelecido, e seu diretor Heitor Dhalia nos mostra a história de Lourenço (Selton Mello), um homem com uma estranha obsessão por uma bunda e dono de uma loja especializada em comprar objetos usados, tendo como clientela pessoas que precisam de dinheiro urgentemente. Nesse tipo de negócio, o objeto é adquirido pelo menor preço possível, mas aos poucos Lourenço ultrapassa a barreira do meramente comercial e passa a demonstrar uma personalidade doentia através do humor negro, ironia e jogos perversos com os seus clientes; como o esperado, há um desfecho trágico, mas não tão fácil de se imaginar, o mesmo acontecendo com a dona da bunda pela qual o comprador é obcecado.

Lourenço em alucinação

Este é um longa repleto de simbolismos que são contagiados pelo sutil humor negro do personagem interpretado brilhantemente por Selton Mello, o grande destaque do filme, sendo sua melhor interpretação desde Lavoura Arcaica. À medida em que Lourenço vai perdendo a sua humanidade, dando espaço à frieza e ao sádico prazer que tem ao se ver humilhando e coisificando seus clientes, o forte e enojante cheiro do ralo no banheiro de sua loja vai se intensificando, uma sagaz metáfora à podridão que aos poucos toma conta do personagem.

Estamos falando de um homem que abusa de teorias sem lógica para justificar seu comportamento insano, materialista e possessivo, um homem que esqueceu o que é se relacionar emocionalmente e, tomado pela convicção de que possui controle sobre as pessoas envolvidas na trama, se sente no direito de comprá-las, uma clara alusão a como o capitalismo pode influenciar nos valores de uma pessoa. Esse materialismo também é evidenciado quando o Lourenço identifica as pessoas pelos objetos que elas têm a lhe oferecer e pela bunda da garçonete, cuja dona ele não lembra o nome e chega até mesmo a confundi-la com outra mulher. Toda a coisificação que impregna o longa pode indicar um profundo medo do personagem se envolver emocionalmente com outras pessoas, e ele evita esse contato pondo o dinheiro como barreira de proteção.

Lourenço e a bunda, cena que mostra a mente perturbada e fragilidade emotiva do comprador

Outro ponto que é digno de atenção é a direção de arte e fotografia do filme, que retrataram brilhantemente a visão de mundo de Lourenço, um mundo sem cores vivas, tedioso, quadrado e sujo… Um mundo melancólico, quieto e silencioso, que mal consegue conter uma avalanche de ansiedade, medo e manias estranhas. As cores só voltam quando Lourenço vê a garçonete e dona de sua maior obsessão.

O cheiro do ralo é um filme melancólico, intimista, que reflete uma sociedade em colapso por causa do capitalismo e gera risadas cheias de culpa e reflexão por ser uma comédia inteligente.

Lourenço e sua própria metáfora

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