Essa semana tirei um tempo para reler uma das grandes obras de nossa literatura: “O Cortiço”, escrito por Aluísio Azevedo e publicado em 1890, quando o nosso país começava a passar por grandes mudanças, a exemplo, o fim da escravidão, a reformulação do nosso modelo econômico para o capitalismo, a queda do império e o surgimento da república, a marginalização de uma determinada classe da sociedade, a grande imigração de portugueses e outros estrangeiros para o Brasil, etc.

Antes de adentrar na obra vamos entender um pouco o que foi o realismo brasileiro: esse movimento não surgiu no Brasil e sim na França, no final do século XIX, e tinha como principal propósito ir contra a ideia do Romantismo, pois os adeptos do Realismo sentiam a necessidade de retratar a vida enfatizando os problemas e costumes das novas classes, principalmente as classes média e baixa. O movimento não se manifestou apenas na forma literária, mas também na escultura, pintura e arquitetura.

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No Brasil o Realismo começou a se difundir em 1881, sendo destacado como marco inicial duas obras de grandes autores: Machado de Assis e o seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas e Aluísio de Azevedo com sua obra O Mulato. Porém deve-se destacar que, no Brasil, o Realismo surgiu sob duas direções, uma relacionada aos problemas sociais no ambiente urbano e com elementos do cotidiano e a outra buscava uma “mistura” entre o realismo com o naturalismo, buscando uma posição ideológica regionalista, onde a busca era para retratar a difícil vida no ambiente rural brasileiro e o determinismo, negando a existência do livre-arbítrio.

Machado de Assis foi um dos expoentes do realismo brasileiro

Machado de Assis foi um dos expoentes do realismo brasileiro

Podemos dizer que o Realismo surge para retratar o cotidiano da sociedade do século XIX, que se baseava nas seguintes características: oposição ao idealismo romântico, sem envolvimento sentimental; representação mais fiel da realidade; romance como meio de combate e crítica às instituições sociais decadentes, como o casamento, por exemplo; análise dos valores burgueses com visão crítica denunciando a hipocrisia e corrupção da classe; influência dos métodos experimentais; narrativa minuciosa (com muitos detalhes); personagens analisadas psicologicamente etc. Além disso, os autores eram antimonárquicos e negavam a burguesia.

E foi em cima dessas características que Aluísio de Azevedo escreveu sua grande obra “O Cortiço”. Nela podemos perceber uma construção alegórica do Brasil do século XIX, enfatizando as principais mudanças que o país passava naquele momento, a instalação do capitalismo, a homofobia (apesar do termo ser do nosso presente, no livro percebemos as ações discriminatórias que deram origem ao termo), o surgimento de duas novas classes e a marginalização de outra, por exemplo.

Inicialmente percebemos na figura de João Romão um imigrante português, uma metáfora para o capitalismo incipiente no país. Para enriquecer, o personagem se vale tanto da sua obsessão com o trabalho de comerciante, como também de meios ilícitos, como a prática de roubos, além da exploração de sua amante Bertoleza. E com a expansão dos seus negócios, chega ao ponto de deixar sua amante de lado; vale lembrar que Bertoleza foi uma das principais pessoas que ajudou a desenvolver o “império” de João Romão.

Edição de "O Cortiço" da editora Melhoramentos

Edição de “O Cortiço” da editora Melhoramentos

Um outro fator de destaque no livro é o comerciante também português Miranda. No início, percebe-se nele a vontade de disputar a riqueza com João Romão, mas ao ascender à alta sociedade, logo busca estabelecer uma aliança com João Romão planejando o casamento dele com Zulmira, filha de Miranda. Esse tipo de aliança remete não só às práticas de grandes conglomerados capitalistas como também uma pratica recorrente de grandes impérios.

Por último, quero ainda destacar dois pontos que Aluísio de Azevedo coloca de maneira inteligente em seu livro, no qual o próprio Cortiço se coloca como um personagem tão importante quanto os que o habitam. Em uma passagem do romance, o narrador compara o cortiço a uma estrutura biológica, um organismo vivo que cresce e se desenvolve, aumentando as forças daninhas e determinando o caráter moral de quem habita seu interior. Ao estabelecer tal comparação, Aluísio coloca o meio como um agente responsável pelas mudanças sociais do personagem, ou seja, afirma concretamente que o homem é produto do meio.

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