O dia em que o mundo fala Bobby Baq

Bobby Baq tem 21 anos e mora em São Paulo. O cara é tão danado que ganhou o MENOR SLAM DO MUNDO 2013, ficou em 4º lugar no SLAM SP (competição de poesia falada que reúne os finalistas de cada slam em São Paulo) e publicou ”O ano em que as coisas falaram – 365 microcontos” (2012) e ‘‘Eu findo mundo” (2013), além de aparecer na antologia ”Granja” e ser um dos autores expostos na mostra Tuiteratura (2013).

perfil bobby

Em um papo bem descontraído, ele fala com a gente sobre um monte de coisa, incluindo seus projetos, seu contato com a literatura e a experiência enlouquecedora de participar – e ser vencedor – de slams!

O CHAPLIN: Como foi que você começou a se interessar por literatura? 

Me interessei graças a uma professora de alta periculosidade que tive da primeira até a quarta série. Esta senhoura, corajosa como um cavaleiro Jedi, apresentava para crianças da mais tenra idade coisas pesadíssimas como Drummond, Odisséia, haicais, tropicalismo, Chico Buarque e tantos mais. Isso fez com que suas crianças se transformassem de cordeiros de Deus em Gremlins-devoradores-de-palavras, como eu.

Andrea, ainda hoje minha amiga, sabe que tem muita culpa nesse meu interesse, ainda mais se formos levar em consideração que, em casa mesmo, literatura era escassa e a influência maior era das intermináveis pilhas de CDS que meus pais tinham.

Daí que, de consumir literatura pra produzi-la foi um pulo só, dada a necessidade de administrar os meus pensamentos desastrados, apelidados por mim carinhosamente de “Tropensamentos”. Explicando melhor: Tropensamentos são aquela espécie infantil de pensamentos traquinas que vivem tropeçando enquanto correm entre uma sinapse e outra, daí que de tanto caírem alguns escorregam da cabeça pro mundo real. Meus primeiros escritos aconteceram na tentativa de arrumar aqueles que caíam no papel, ou usar a caneta como meio de transporte entre minha cabeça e a folha para que os tropensamentos chegassem inteiros.

GRANJApinto

O CHAPLIN: Para escritores jovens, nem sempre é fácil escrever o que der na telha. Por motivos mil: família, amigos, gente da escola, coisa e tal. Qual foi sua relação com esse pessoal? 

Escrever é um exercício de desnudamento público.  Muitas foram as vezes em que escrever algo se assemelhava ao típico pesadelo de estar peladão no meio da rua sem nenhuma causa aparente. O negócio é entender que no fim não tem ego, opinião que importe ou pau maior pra te fazer vergonha. Quanto mais de si estiver dando, melhor pras palavras. Daí é ficar amigo do nudismo e correr pro abraço.

Escrever “o que der na telha” é um exercício e tanto, mas é importante lembrar que não é o suficiente! O mais importante é apurar as antenas ao tema. Aos temas! Aos seus em consonância com o dos outros (ninguém curte falar sozinho, certo?). Sempre tem um tema que vai te tirar da zona de conforto e te estimular mais, mas saber estar atento a tantos outros também é importante. As minhas antenas reagem mais a alguns assuntos e menos a outros, por exemplo. O tempo e a sensação de deslocamento são temas mais recorrentes. O tempo, pois foi ele que me despertou. Quando tive consciência de mim mesmo pela primeira vez, autoconsciência, foi quando enxerguei  que habitava o tempo independentemente da minha escolha. Consciência das finitudes e efemeridades. Acredito piamente que toda revolução só passará a fazer sentido quando as pessoas entenderem o tempo. Nada é mais revolucionário que ele. Já o “sentimento de deslocamento” pois é recorrente, e por que cansei de me sentir deslocado sozinho. Descobri que todos somos um bando de deslocados, sofrendo sozinhos com seus deslocamentos. Gosto da sensação de alguém lendo um poema deslocado e sentindo-se compreendido, talvez, pela primeira vez.

Sendo estes os meus temas mais recorrentes (voltando à raiz da questão) meu pais, familiares e amigos não implicam. Mesmo quando mudo e caio em alguns temas mais sujos ou pesados, a aceitação existe e acredito que existe pelo fator: aceitando ou “desaceitando”, os versos são livres e ao menos a criatura merece respeito, mais até que o criador.

menor slam na balada literaria
Bobby Baq no Menor Slam do Mundo

O CHAPLIN: Você é o campeinho (quem ganha o MENOR SLAM DO MUNDO é chamado de CAMPEINHO) 2013, além do 4º colocado no SLAM SP. Como foi mergulhar nessas bênçãos e como você começou a ir nesse tipo de evento? 

capa eu findo mundo
Capa de “Eu findo mundo”

Pode parecer clichê, mas ganhar o menor slam do mundo foi uma surpresa. Ficar em quarto lugar no SLAM SP foi a emoção mais intensa até hoje já vivida por esses nervos que lhe respondem.
As “bênçãos” começaram do começo mesmo. A partir do dia que resolvi aparecer na Casa das Rosas pra ver o que djábo em parabólicas vinha a ser um SLAM. Tinha acabado de publicar o primeiro livro e queria botar ele na rua, pra viver a cidade e conhecer os leitores. Eu e ele (o livro) queríamos descobrir a vida. Os saraus que conhecia até então me davam sono, achei que seria mais animado o tal formato de batalha. E não é que foi? E não é que de lá conheci um monte de poeta, um monte de escrita, um monte gente encontrando gente e até mesmo saraus que não davam sono?! E não é que depois disso descobri que eu podia FALAR meus poemas?! Podia berrar?! Podia dizer baixinho?! Podia dizê-los mostrando o umbigo se necessário, até! (Não é,  Ni Brisant?) E não é que dessa troca minha poesia só melhorou? Que amadureci? Que escrevi o segundo livro com o apoio dessa gente toda? Que até mesmo ganhei o maior prêmio de todos: ver minha poesia tocando um tanto de outras pessoas que logo depois me tocavam com palavras tocantes no tocante ao que receberam de mim?! Enfim, quer bênçãos maiores?

 O CHAPLIN: Como você se sente enquanto escreve um poema?

Cada um é uma experiência. Me sinto de diversas formas porque escrevo por vários motivos. Por exemplo, tem a “escrita generosa” que acontece quando o poeta recebe algo do mundo (uma sensação, uma alegria, uma dor, um par de olhos e etc), gosta do que recebeu e devolve aquilo num poema para que mais pessoas sintam. Ou a escrita egoísta, que acontece pro poeta prolongar ou intensificar para si, na forma de um poema, aquilo que recebeu e gostou muito. Ou ainda, como diz Marcelino Freire, a escrita “para se vingar”, a poesia-revide!

Agora, aqui, analisando essa resposta, percebo que escrevo exatamente pelo motivo que a maioria usa o dinheiro: como moeda de troca. Compensação e pagamento, para obter meus remédio e armas. Poema é o meu recurso, inclusive pra sentir. Então acaba que sinto de um tudo.

slam sp
Bobby Baq no SLAM SP

O CHAPLIN: E quando você lê um poema, como é?

capa o ano

De um tudo também. Se eu dissesse que me sinto azul seria mentira, por que algumas poesias me deixam laranja. Outras amarelo. E algumas me deixam até cor de flop! Sim, cor de flop! Uso o “flop” pra definir todo aquele sentimento que ainda não foi nomeado. Sabe? Aquele sentimento que não é nem raiva, nem compaixão e nem alegria, mas tem um pouquinho de cada? Então! Alguns me deixam assim. Acho importante sentir além do nome dos sentimentos. Às vezes berramos ao mundo que sentimos amor, mas não paramos pra ver que um amor é diferente do outro. O nome do sentimento pode delimitar o modo que sentimos o mundo, aí periga acabarmos amando tudo igual sem nem perceber. Então na hora de sentir alguma coisa o mais importante é estar presente no sentimento, ou na leitura, no caso. Sentir sempre, nomear talvez, trocar alhos por bugalhos jamais!

O CHAPLIN: Muitas pessoas têm o conhecido ”bloqueio de escritor”. Você passa por isso? 

Tenho no tédio. Tenho na paz. Produzo o meu melhor no caos. Se não tiver estímulos e impulsos divergentes entre si, incoerências, incertezas e um pouquinho de cansaço, fica difícil de escrever. Daí pra desbloquear vou botar a alma pra movimentar, o cérebro pra cansar e o peito pra apanhar.

Vendas: bhbachy@hotmail.com