Ano passado, comemorou-se, na França, o centenário do grande Albert Camus. Jacques Ferrandez, conterrâneo de Camus, realizou, com maestria, uma belíssima adaptação da obra ”O Estrangeiro” para quadrinhos. O lançamento logo foi parar nas listas dos mais vendidos e foi sucesso entre o público e a crítica.

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Ferrandez presenteia os fãs de Camus com uma nova visão do clássico: em cores. Suas aquarelas são impecáveis e a riqueza na construção dos cenários impressiona qualquer um, desde quem entende do meio até eu, que sou apaixonada por quadrinhos mas no quesito técnico, ainda deixo a desejar.

A adaptação foi feita com muita fidelidade à história original, o que só comprova que Ferrandez é um grande conhecedor da obra de Camus.

As aquarelas de Ferrandez chamam atenção pelos detalhes, pela naturalidade e pela luminosidade

As aquarelas de Ferrandez chamam atenção pelos detalhes, pela naturalidade e pela luminosidade

O fato de ter muito texto, muita coisa pra ler, talvez incomodasse um pouco não fosse a beleza alucinante das ilustrações de Ferrandez. Muitas vezes é até provável que você esqueça um pouco as letras, só porque não quer parar de admirar as cores, os traços e a forma como os quadros se distribuem pela página.

Uma das coisas que mais me impressiona quando um texto é adaptado para os quadrinhos é a forma como as cores e o traço mudam de acordo com a situação que está sendo retratada. Uma criança pode, muito facilmente, entender um quadrinho. E isso é um enorme feito, muito mais importante, inclusive, que ganhar um prêmio.

Em ”O Estrangeiro”, Camus apresent Mersault, um trabalhador calmo e reservado, sem grandes ambições. Mersault, durante a trama, vê sua mãe distante morrer, conhece uma linda mulher e  comete um crime. Mersault parece ter, à sua volta, uma placa que o impede de perceber os momentos e sentimentos. A personalidade apática de Mersault se evidencia em momentos como o falecimento de sua mãe, situação na qual o personagem não demonstrou abalo emocional algum; e também durante o seu julgamento, ao qual ele apenas assistiu, sem grandes preocupações.

No Brasil, a edição ficou por conta da Companhia das Letras, através do selo Quadrinhos na Cia

No Brasil, a edição ficou por conta da Companhia das Letras, através do selo Quadrinhos na Cia

A história de Meursault me faz pensar na justiça dos homens e na condição humana. Penso em quantos homens ou mulheres morrem, morreram e (infelizmente) morrerão nas mãos da justiça – injustamente. Os leitores brasileiros com certeza pensarão muito nisso, já que nossa justiça vem agindo de forma bem injusta. Aliás, no Brasil, a edição da obra ficou por conta da Companhia das Letras, através do selo Quadrinhos na Cia.

Recomendo a leitura a todos. É um livro que vou emprestar e depois guardar para mostrar aos meus filhos.

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