O Farol: Longe do cais do Porto, perto do caos
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Um farol é uma estrutura, com formato de torre, que possui em seu alto uma luz, que fica dentro de outra estrutura com espelhos refletores, normalmente instalados em ilhas, ou até mesmo no mar, próximo a uma costa, servindo como um orientador para os navios que navegam a noite, já que sua luz pode ser avistada de longe. Mas para o diretor Robert Eggers, um farol acabou se tornando um símbolo de uma história sombria, densa e fria.

Alguns anos depois do lançamento de “A Bruxa”, Eggers traz mais uma obra de suspense, dessa vez com uma maior profundidade psicológica, e algumas referências mitológicas interessantes. “O Farol”, se passa no final do século XIX, quando o jovem Ephraim Winslow (Robert Pattinson) consegue um trabalho temporário em uma ilha, para ser ajudante de Thomas Wake (Willem Dafoe), que é o responsável pelo farol que opera no local. A princípio, mesmo estando em um local inóspito e isolado, a sensação do personagem é de que o tempo é curto, mas será possível juntar dinheiro e voltar a ter uma “vida normal”.

Porém, logo no início da trama, um momento em específico parece mostrar ao espectador, que as próximas semanas dos personagens naquele lugar não serão muito tranquilas. Uma pausa dos dois, encarando a câmera por alguns segundos, em silêncio, dá uma tônica do que vem pela frente. O velho lobo Wake já avisa o jovem Winslow que ele irá cumprir algumas atividades na ilha, como trocar o telhado da cabana onde vivem, limpar uma espécie de poço, utilizado para conseguir água, entre outras coisas, consideradas secundárias.

Mas em hipótese alguma, ele deve subir no topo do farol, onde fica a luz. Isso, obviamente, desperta uma curiosidade por parte de Winslow, que fica questionando e buscando alguma resposta plausível, para o porquê de não poder entrar no local. Afinal de contas, ele também trabalha na ilha, e em tese poderia conhecer a parte principal do farol. Porém, a partir daqui é importante que o espectador tenha a percepção referencial acerca da mitologia grega representada nessa obra, sobre Proteu e Prometeu. Os dois personagens parecem que nunca vão se entender, afinal, Winslow cumpre diversas tarefas, mas ainda assim é duramente criticado por Wake, mesmo quando executa bem sua função, como se apenas o velho marujo soubesse o que é certo, por estar ali há mais tempo e ter uma maior sabedoria.

Thomas acaba se portando como Proteu, que era filho de Poseidon e Tétis, e tinha a tarefa de cuidar do rebanho de seu pai, assim como Wake, que precisava cuidar do farol, algo que estava acima de qualquer coisa. Além disso, rogava algumas maldições que poderiam acontecer, caso o jovem Winslow fizesse algo de “errado”, como matar alguma das gaivotas que circulavam na ilha. Apesar do sinal(uma gaivota que possuía apenas um olho) ele ignorou e acabou  a matando em um ataque de fúria, trazendo uma mudança no vento e posteriormente uma tempestade gigante que inundou sua cabana. Ephraim também tinha algumas visões confusas, principalmente com uma sereia, e um monstro marinho, já beirando a loucura de estar naquele lugar. Essas aparições podem ser interpretadas como uma habilidade que Proteu possuía, de se transformar em um monstro do mar.

A outra referência mitológica, Prometeu, pode ser associada com o personagem de Pattinson, já que ambos são atraídos pelo desejo do conhecimento. Na história grega, Prometeu roubou o fogo do Olimpo, para garantir a supremacia dos seres humanos sobre os demais seres vivos, porém acabou sendo punido por Zeus, que ordenou sua ida ao alto do monte Cáucaso, onde ficaria acorrentado por 30 mil anos sendo bicado diariamente por uma águia, destruindo seu fígado. No caso do longa metragem, Ephraim que se vê sedento por descobrir o que tem no topo do farol, vai até as últimas consequências para conseguir o que almeja. Ele até consegue chegar a luz, mas sua ganância é punida com o mesmo destino de Prometeu, só que ao contrário do personagem grego, ele não é imortal, e seu corpo é despedaçado pelas gaivotas em algum local perto da base do farol.

Existem outras referências interessantes acerca dessa obra, sendo que essa dos personagens gregos se torna a principal para uma melhor compreensão. Um ponto interessante se dá na estética fotográfica, já que o filme é apresentado em preto e branco, e em uma resolução de tela menor do que o que normalmente somos acostumados a ver no cinema. Poucos recursos tecnológicos foram utilizados na produção, as filmagens foram feitas em condições mais densas, com os atores passando bastante frio e um certo sufoco no local. Segundo o diretor, a ideia era de dar mais realismo e intensidade a obra. A lógica acabou funcionando, os dois atores deram um dinamismo e mostraram uma química intensa e bem executada. Apesar de possuir um roteiro simples, os elementos de cena (como o som irritante emitido pelo farol) dão uma sensação de imersão mais profunda, trazendo a mesma sensação de incômodo vivida pelo personagem de Pattinson. “O Farol” não é um filme simples de ser compreendido assim que acaba a sessão no cinema, principalmente por ser uma obra tensa, claustrofóbica e bastante fria. É necessário se aprofundar um pouco mais em suas referências para entender melhor o que o diretor quis transmitir, e assim sendo, contemplar mais uma grande obra do diretor Eggers, que vai se consolidando mais no gênero de suspense/horror.

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