O Homem de Ri: baseado em obra de Victor Hugo, filme traz reflexões modernas

Em suas dezenas de obras literárias, Victor Hugo consagrou-se com uma marca registrada: a ausência de eufemismos quando refere-se a sociedade e seus podres. O autor não importa-se em ser cru e tocar friamente na ferida que arde em muitos. Isso acontece em “O Homem que Ri”, escrito em 1869, uma das obras mais conhecidas do autor, e que foi inspiração para o filme francês L’Homme Qui Rit (O Homem que Ri, 2012), longa-metragem dirigido por Jean-Piérre Améris, e protagonizado pelo canadense Marc-André Grondin, contando ainda com Gérard Depardieu, e a Sra. Polanski, Emmanuelle Seigner.

Depardieu interpreta Ursus, na foto, com o jovem ator que interpreta Gwynplaine quando criança

O Homem que Ri conta a história de Gwynplaine (Marc-André Grondin), o filho de um nobre condenado à morte por traição. Ainda criança Gwynplaine é submetido a uma cirurgia que desfigura o seu rosto, sendo condenado a “rir” para sempre. O garoto é encontrado vagando por uma tempestade de neve e conhece uma menina cega, Dea (Christa Theret), cuja mãe morrera congelada. As duas crianças são acolhidas por um homem chamado Ursus (Gerárd Depardieu). Na adolescência, Gwynplaine se apaixona por Dea, mas se recusa a admitir o romance devido a sua condição de “monstro”. A família ganha a vida através de peças que destacam o fascínio do público com a desfiguração do Gwynplaine, transformando o que costumava ser abominável em motivo de graça.

Não é a única adaptação para o cinema da história do escritor francês. A primeira, americana, veio em 1928, ainda no cinema mudo hollywoodiano. Ao contrário de outra famosa obra de Hugo, “Os Miseráveis”, essa ainda não caiu no pecado da cobiça exagerada dos produtores e depois de quase noventa anos é que surge a versão francesa, fazendo jus a nacionalidade da obra literária.

Emmanuelle Seigner,como a Duquesa, e Gwynplaine

O roteiro da história, boa por si só, foi muito bem adaptado. O protagonista Gwynplaine, que apesar de desfigurado, tem um coração puro e gentil, é um paradoxo para a sociedade em que acaba inserido. Quando descobrem que o garoto é filho do marquês que morrera, ele é levado para uma casa enorme, com servos e membros da nobreza. A beleza daquela sociedade erradia por fora, mas não passa de uma carcaça podre por dentro. Essa realidade é personificada pela personagem da belíssima Emmanuelle Seigner, a duquesa que insiste em conquistar Gwynplaine para depois desprezá-lo.

Quando se anda sobre roteiros previsíveis – como é o caso das adaptações de clássicos – o caminho é apostar nos aspectos técnicos que a linguagem cinematográfica permite. “O Homem que Ri” faz isso muito bem quando alia excelentes atuações (tanto dos iniciantes, Grondin e Theret, quanto dos veteranos Depardieu e Seigner) com direção de fotografia e arte formidáveis, acrescentando ao filme o tom mórbido e denso que a história exige. O cenário e a maquiagem também ajudam, e o tom melodramático do filme não é exagerado, embora seja necessário para a composição geral. Por falar em maquiagem, não se admire se achar Gwynplaine muito parecido com o vilão Coringa, de Batman. De fato, o personagem de Victor Hugo, conta a lenda, foi uma das inspirações para o inimigo do super-herói.

A direção de arte esforça-se para dar ao filme aspectos da arquitetura e decoração do período Moderno

Das particularidades técnicas, ressalto apenas um aspecto que, ao meu ver, foi uma falha. O desfecho do filme pareceu aleatório. Como um livro em que o escritor está apressado e sem ideias, e acaba usando as palavras erradas, em um ritmo desproporcional. É o que acontece no fim do filme. Mas não devo falar muito disso para não adentrar no campo do spoiler e privar o espectador de sua própria digestão.

Por fim, quero ressaltar o caráter de crítica social do filme que, no frigir dos ovos, é o que mais chama atenção na obra. Gwynplaine representa de forma mais exagerada o que todos aqueles que não se encaixam nos padrões são. E os seus medos são os mesmos medos de quase todas as pessoas. É necessário coragem para ser diferente. E mais coragem ainda para exibir a diferença. Quando em um mesmo patamar de convivência, a sociedade recrimina a diferença, aponta, faz piadas, ofende e por vezes, pune. Quando a aberração é apresentada em um palco, é bem aceita por divertir e fazer rir. Victor Hugo e Jean-Piérre Améris, em seu papel de diretor, escancaram as nossas própria falhas e medos. Somos todos Gwynplaine e somos também a sociedade que o despreza. Se o espectador é capaz de captar essa mensagem, deixa a sessão muito mais intrigado e incomodado que entretido.