Depois do sucesso da sessão especial do filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, com a presença dos atores Ghilherme Lobo e Tess Amorim no dia 26 de Abril, o Cine Cult Natal encabeça novamente mais um evento especial. Dessa vez é a pré-estreia do filme “Praia do Futuro”, com a presença do diretor cearense Karim Aïnouz, realizada no último sábado (11). Diferente da euforia que foi a sessão de “Sozinho”, com a sala lotada e um público aos gritos, em sua maioria formada por adolescentes, a sessão de “Praia” tinha uma atmosfera madura, de homens e mulheres em média na casa dos 30, em sua maioria cinéfilos e admiradores do diretor.

Permeando a construção do homem entre as expectativas que a sociedade impõe e os próprios desejos humanos, Aïnouz apresenta um indivíduo dividido entre o que ele quer ser e o que outros querem que ele seja. A construção da identidade não é um tema fácil de trabalhar, mas é justamente um dos desafios que impulsiona o cinema, ainda mais hoje, em que o cinema brasileiro passa por uma intensa projeção de realidades que antes eram quase impossíveis de chegarem às telonas.

Karim | Fotos: Sylara Silvério

Karim Aïnouz, diretor de “Praia do Futuro” | Fotos: Sylara Silvério

“Praia do Futuro” teve sua estreia esse ano no Festival de Berlim e centra sua trama em três homens movidos por uma morte, um passado abandonado, um acerto de contas entre irmãos e muito sentimento. Uma co-produção brasileira e alemã, Wagner Moura,  Jesuíta Barbosa e Clemens Schick estrelam essa obra intimista e crítica.

Conversamos com o diretor sobre a construção do filme, suas expectativas para o lançamento, parcerias e próximos projetos. Confira a entrevista:

O CHAPLIN – Como foi a recepção no festival de Berlim?

Karin – Foi muito emocionante, não só por toda a pompa e circunstância do festival, mas também pela presença da imprensa na exibição do nosso filme. Não podemos negar que é muito tensa toda aquela concentração de jornalistas que vão avaliar o seu trabalho. Eu sempre falo que festivais são como vitrines e a vida do filme só começa mesmo quando ele entra em cartaz.

Karim Aïnouz e Roberto Nunes, do Cine Cult, ao fundo

Karim Aïnouz e Roberto Nunes, do Cine Cult, ao fundo

O CHAPLIN – Você só apresentou o “Praia do Futuro” no festival?

Karim – Eu apresentei dois na verdade, o “Praia” e outro filme que eu fiz sobre arquitetura. Esse trabalho era parte de uma coleção de 26 minutos financiada por um canal de uma TV Francesa-Alemã. Eram 6 filmes, com 6 diretores, sobre 6 prédios diferentes filmados em 3D.  O meu era o prédio George Pompidou, na França.

O CHAPLIN – Você acha que o “Praia” foi o seu projeto mais ousado?

Karim – Talvez tenha sido o mais ambicioso, o mais ousado já não tenho certeza. Primeiramente ele é ambicioso no sentido temporal, pois ele é um filme que se passa em 3 época diferentes; depois porque ele se passa em dois países (Brasil e Alemanha); além de uma complexidade de produção diferente, complexidade essa extremamente nova em relação a mim como diretor.  E quem sou eu pra dizer o que foi ousado? Quem tem que dizer isso é o público.

O CHAPLIN – Você morou durante anos em Berlim, a ideia do filme veio antes ou depois dessa temporada no exterior?

Karim – Eu já morava fora do Brasil desde os 18 anos, Berlim foi uma cidade que eu fiquei encantado. Lembro-me de ter vivido na época em que o muro iria cair, deixando de separar a Alemanha Ocidental da Oriental e esse foi um ano memorável na minha vida. Mas voltando a sua pergunta, depois de terminar “Madame Satã”, eu queria escrever outro roteiro, mas conseguir tempo e dinheiro era muito difícil. Mas aí tem uma bolsa em Berlim que é destinado a cineastas, artistas plásticos, escritores, músicos e etc. Eu ganhei essa bolsa e fiquei por lá mais um ano e foi com esse dinheiro que eu escrevi “O Céu de Suely”. Quando eu voltei para o Brasil em 2005, eu fiquei com muita saudade de Berlim e foi por isso que eu quis fazer esse filme. Em parte sua gestação é feita dessa saudade e em parte pelas lembranças que eu tenho da Praia do Futuro, no Ceará, ambos importante na minha formação.

Karim e Roberto em bate-papo na pré-estreia de "Praia do Futuro"

Karim e Roberto em bate-papo na pré-estreia de “Praia do Futuro”

O CHAPLIN – Você colaborou no roteiro de “Cinema, Aspirina e Urubus”, filme de Marcelo Gomes, onde existia o personagem alemão Johan. Agora no “Praia” há o personagem, também alemão, Konrad. O que a figura alemã influencia no seu trabalho?

Karim – Eu acho que isso foi uma coincidência, a minha relação íntima com a Alemanha se passa realmente agora com esse filme. Os dois personagens (Johan e Konrad) são muito diferentes: um viveu a Segunda Guerra, foi perseguido e andou pelo sertão brasileiro; outro é pós-muro, explorador.

O CHAPLIN – Como se dá essa relação de trabalho entre você e Marcelo Gomes?

Karim – Marcelo é incrível! A gente se conheceu em 94, eu estava escrevendo o roteiro de “Madame Satã” e ele o de “Aspirina”, mas os dois filmes levaram muito mais tempo para se fazerem. Éramos da mesma geração, dois cineastas no Rio e tudo era muito complicado. Como não tínhamos condições de produzir nossos filmes, acabamos nos juntando e resolvendo fazer uma viagem juntos pelo sertão após ganharmos um prêmio no Itaú Cultural. O sertão é um lugar muito importante para o Marcelo, mas ele não o conhecia direito. E meus avós viviam no sertão, mas eu nunca tinha ido. Então resolvemos juntar nossas frustrações de não produzir os nossos longas nessa viagem e começamos a filmar toda essa jornada de forma quase compulsiva. Nossa relação como parceria começou bem ali. Ao final da viagem eu chamei ele e o Sérgio Machado para me ajudarem no roteiro de “Madame” e  ele me chamou para ajuda-lo no roteiro de “Aspirina”. Depois resolvemos fazer um filme juntos e nasceu o “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, em 2009.

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O CHAPLIN – Como foi o trabalho com os atores?

Karim – Foi tranquilo, pois tivemos um trabalho prévio com eles, que era muito importante ser feito porque eles vinham de lugares muito diferentes. Wagner já tem uma carreira grande no cinema; o Clemens tinha um percurso no cinema, mas ele é um cara mais focado em grupos de teatro alemães; o Jesuíta era muito cru, não tinha feito nada quando a gente o escolheu para o filme. Então tinha ali um trabalho de primeiro se criar uma intimidade entre os atores e os personagens, além de equalizar um pouco o registro de encenação. Você consegue ver isso no filme com o Jesuíta, pois ele tem uma coisa meio bruta que é super bonita, mas é pouco polida, áspera, assim quando ele entra é com tudo; o Clemens trabalha muito no silêncio, com gestos singelos; já o Wagner trabalha de uma maneira mais larga, coisa que no filme tentamos diminuir para deixar seus sentimentos um pouco mais delicados. E quando a gente começou a filmar foi maravilhoso, pois eles estavam, assim, muito sintonizados uns nos outros.

O CHAPLIN – No mesmo ano dois filmes nacionais muito aguardados, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho“ e “Praia do Futuro”, retratam amores homoafetivos. Como você enxerga esse espaço de discussão no cinema brasileiro?

Karim – Foi uma coincidência muito feliz. Os dois filmes estavam no Festival de Berlim, o filme do Daniel Ribeiro ganhou um prêmio muito importante e eu acho que esses filmes tiveram uma visibilidade admirável, fato que é necessário para o cinema nacional. Eu nunca parei pra pensar do porquê estarmos falando sobre esse tipo de relação. Talvez seja o atual tempo que nos permita, talvez seja só o desejo que nós diretores temos de falar sobre isso. Eu acho que de uns anos pra cá os tempos mudaram no cinema e ainda bem que mudaram, pois precisamos discutir sobre tudo. O que tentamos realmente falar no filme sobre esse assunto foi o que é uma relação homoafetiva na geração do personagem Donato, cheia de paradigmas mais resistentes, e na geração do seu irmão mais novo, Airton, que não se prende mais a tantas tradições e discute de forma muito mais aberta.

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O CHAPLIN – O que a Praia do Futuro, em Fortaleza, significa pra você?

Karim – Eu sempre tive uma relação muito forte com esse lugar, por algumas razões: é um lugar muito estranho, muito vazio, parece que você está em Beirut. Eu sempre achei a Praia do Futuro interessante por isso, pois Fortaleza inteira foi se transformando numa coisa estranha. A cidade foi se aburguesando, foi se dividindo. Minha mãe era professora universitária e na década de 70 ela viu a oportunidade de se mudar do centro da cidade para o subúrbio, no limite entre a cidade e a praia. E a única avenida que dava para a Praia do Futuro passava em frete a minha casa. Então foi um lugar que eu frequentei muito, lá pelos meus 8 aos 16 anos, e eu guardo muitas memórias dessa época.  Outra coisa interessante é que Futuro é mar aberto, então muito da minha inspiração para o filme veio daí: o que existe depois da linha do horizonte? E a praia tinha sempre isso, do por vir do outro lado.

O CHAPLIN – Por que você sentiu a necessidade de falar sobre o universo masculino?

Karim – Eu falava muito de mulher, era muito filme sobre mulher, então disse mim mesmo que iria mudar de assunto pra não ficar me repetindo. Em cada filme você tem que entrar num universo novo, tem que ser uma aventura nova. Cada filme tem que ser algo necessário. Tinham personagens femininos nesse filme que foram caindo no decorrer da montagem, foram até filmados, mas resolvi tirar. Quando parei pra ver os meus trabalhos, percebi que já tinha feito três projetos sobre mulheres, então tomei conta de que a situação estava ficando confortável e resolvi sair.

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O CHAPLIN – Você tem novos projetos à vista?

Karim – Tenho feito filmes a cada 2 ou 3 anos, então eu tô nesse momento da vida que eu preciso fazer mais uns 10 filmes antes que eu não possa ficar pulando dentro do set de filmagem, cheio de energia e disposição para trabalhar. Eu sei que esses dias eu parei pra pensar no seguinte: meu pai é da Argélia e eu nunca fui pra lá, então estou planejando em fazer essa viagem para um lugar que é meu também, que faz parte da minha história e filmar tudo. Também tem outro filme que estou fazendo com o Wagner sobre a história de um pastor evangélico, pois a gente vive num momento interessante com essa explosão da pentecostal e eu acho que é importante falarmos disso. É aí que você percebe, eu escolho às vezes de forma inteiramente íntima, noutras escolho inteiramente sobre o cenário atual.

O CHAPLIN – Qual a sua expectativa para o lançamento dia 15?

Karim – A de sempre, cara. (Risos) Que seja visto pelo maior número de pessoas, mas além disso eu espero que o “Praia” simplesmente exista, pois o que mais vejo são trabalhos que simplesmente evaporam, esquecido pelas pessoas.

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