O Lobo de Wall Street: sexo, drogas, dinheiro, Scorsese e Dicaprio

Em uma cena do novo longa do lendário Martin Scorsese, o personagem Jordan Belfort, interpretado pelo Leonardo DiCaprio, está pelado em uma cama com uma vela acesa enfiada na bunda. Isso mesmo. Chega uma mulher e a tira e começa uma sessão de tortura sexual, com direito a cera quente nas costas do DiCaprio, que grita de dor (o que é simplesmente hilário), e a brincadeira continua. A mulher é Venice, uma das amantes de Belfort. É isso, pessoal, bem-vindos ao mundo de exageros de “O Lobo de Wall Street”.

Aqui, Scorsese segue a linha de seus filmes de gângster dos anos 90 – “GoodFellas” e “Cassino” – muito mais para os excessos desse último. Tire toda a violência de Cassino, que não é pouca, pois o próprio Scorsese admitiu que esse é seu filme mais violento, e coloque muita putaria no lugar: você terá “O Lobo de Wall Street”.

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What’s wrong, daddy?

De toda a filmografia do Scorsese “O Lobo…” é seu filme mais engraçado, mais até do que “Depois de Horas” (1985). O diretor, juntamente com o roteirista Terrence Winter e Dicaprio, viram todo o potencial cômico nessa história e talvez esse seja seu maior mérito. Em “Margin Call – O Dia Antes do Fim” (2010), temos uma visão quase apocalíptica de Wall Street, o que o torna um filme seríssimo e muito melhor que a maioria dos longas sobre o fim do mundo. É um filme genial que eu recomendo a qualquer um. Em “Wall Street – Poder e Cobiça” (1987) também temos um filme muito sério. Apesar de eu o considerar menor na filmografia do Oliver Stone, é um filme que deve ser visto. Scorsese faz uma sátira de toda a loucura dessas pessoas de Wall Street.

O longa é muito inventivo na sua narrativa, usando várias técnicas, desde o Belfort falando direto para câmera, até inserções com os pensamentos dos personagens, como numa cena com o ator francês Jean Dujardin (“Isso mesmo americano de merda…”). A narrativa não é linear e Belfort é um narrador onisciente, assim como ocorre em outros filmes de Scorsese, a exemplo de “GoodFellas” e “Cassino”.

wolf-of-wall-streetO filme tem muitas cenas de nudez, mais do que em toda carreira do Scorsese junta, que na verdade não a usa muito. Mas aqui era necessário para adentramos no mundo de excessos de Belfort: drogas, sexo e dinheiro. Para ilustrar, numa cena do longa, Jordan joga dinheiro fora ao mesmo tempo em que grita para os agentes do FBI, “olha aqui, um ano de salário”.

“O Lobo de Wall Street” recebeu cinco indicações ao Oscar: melhor filme, melhor ator (Leonardo DiCaprio), melhor ator coadjuvante (Jonah Hill), melhor diretor (Scorsese) e melhor roteiro adaptado (Terrence Winter). Todas as indicações foram  merecidíssimas, mas senti falta de “O Lobo…” nas categorias técnicas, principalmente para a Thelma Schoomaker em melhor edição, que poderia entrar fácil no lugar de Clube de Compras Dallas. Há uma associação feita na montagem muito interessante, na qual são alternadas cenas do desenho Popeye tomando seu espinafre pra salvar Olivia e DiCaprio usando sua droga para salvar o personagem do Jonah Hill, que estava morrendo engasgado. Os russos chamaram essa técnica de “montagem intelectual” e consiste numa associação de ideias. Eisentein explica:

“Uma vez reunidos, dois fragmentos de filme de qualquer tipo combinam-se inevitavelmente em um novo conceito, em uma nova qualidade, que nasce, justamente, de sua justaposição (…) A montagem é a arte de exprimir ou dar significado através da relação de dois planos justapostos, de tal forma que esta justaposição dê origem à ideia ou exprima algo que não exista em nenhum dos dois planos separadamente. O conjunto é superior à soma das partes”.

Aliás, os momentos que antecedem esse ponto estão entre os mais engraçados, que é quando Jordan tem uma overdose de quaaludes, uma droga sedativa muito utilizada – na década de 1970 – como comprimidos para dormir.

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Segurança primeiro

Ainda sobre Oscar, há uma forte chance de o longa não levar nada. Sua principal chance é com o DiCaprio, mas ele tem um forte concorrente, é o Matthew McConaughey que é o favorito, do já citado “Clube de Compras Dallas”. Sua atuação é muito boa, mas a do DiCaprio é superior. Para mim, a dobradinha DiCaprio/Jonah é melhor do que McConaughey/Leto para levar ator/ator coadjuvante, mas os atores de Dallas são favoritos. Quem sabe algo aconteça…

Está é a quinta colaboração entre DiCaprio e Scorsese, as outras foram: “Gangues de Nova York” (2002), “O Aviador” (2004), “Os Infiltrados” (2006) e “Ilha do Medo” (2010). Sem dúvidas, essa é uma das melhores atuações de sua carreira, e minha torcida pelo Oscar vai pra ele, que já merece esse prêmio há muito tempo. Eu já vi o filme três vezes, cada vez em um cinema diferente de Natal, e é Scorsese puro! 

Defendendo das criticas

O longa tem causado controvérsia deste seu lançamento. Várias entidades usaram o filme para se promover. Teve associação de proteção de animais, de deficientes mentais e até a filha de um dos sócios de Belfort na vida real, que escreveu uma carta aberta aos realizadores do filme acusando-os de glorificar as atitudes dos personagens. Por coincidência, o pai dela está lançando um livro sobre a história. Que coisa, não? Falta agora a associação de anões atacar o filme.

Para mim, essas opiniões são infundadas. O que todas têm em comum é a crítica ao comportamento dos personagens, alegando que elas são enaltecidas pelo filme. Essas pessoas veem o filme e não se deixam levar, não se deixam entrar no mundo dessas pessoas, que sim, tem atitudes desprezíveis. Ao longo de sua carreira, Scorsese não fez filmes sobre pessoas que salvam o gatinho em cima da arvore, ele fez filmes sobre as pessoas que colocam o gatinho em cima da arvore. O diretor nova-iorquino trouxe um olhar na alma dessas pessoas. Há quem acuse “Taxi Driver” (1976) de ser um filme racista, mas é um filme em primeira pessoa sobre um personagem racista. Quando “Touro Indomável” (1980) foi lançado, um crítico chamou Jake La Motta – o pugilista sobre o qual o filme conta a história –  de o personagem mais desprezível da história do cinema. Ambos entraram para história do cinema.

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Esposa troféu

Os espectadores não precisam simpatizar com os personagens e nem concordar com suas atitudes. Eles devem entender o contexto. Um exemplo disso é o excesso de palavrões (a palavra fuck). Segundo a Variety, “O Lobo…” é o filme de ficção com o maior número de referências a esta palavra: ela foi dita 569 vezes, sendo 3,18 por minuto. Scorsese ainda tem outro filme no top 10, “Cassino”,  com 422 vezes. Está totalmente dentro do contexto o uso da palavra, pois o mundo estressante de Wall Street é dominado por homens. O longa até explica isso em uma cena, quando o personagem do DiCaprio está começando. Todos os membros do “bando” do Jordan praticamente não têm nenhuma formação e são criminosos que, antes de trabalharem para Belfort, vendiam maconha.

Imagine as personagens de “Django Livre” (2012), dirigido pelo Tarantino, sem usar a palavra “nigger”. Estaria fora de contexto. A mesma coisa ocorre nesse filme do Scorsese. Se o filme não tivesse palavrões, seria muito mais ofensivo e inverossímil, pois é assim que as personagens retratadas no longa do Scorsese falam.

Mais uma festa em Wall Street
Mais uma festa em Wall Street

Podemos destacar outro momento, em defesa do filme, que emprega a montagem intelectual: é quando uma secretária recebe 10 mil dólares para raspar a cabeça. No momento em que a raspam, o escritório começa a ser invadido por uma banda e por strippers. Enquanto a galera está se divertindo ao máximo, o filme alterna essas cenas com os momentos desoladores da secretária com a cabeça praticamente raspada. Aqui, outra ideia é criada através da edição, enfatizando que o filme não aprova o comportamento dos personagens.

A principal crítica ao filme, na verdade, vai para o self-mademen. Os corretores usam o desejo de pessoas de ficarem ricos e os enganam. Isso fica evidente por meio da participação espetacular de McConaughey, na qual ele diz: “O seu trabalho é tirar o dinheiro do bolso do seu cliente e colocar no seu”. Ele continua dizendo que se o cliente ganha algum dinheiro, o trabalho do corretor é fazê-lo reinvestir esse dinheiro, e logo isso se torna um vício. Podemos associar aqui com “Cassino”, onde o segredo é manter os clientes jogando, e o único que ganha é o próprio Cassino. Wall Street é um Cassino.