“Então, vê agora por que os livros são tão odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. As pessoas acomodadas só querem rostos de cera, sem poros, sem pêlos, sem expressão.”

– Ray Bradbury

Ao desenvolver a expressão genocídio em 1943, Raphael Lemkin tinha como intuito conceber um conceito específico para designar crimes que têm como objetivo a eliminação da existência física por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e, por vezes, sócio-políticas.

Linguista e advogado, Lemkin buscava com esse conceito encontrar palavras para descrever as políticas nazistas que se alicerçavam no ódio como a principal ferramenta para edificação de uma nova Sociedade Alemã. Lembrando que para muitos que faziam parte do Partido Nacional Socialista (Nationalsozialismus), era necessário realizar uma “limpeza” étnica na Europa. Contudo, para que tal “limpeza” lograsse êxito, fazia-se necessário não apenas extirpar os indivíduos que compunham a sociedade judaica, era necessário também eliminar quaisquer vestígios de sua arte, crença, lei, moral e costumes, ou seja, realizar o que conhecemos como etnocídio e assim suprimir qualquer indício da existência do judaísmo para as gerações vindouras.

fahrenheit-451-ray-bradbury-globo-livros-livro-natal-1355145375292_332x500Em 1945 as insanidades cometidas pelo Nazismo têm um fim, contudo as memórias traumáticas da guerra marcaram profundamente a alma do ser humano, nos colocando em um estado de alerta permanente. Percebemos que, enquanto homens somos findáveis, mas enquanto pertencentes a uma cultura poderemos nos perpetuar em espírito, seja através das artes ou dos ensinamentos que passamos para as gerações futuras.

A experiência Nazista nos mostrou o quanto a cultura de um povo pode ser um dos principais fatores para a derrocada de um governo antidemocrático, como a arte pode ser uma ferramenta essencial para nos alertar contra o mal que rodeia o cotidiano. Tanto que se nos atentarmos em analisar determinadas obras literárias, perceberemos que vários autores colocaram como principal fator para o desenvolvimento de um distopia o etnocídio.

Temos como exemplo a obra Fahrenheit 451, escrita por Ray Bradbury. No livro percebemos que o indivíduo é privado da oportunidade de conhecer obras que o faça crescer intelectualmente, que possibilite a criação de  valores morais que vão de encontro aos ditames impostos por um Estado centralizador e autoritário. Bradbury nos mostra que, para a derrocada de um governo democrático, o primeiro passo é destruir valores culturais perpetuados não apenas por obras literárias consagradas que trazem consigo o estado de coisas de uma época, mas também destruindo e proibindo escritos sagrados que alicerçaram a moral e a ética da sociedade ocidental.  A partir dessa proibição, o Estado se coloca como o único provedor de conhecimento, seja de cunho artístico ou moral, moldando assim o indivíduo como um inerte, ceifando-o do questionamento e submergindo-o em uma ideologia onde o Estado dita o que cada um deve fazer, consumir e acreditar.

Para ilustrar o que acabei de descrever é só nos debruçarmos sobre o personagem principal do livro, Montag. Na obra, ele é um bombeiro responsável por manter a sociedade livre do “veneno” literário, seguindo sempre as ordens imposta pelo Estado, sendo assim, não cabe a ele questionar, pois se assim o disseram é assim que as coisas devem ser. Contudo, Montag não é uma exceção, mas apenas mais um em uma sociedade que não se questiona sobre o porquê de as coisas funcionarem como funcionam. Pensar e questionar não trazem benefícios e sim a desigualdade, o sofrimento, a ruína e é por esse motivo que livros devem ser banidos.

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O autor, Ray Bradbury

Com o passar da narrativa, o personagem, através de duas figuras fundamentais (Clarisse McClellan e Faber), começa a se interessar pelas obras literárias banidas da sociedade, percebe que aquelas narrativas trazem algo diferente, ideias que ele nunca tinha visto, pensamentos contraditórios e questionadores. Percebe que os livros são ferramentas poderosas a ponto de destruir a imbecilidade imposta pelo Estado.

Montag começa a compreender que essa imbecilização causada pela falta de leitura desenvolveu uma sociedade que apenas se preocupa com a distração e prazer de forma exacerbada, vilipendiando as relações sociais e assim os vínculos são facilmente quebrados.

O personagem principal então começa a buscar incansavelmente uma fuga desse estado de coisas que permeia o cotidiano da sociedade, a necessidade de ter tudo em demasiado e não se conectar de forma profunda, e assim vai contra as ideologias vigentes ao ponto de ser considerado um criminoso.

Ray Bradbury traz em Fahrenheit 451 um retrato quase que fiel da opressão anti-intelectual nazista, bem como o cenário dos anos 1950, quando havia o temor de que novas ideologias totalitárias como o Nazismo e o Fascismo se tornassem de novo um pensamento aceitável e louvável.

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