Pela primeira vez, o Teatro Riachuelo abre suas cortinas, para a companhia Gira Dança. E para esse momento, o espetáculo contemplado é o “Proibido Elefantes”. O evento acontece nesta sexta feira (12), a partir das 21h. A apresentação marca o pontapé inicial das comemorações de dez anos do grupo. Essa será a última apresentação desse espetáculo aqui em Natal em 2014.

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O grupo Gira Dança foi fundado pelos bailarinos Anderson Leão e Roberto Morais, que hoje são diretor artístico e diretor administrativo do grupo, respectivamente. Tudo começou quando os dois, na época, eram integrantes de outro grupo chamado Roda Viva, que objetivava a inclusão dos deficientes na sociedade, fazendo com que eles pudessem frequentar qualquer espaço. Em uma viagem ao Rio de Janeiro, conheceram a instituição ANDEF (Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos), uma ONG que ajuda pessoas com deficiência em várias vertentes, como esporte, teatro, e conta com um grande complexo para suas atividades.

Algum tempo depois, eles deixaram o Roda Viva, e tiveram a ideia de montar o próprio grupo. O problema é que não tinham recursos financeiros para isso, mas a vontade alimentava o sonho. Quando em janeiro de 2005 surge o Gira Dança, muitos não acreditavam no trabalho deles, como conta Roberto. “Alguns nos diziam que não passaríamos do primeiro espetáculo, e já vamos com dez anos de companhia”. Durante esse período nada foi fácil. Sem apoio dos órgãos públicos, eles se mantêm através dos editais de projetos. Desde 2008 contam com um espaço na Ribeira, que é alugado, e segundo Anderson, já está ficando pequeno, devido ao crescimento do grupo. A equipe é formada por 20 pessoas, sendo 15 bailarinos, e 7 desses têm algum tipo de deficiência.

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“Proibido Elefantes”, é um espetáculo dirigido por Anderson Leão, e coreografado por Clébio Oliveira. O grupo conta algumas histórias dos próprios bailarinos e ressalta a questão do olhar, com o intuito de mostrar ao público todas as fases, desde o olhar inocente de uma criança, até os olhares carregados de preconceito dos adultos. Além de mostrar que não se deve duvidar das pessoas perante as dificuldades.

O CHAPLIN fez uma entrevista com o diretor artístico do espetáculo, Anderson Leão.

giradança portugal coimbraO CHAPLIN: Como surgiu a ideia do “Proibido Elefantes”?

Anderson: Eu acompanhava os trabalhos do Clébio desde que ele fazia parte da Cia. de Dança do Alberto Maranhão. Depois que ele foi para outra cidade, só vinha aqui em Natal nas férias, mas sempre estávamos em contato. Em 2011, fomos convidados para um festival em Berlim, e lá apresentamos “A Cura”. O Clébio estava lá assistindo e nos contatou dizendo que queria montar algo para nós. Começamos a colocar o “Proibido” em editais, mas com outro nome, e acabamos sendo aprovados em 2011. A montagem aconteceu no ano seguinte, e durou cerca de dois meses. Esse foi o primeiro espetáculo que o Clébio já tinha o nome, antes mesmo de montar a coreografia, pois normalmente ele dá o nome após montar. Ficamos apreensivos, pois não sabíamos como iria se chamar, aí no último dia de montagem, ele nos revelou o nome. Uma das ideias veio de uma pesquisa feita por ele, que buscou esse nome em inglês na internet, e achou uma imagem que lhe chamou atenção, a de uma menina judia, segurando um elefante de madeira, olhando para uma placa que estava na porta, que tinha o desenho de um elefante com uma tarja de proibido. Isso remetia que ali era proibido entrar judeus, negros, pessoas com deficiência, que eram as pessoas perseguidas pelo nazismo.

O CHAPLIN: Que reações vocês conseguem perceber da plateia?

Anderson: O coreógrafo deixou bem claro para nós desde o princípio, que algumas pessoas iriam amar, e outras odiar, mas o importante é que vocês estão fazendo esse trabalho para o mundo. Nós vemos reações bem positivas, por exemplo, fizemos duas temporadas em São Paulo, algo que é muito difícil de ser feito, principalmente saindo da nossa cidade, que não tem uma tradição em dança. Já rodamos por vários estados, e até fomos a Portugal e Alemanha. A reação principal de quem vê atentamente, é a percepção das fases do olhar, o olhar “proibido elefantes”, uma metáfora de quando olhamos alguém pela primeira vez e já começamos a julgá-la, somente pelas roupas, ou modo de falar.

O CHAPLIN: Quais as dificuldades de fazer uma trabalho como esse?

Anderson: Poucas, o Clébio faz muitas pesquisas antes de levar a coreografia aos bailarinos. Ele não costuma montar qualquer coisa, sempre há uma história por trás. A grande dificuldade é a falta de investimento, para você ter uma ideia, existe edital em Recife, que só para dança, libera 1 milhão de reais, enquanto aqui no estado, o valor não chega nem à metade disso, para todas as vertentes.

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O CHAPLIN: Quais as expectativas para se apresentar no Riachuelo?

Anderson: As expectativas são positivas, queremos mostrar que somos um grupo de dança como qualquer outro, e não totalmente um projeto social, como muitos pensam. Trabalhamos com pessoas que já passam por dificuldades nas ruas. Queremos levar conhecimento às pessoas, mostrar que a arte é um instrumento de transformação, principalmente para os jovens. Se você sair mudado de algumas forma, mesmo que se sinta tocado por apenas uma parte, isso significa que a arte tocou você, e que isso transformará sua percepção na sociedade.

O CHAPLIN: O que é o “Proibido Elefantes” para você?

Anderson: Um avanço dentro da dança aqui no estado. Se a maioria das pessoas pudessem assistir a esse espetáculo, com certeza elas mudariam seus pensamentos diante de alguns fatores, principalmente os jovens.

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O CHAPLIN: Quais os projetos para 2015?

Anderson: Olha, temos bastante coisa. Estamos com o projeto “Gira Dança 10 anos”, já temos editais aprovados e estamos iniciando alguns intercâmbios para a construção de alguns espetáculos. Teremos também o lançamento de um catálogo fotográfico dos 10 anos do grupo, incluindo alguns depoimentos, uma exposição com fotógrafos que já passaram por aqui, e o “Palco Gira Dança”, que irá reunir outras companhias aqui da cidade para subir ao palco junto conosco.

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