A música sempre foi algo extremamente presente em minha vida, talvez por isso seja minha arte favorita. Tive a sorte de contar com o bom gosto musical de meus pais, principalmente minha mãe e herdei algumas preferências, gostos, cantores e bandas ao longo de minha vida. Acho que desde que me entendo por gente ouço MPB, não acho não, é fato! Fui embalada para dormir quando ainda nem sequer tinha idade pra cantar ao som de “João e Maria” do Chico Buarque, mito maior da minha mãe e de tantas outras mulheres Brasil afora. Nos caminhos tortuosos da adolescência teimamos em renegar gostos similares e manias adquiridas pelos progenitores, não fui diferente. Confesso que escutei muita coisa que hoje em dia nem sei como consegui, mas também me lembro de nunca ter abdicado, abusado ou renegado uma cantora: Marisa Monte.

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Quando eu tinha pouco mais de um ano, a carioca de voz técnica e ao mesmo tempo sensível lançava seu disco de estreia, “MM”. O álbum fora produzido pelo caçador de talento da música nacional, Nelson Motta. Gravado ao vivo, foi bem recebido por público e crítica, aliás, ao longo da carreira da cantora isso foi uma constante. Jazz. Samba. MPB. Rock. Falar das influências e dos vários gêneros e referências presentes no som da Marisa chega até a ser chover no molhado, afinal quem é brasileiro inevitavelmente já ouviu ao menos uma música dela. Mas suponhamos que eu esteja conversando com alguém que não o saiba. Você, leitor que conhece, me perdoe o “arrodeio”.

Marisa Monte vem de uma família de classe média carioca, seu pai já foi presidente de uma das mais tradicionais (senão a mais tradicional), agremiação carioca, a Portela. Ainda quando criança ganhou uma bateria de presente e aos 14 anos começou a estudar canto lírico. O único problema da jovem e promissora cantora foi descobrir que gostava tanto de Maria Callas quanto de Billie Holiday. Amava também dos sambistas cronistas de desventuras amorosas da comunidade do morro aos barulhentos roqueiros oitentistas que cuspiam palavras de raiva e verdade em alto volume. Dessa dualidade fez-se o som da artista. Com o tempo, com a maturidade, parceiros e musicistas passaram pela vida e pela carreira de Monte e as mudanças foram perceptíveis em seus álbuns, mas as referências invariavelmente estavam ali.

Marisa_Monte_ukuleleCerta vez me peguei conversando com uma amiga que no cenário musical nacional de hoje em dia existem duas divas: Ivete Sangalo e Marisa Monte. Quando falo de diva, me refiro àquelas com alcance, porte e importância no cenário mercadológico e de legiões de fãs. Posso estar equivocada, posso estar sendo preconceituosa ou mesmo elitista ao dizer que Sangalo é a diva das massas, com seu axé romantizado, de batidas fortes, presença de palco e pouca, ou nenhuma, poesia. Aliás, a maioria das pessoas que conheço gostar de Ivete, gostam mais da figura em si, do que de sua música propriamente. Já Marisa Monte encontra em uma classe média o seu público principal, gente que se importa tanto com letra quanto com melodia. Aquela mesma classe média que apreciou a bossa nova e  e os tropicalistas. Gente que gosta de arranjo, que critica o excesso de percussão em show e se atenta aos mínimos detalhes técnicos do som. Em minha visão, totalmente parcial, os fãs de Marisa Monte reconhecem a artista e apreciam seu talento mais do que qualquer outra coisa. Por fim, não me apedrejem, estou aberta a um diálogo saudável quanto ao assunto.

Dizem pesquisas (tendenciosas) sobre cinema que os fãs mais chatos são os de Woody Allen. Não sei se fizeram essa pesquisa na MPB atual, mas certamente eu diria que os fãs da Marisa Monte são deveras passionais e um tantinho chatos e nisso eu me incluo. Eles não só têm a maioria dos CD’s (quando não todos) como sabem letras e mais letras decoradas e dão conta até dos produtores musicais! Sabem das parcerias mais bem sucedidas, ousam dizer que depois do buraco deixado por Elis Regina na música brasileira, só Marisa Monte preencheu (ok, isso é coisa minha). Tem até aqueles que sabem as composições da artista feitas para outros músicos, tais como: “Aonde Você Mora?” (gravada pelo  Cidade Negra) ou “Palavras ao Vento” (gravada por Cássia Eller).

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Marisa Monte gosta de ter sua vida pessoal preservada, concede poucas entrevistas, raramente é vista em alguma “balada”, no máximo está presente no desfile da escola de samba do coração, a Portela. Seus namorados, maridos e filhos são igualmente preservados. Não participa de programas de TV, não se envolve em confusão, barraco ou contradição. Marisa é uma das poucas figuras públicas que consegue manter sua vida privada, de fato privada. Artista, só quando sobe no palco e só fala sobre seu trabalho, mas não vale fazer pergunta idiota! Sim, os repórteres tem de ir com perguntas relevantes. A carioca já deu a entender em seu DVD “Infinito ao Meu Redor” (2008) que é um tanto quanto enfadonho dar conta das mesmas várias perguntas que lhe são feitas.

O distanciamento da mídia não quer dizer que a cantora seja reclusa, eremita, antissocial, arrogante ou mesmo superior. Desde o início de sua carreira, Marisa pensou e construiu sua postura e sua figura artística. A Marisa ou “Zé”, seu apelido, ficou restrita aos amigos, familiares e colegas de trabalho, aos fãs ela é a cantora e compositora que está no palco. A aura “mística” e a curiosidade em torno da pessoa Marisa Monte gera no séquito de fãs um misto de devoção e migração em massa a todos os seus shows! Chega a ser engraçado, mas o fato é que o único momento de contato do público com seu ídolo, garantido, é assisti-la em seus shows, talvez por isso eles estejam sempre lotadíssimos. E não tem a desculpa do “ah, eu já vi um show, não vou a outro”, os fãs da Marisa vão a todos os shows, sabem as músicas que vão tocar em cada turnê e cantam em coro todas!

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As turnês da artista tem um esmero e uma produção que não cabem em pequenas casas de shows. Fora do eixo sudeste em que as apresentações são mais constantes, o resto do país sempre recebe os shows da Marisa em casas com alguns vários lugares e inevitavelmente, sempre ficam cheias. Sabendo disso, por vezes, as casas de shows abusam nos valores dos ingressos, caso visto aqui em Natal. Para a apresentação de quinta-feira, 5 de dezembro, o ingresso mais barato (inteiro) está custando R$ 360,00, um disparate! Apesar do preço salgado tenho certeza que irei encontrar o teatro lotado.

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Marisa Monte é uma jovem veterana (aos seus 46 anos), como ela bem se descreveu em uma passagem do DVD “Infinito ao Meu Redor”. Avó, filha e neta vão aos seus shows e todas manjam de todo o repertório. Acredito que poucos artistas no mundo conseguem ter uma carreira tão sólida, estável, de alta qualidade e duradoura como a da carioca. Não sei se Marisa é a cantora brasileira mais importante hoje em dia, para mim ela é a mais completa e a mais regular dentre todas. Dentre os artistas consagrados na MPB brasileira eu diria que, de sua geração, apenas Marisa Monte e Adriana Calcanhotto entrariam na lista de qualidade das maiores cantoras do país de todos os tempos.

A essa altura, creio que o leitor já entendeu que a Marisa Monte é minha cantora favorita. Peço perdão pelo extenso texto, mas quando falamos sobre algo do qual gostamos tanto e admiramos imensamente, os parágrafos são poucos. Como boa fã vou assistir ao terceiro show da cantora, da turnê “Verdade Uma Ilusão”, e escreverei minhas impressões a respeito por aqui.

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O segredo pro sucesso:

“Marisa vendeu mais de 9 milhões de discos no Brasil e no exterior e vem ampliando sempre suas plateias e acumulando prêmios e críticas que a reconhecem como uma das grandes cantoras da música brasileira moderna, fazendo a ponte entre a tradição e o pop contemporâneo, integrando gêneros e gerações musicais e surpreendendo sempre o público com sua originalidade e a qualidade de seu canto, com o seu talento de compositora e a solidez de suas escolhas musicais. O segredo do seu sucesso é público e notório: tanto em discos como em shows, Marisa nunca fez concessões, sempre cantou o que quis, como quis, com quem quis e quando quis. Cercou-se sempre de grandes músicos e renovou constantemente seu repertório”, Nelson Motta.

Álbuns:

MM

MM” (1989) revelou uma Marisa Monte, apresentou suas influências, mostrou sua versatilidade, sua presença de palco e carisma desde o início. O disco gravado ao vivo no especial à finada, TV Manchete foi dirigido por Walter Salles. Com personalidade e gabarito a estreia foi feita em grande estilo, sem cortes, retoques ou escapes. Seu grande hit foi “Bem que Se Quis“, no entanto, Marisa não compôs nada. O disco serviu de ponta pé inicial e pôs no mapa o nome do que viria a ser um dos ícones musicais do país. Dentre as onze faixas tem uma regravação que ao meu ver é tão boa ou até melhor que a original, “Preciso Me Encontrar” do sambista de partido alto, Candeia. A interpretação da cantora é absolutamente envolvente, e me emociona sempre que ouço, fez da canção uma das minhas favoritas.

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No estúdio em Nova York, munida de músicos gabaritados e um produtor musical criativo, Arto Lindsay, Marisa criou seu segundo disco, “Mais” (1991). Ao lado dos Titãs, Arnaldo Antunes e Nando Reis, Marisa começou a compor. Ela alimentou-se de suas várias influências e criou o seu próprio estilo que eu atrevidamente diria ser uma mescla de música popular brasileira com um ar acetinado da música alternativa internacional. Embora a música de maior repercussão do álbum tenha sido “Beija Eu“, as minhas favoritas são: “Volte Para o Seu Lar” (composição Arnaldo Antunes), “De Noite na Cama” (composição de Caetano Veloso) e “Eu Sei (Na Mira)” (composição de Marisa Monte).

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Sem dúvidas, a obra-prima até hoje da Marisa Monte, para mim, chama-se: “Cor de Rosa Carvão” (1994). O álbum não tem um hit, o disco em si é um hit. Todas as faixas do disco são formidáveis, impecáveis e escolhidas, escritas, arranjadas e trabalhadas de maneira que não poderiam ter saído melhor. A produção é assinada por Nando Reis. Dentre todos os trabalhos da cantora, esse é o mais brasileiro. A parceria com Carlinhos Brown teve início aqui. A  única exceção a regra eu diria ser “Pale Blue Eyes“, canção de Lou Reed nos tempos de Velvet Underground, de resto tudo soa brasileiro. O disco conta com as luxuosas participações de Gilberto Gil (“Balança Pema“) e da Velha Guarda da Portela (“Esta Melodia“). Mas só pra citar algumas músicas: “Alta Noite“, “Maria de Verdade“, “Na Estrada“, “De Mais Ninguém” e “Segue o Seco“.

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Uma das coisas que sempre admirei na carreira da carioca foi sua visão de mercado. Vendável, popular, porém com uma qualidade inegável. Marisa sempre foi muito bem recebida por rádios, críticos e público. Com apenas dois álbuns ela já gravou um ao vivo com um apanhado dos discos anteriores e apenas sete faixas inéditas. “Barulhinho Bom” (1996) trazia uma nova Marisa no palco, mais experiente e esbanjando criatividade. Outro aspecto interessante na artista é a sua capacidade de tomar pra si as canções que regrava, vide “Tempos Modernos” (composição de Lulu Santos) e olhe que eu achava que nada poderia superar a versão original! O disco também foi importante pra abranger sua carreira (que já nasceu) internacional.

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Depois de um hiato de quatro anos, em 2000 Marisa ressurge com um mega hit chiclete, “Amor I Love You” do seu quinto álbum: “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor“. Os fãs xiitas disseram que a compositora estava perdendo a mão, sem criatividade e “se vendendo para o mercado”. Eu acredito que este disco em questão foi um divisor de águas na carreira da cantora, quem ainda não a conhecia passou a conhecer. Acho que até nos confins da floresta amazônica todos ouviram e cantaram “Amor I Love You”. Lembro-me que criança eu sabia decorado os versos de Eça de Queiroz recitado por Arnaldo Antunes no meio da música. Brega. Clichê. “Robertocarlização”. Vários foram os adjetivos e muitas foram as críticas. Confesso que adoro o álbum, depois de uma obra-prima, Marisa conseguiu segurar a onda com um disco mais pop. Cito minhas favoritas: “Não Vá Embora“, “Não é Fácil“, “Tema de Amor“, “Para Ver as Meninas” (regravação da composição de Paulinho da Viola) e “Gentileza“. O DVD do álbum rendeu mais um hit, a faixa “A Sua“. O disco venceu o Grammy Latino de melhor álbum pop.

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Brown, Antunes e Zé (?). O trio, a tríade, o tripé ou a tribo, Tribalistas foi um projeto dos amigos, músicos e compositores: Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. O álbum (e DVD) homônimo foi gravado em 2006 e ganhou uma turnê internacional (mas nada de shows por aqui). O projeto “despretensioso” foi lançado próximo ao natal, com direito a especial pra TV, não deu outra: sucesso de vendagens. Que atire a primeira pedra aquele que não imitou a vocalização inicial de “Já Sei Namorar“! Fato, Marisa tornou-se mais pop e o Tribalistas tinha essa proposta. A musicalidade do disco variava de samples e batidas eletrônicas a arranjos belíssimos como os de “Velha Infância” ou “Carnavália“. O trabalho foi uma metralhadora de hits, algumas músicas entraram pra trilha de novela e de tanto tocar chegaram até a abusar.

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Três anos após o sucesso do projeto com os amigos, Marisa voltou-se a sua carreira solo. Pesquisas e maternidade renderam-lhe não só um disco, mas dois: “Infinito Particular” (2006) e “Universo ao Meu Redor” (2006). Os títulos já refletem o intuito e a “pegada” de cada trabalho, Infinito é íntimo, traz canções experimentais, reflexivas e mais pop. Universo foi fruto de uma pesquisa sobre samba que a cantora fez, rendeu um álbum leve, embora não seja necessariamente um disco de samba, há muitos elementos do gênero, acrescidos de um ukulele, um naipe de cordas e um fagote.

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Os dois álbuns renderam o DVD, “Infinito ao Meu Redor” (2008). Minhas preferidas do Infinito foram: “Infinito Particular“, “Vilarejo“, “Pra Ser Sincero” (apesar do repeat da trilha da novela) e “Pernambucobucolismo“. Do Universo: “Universo ao Meu Redor“, “O Bonde do Dom“, “Meu Canário“, “Quatro Paredes“, “Cantinho  Escondido” e “Vai Saber“.

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O que Você quer Saber de Verdade” (2011) Depois de uma turnê internacional, Marisa fez turnês em 2012 pelo sul e sudeste. Por fim, em 2013 o Brasil inteiro, ou ao menos as capitais e principais cidades dos vários estados, já receberam ou vão receber apresentações da carioca. O álbum de um modo geral tem um clima folk. As orquestrações na maioria das faixas se encaixam muito bem à proposta do disco. Diferente de todos os seus trabalhos anteriores, eu diria que este é o disco mais fraco. Musicalmente falando eu gosto, mas não vejo nas letras a mesma força de outros álbuns. Dentre as catorze faixas, destaco a abre-las, “O Que Você Quer Saber de Verdade” com o seu ukulele harmônico; “Depois” a balada novelística-robertocaliana; “Amar Alguém“; a parceria com o ex-hermano Rodrigo Amarante, “O Que Se Quer“; “Verdade, Uma Ilusão“; apesar do clipe de gosto duvidoso, de ter sido trilha de novela e ser a primeira música dos cantores de barzinho, “Ainda Bem” e a balada “sertaneja” “Aquela Velha Canção” também estão entre minhas favoritas.

2 Responses

  1. Avatar
    Ogg Sousa

    GRANDE CANTORA, COMPOSITORA E INSTRUMENTALISTA. VALE A PENA QUALQUER ESFORÇO PARA ESTÁ PRESENTE AO SHOW DE MARISA MONTE. POR É SHOW MESMO.

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