“O Rei de Amarelo”, de Robert W. Chambers: o livro dentro de um livro

A figura do Rei de Amarelo e a mitologia que o cerca, como o obscuro lugar Carcosa, criados pelo americano Robert W. Chambers (1865-1933) através da influência de contos de horror, passaram a habitar o imaginário da literatura, cinema e ficção como um todo, desde a data da sua publicação, em 1895. Exemplo mais recente é a referência (e reverência) que se faz à obra na série True Detective, da HBO.

Não é coincidência que também na série a simbologia por trás do Rei de Amarelo não seja esclarecida. Na obra de Chambers, “O Rei de Amarelo” é uma peça perturbadora que afeta mentalmente aqueles que a leem, mas o conteúdo da mesma nunca é revelado – com exceção de algumas pequenas passagens. Nesta coletânea de dez contos lançada pela editora Intrínseca, quatro giram em torno da peça enigmática ou do Rei em sua subjetividade. Com mais dois contos de interlúdio e outros quatro que são conhecidos como “Quarteto das Ruas”.

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Capa da reedição da Editora Intrínseca

Rotulado como “terror cósmico” por um grande influenciado pelo livro, H.P. Lovecraft, e também pelo roteirista de True Detective, Nic Pizzolatto, O Rei de Amarelo é um clássico da literatura gótica que agora teve sua chance de ser redescoberta pelos amantes do gênero, por meio desta reedição.

Chama atenção o caráter profético da distopia que formam os quatro primeiros contos do livro, que beiram a ficção científica. Na primeira história, que data de 1895, O reparador de reputações, Chambers descreve um Estados Unidos em 1920 recém-saído de uma guerra com a Alemanha, de expansão bélica por territórios como Havaí e Cuba, e nadando numa maré de bonança e otimismo. A descrição é assustadoramente parecida com o país depois da Primeira Guerra Mundial, que se encontrava num cenário de irresponsabilidade financeira que viria a acarretar na Grande Depressão da década de 30.

Os últimos contos da obra possuem caráter autobiográfico, passando-se boa parte em Paris, retratando a vida de estudantes boêmios e escritores – como o próprio autor havia sido em sua juventude, quando residiu na França. O Rei de Amarelo merece atenção, e nesta bela edição – com destaque para a introdução do jornalista e escritor Carlos Orsi, o provável é que figure entre os favoritos de leitores das histórias de outros mestres, como Edgar Allan Poe e Lovecraft.