O sentimentalismo hegemônico de “Me Chame Pelo Seu Nome”

Imagine um bolo. Imaginou? Pronto, isso vai ser nosso objeto hipotético para melhor expressar o que é o longa “Me Chame Pelo Seu Nome”. Esse bolo possui três camadas e a cobertura, na primeira temos os quesitos técnicos como a fotografia e trilha sonora que se destacam criando uma base sólida do filme, além, é claro, do próprio roteiro; na segunda, já temos uma história emocionante com aquele charme de cinema europeu; na terceira, temos um elenco pouco conhecido, mas com um poder de atuação incrível. Portanto, chegamos à cereja do bolo, uma lindíssima história de amor contada em duas horas de longa.

Baseado no livro homônimo de mesmo título do autor Aciman André, o longa narra a história pelo ponto de vista de Elio (Timothée Chalamet) em pleno verão oitentista no norte da Itália, até que seu pai recebe um estudante em sua residência, Oliver (Armie Hammer). E entre idas e vindas, Elio e Oliver desenvolvem uma relação de amor e ódio durante a estadia deste último naquele verão.

Me Chame Pelo Seu Nome com certeza é o tipo de longa em que é necessário estar com o sentimento e a vontade certa para conferi-lo, pois em virtude da sua narrativa lenta e com poucos grandes momentos, a trama se arrasta dentro dessas duas horas, mostrando a relação interpessoal dos nossos protagonistas. Até porque uma história de amor não acontece como nas comédias românticas que estamos tão acostumados a consumir. O que justifica totalmente o filme durar tanto é o aprofundamento de personagem em ambas as partes, os conflitos internos de Elio, que está passando por uma fase difícil de sua vida, e o seu amadurecimento dentro dessa aventura que está vivendo.

A película é provavelmente a retratação mais sensível que temos entre os indicados de Melhor Filme no Oscar desse ano, justamente por tratar de um assunto e um gênero tão batidos no cinema mundial. Tal como seu concorrente, A Forma da Água (2018), o filme aborda temas sobre o amor que independem de sexo, cor e etnia.

Luca Guadagnino é quem assina a direção do longa e trata a história roteirizada por James Ivory, e, por ser italiano, a película tem essa caricatura de filme estrangeiro com o granulado fofo e tons pastéis. Os enquadramentos que por várias vezes podem ser um tanto reveladores sobre os próprios sentimentos dos protagonistas tornam o filme ainda mais profundo, contudo em certo momento existe uma sequência que destoa muito da proposta do longa, e a imagem fica em negativo com cores gritantes, que chegam a incomodar muito a visão de calmaria que temos no decorrer da história.

Como a história é contada pelo ponto de vista de Elio, a afinidade com o personagem é inevitável. O trabalho de atuação de Timothée Chalamet é excepcional, e nos entrega um personagem introspectivo, confuso e loucamente apaixonado. Ainda mais porque o prodígio aprendeu a tocar piano e fala em três línguas diferentes durante o longa: inglês, italiano e francês. O trabalho de Armie Hammer é tão bom quanto o dele. Por interpretar uma pessoa mais experiente, aprendemos junto com seu amor de verão o que é se apaixonar e como o amor pode ser tão peculiar.

Me Chame Pelo Seu Nome é um forte concorrente ao Oscar de Roteiro Adaptado, além de também estar disputando Melhor Filme, Melhor Ator (com Chalamet) e Melhor Canção Original com a música Mistery Of Love, de Sufjan Stevens. O longa também conta com produção brasileira, a produtora RT Features, de Rodrigo Teixeira, está envolvida, e caso o filme ganhe o maior prêmio da noite, teremos brasileiros no palco.

O longa tem um sentimentalismo elevado, o que pode levar os mais sensíveis a um choro incansável durante a extensão da história. Marcado por um bom roteiro, e uma direção sagaz, Me Chame Pelo Seu Nome é um filme sobre descoberta e amadurecimento adolescente com requintes de cinema europeu.