Vencedor dos principais prêmios de cinema do país. Selecionado para importantes festivais da Europa. Eleito pelo New York Times como o nono melhor filme do ano passado.  Não há como negar a escolha por este filme na hora de ir ao cinema. Foi com toda essa expectativa que conferi o filme do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, “O Som ao Redor” (2012).

O frisson “ao redor” dessa obra já se justifica logo nos primeiros quadros (sim, nos primeiros quadros), uma vez que os espectadores já percebem que o cineasta vai tocar num tema delicado, para nós, brasileiros: o filme se inicia mostrando fotografias do meio rural, de escravos trabalhando para uma casa grande. Em seguida, há um corte seco para o meio urbano contemporâneo, no qual as cenas foram feitas com a técnica da câmera na mão e do zoom, com vistas a evidenciar os aparatos de segurança dos prédios de Boa Viagem protegendo crianças da elite pernambucana. Nesse sentido, arrisco dizer que nenhum filme nacional até hoje foi capaz de mostrar com tamanha perspicácia a banal violência social urbana decorrente da estrutura colonial: os medos, as inseguranças e a artificialidade encarnadas nos diálogos entre pessoas de diferentes classes sociais.

Uma das cenas mais inquietantes de “O Som ao Redor”: as estruturas rural e urbana de poder estão banhadas em sangue dos escravos?

O filme está longe de ser previsível, mesmo quando a chegada de seguranças privados numa rua dominada pela família de um ex-fazendeiro indique alguns caminhos narrativos. Dessa forma, somos capturados por momentos de suspense sem nos darmos conta se os anteriores já foram solucionados (ou não, uma vez que, por muitas vezes, as ameaças não se concretizam). As assombrações de um passado de escravidão e de histórias paralelas aparentemente sem a menor importância para o fio narrativo são as responsáveis pelos momentos de maior tensão. Assim, por meio da utilização de procedimentos clássicos do suspense e de uma sonoplastia que prioriza os sons naturais, o mérito de “O Som ao Redor” ultrapassa a questão do tema polêmico.

Com todas as renovações supracitadas, “O Som ao Redor” une, com êxito, as perspectivas rural e urbana abordadas separadamente nas seguintes produções pernambucanas: “Baile Perfumado” (1997), “Amarelo Manga” (2003) e “A Febre do Rato” (2011). Certamente, ele também confirma a posição de Pernambuco como um dos estados mais participativos da cena contemporânea do cinema nacional. Os recentes reconhecimentos são um excelente sinal de que o caráter criativo da cena pernambucana poderá ganhar, merecidamente, todo o mundo.

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