Dia desses, movida pela curiosidade, por atrativos visuais e pelo peso de um ou outro nome gabaritado, fui assistir a um espetáculo de teatro infantil em uma dessas grandes casas que recebem montagens hiperbólicas. Efeitos visuais para cá, firulas para lá, clichês e estereótipos por todos os lados e um texto que me fazia indagar se seria possível idiotizar mais o público. “Eu não deixaria um filho assistir a este espetáculo”, comentei, em tom de promessa (e que o registro publicado sirva como prova para que em tempos futuros eu não venha a esquecer o dito). Antes do fim do espetáculo, agoniada e com a terrível sensação de tempo perdido, não aguentei e deixei o lugar. É sempre vergonhoso sair antes do fim, mas pior seria ser desonesta comigo mesma e com a montagem em cena.

Feita essa introdução (provavelmente mais longa do que o necessário, culpa da minha incurável prolixidade), devo confessar que fiquei matutando em minha cabeça se era aquele o formato de espetáculos infantis que estava sendo difundido no meio cênico. Seria com um texto batido e personagens clichês e caricatos que as crianças deveriam ter sua iniciação no mundo artístico? Ou eu estava dura demais? Como resposta para as minhas dúvidas, e a prova de que um produto infantil pode ser tão inteligente e envolvente quanto montagens pensadas para o público adulto, tive a oportunidade de conhecer, em ocasião da programação infantil do Festival O Mundo Inteiro é um Palco, a Cia. Meias Palavras.

Arilson Lopes, Samuel Lira e Luciano Pontes compõem o elenco de "As Travessuras de Mané Gostoso"

Arilson Lopes, Samuel Lira e Luciano Pontes compõem o elenco de “As Travessuras de Mané Gostoso”

O grupo de sotaque pernambucano e sensibilidade que dispensa limites geográficos chegou a Natal com o nobre objetivo se apresentar dois espetáculos, em três sessões, no último final de semana no Barracão dos Clowns de Shakespeare, localizado no bairro de Nova Descoberta, que tem um agradável ar interiorano, satisfazendo o clima daquela manhã de sábado, 24, quando tive o primeiro contato com o grupo.

O espetáculo “As Travessuras de Mané Gostoso” une música ao vivo e um texto inspirado na oralidade e nos contos populares. Isso para ser básica, pois só reconhece a beleza de uma sanfona, do triângulo e da zabumba quem sente. O trabalho de estudo realizado pelo grupo para compor os personagens da peça também é admirável: desde as “mugangas” com o rosto, até os trejeitos que cada personagem adotou no andar, tudo cativa e faz entoar os risos – que não eram só de crianças, convém dizer.

"As Aventuras de Mané Gostoso"

“As Aventuras de Mané Gostoso”

“Seu Rei Mandou”, por sua vez, foi apresentada no domingo, 25, em duas sessões. Uma delas acompanhada por tradução simultânea em libras, uma iniciativa louvável de inclusão no teatro. O texto, assinado por Luciano Pontes, que no mesmo dia lançou o livro homônimo à peça, é divertido e criativo, adaptado com poesia de três histórias que conhecemos do imaginário infantil de reis, príncipes e princesas: A Lavadeira Real, O Rato que Roeu a Roupa do Rei de Roma e O Rei Chinês Reinaldo Reis. Com menos atores e menos elementos de palco que “Mané Gostoso”, a montagem é toda sustentada por Luciano Pontes, que também é o ator na peça. O ritmo quem dá é a flauta e o tambor de Gustavo Vilar, músico que divide a cena com Luciano. Ambos os espetáculos foram merecidamente inclusos no projeto contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz.

A cereja do bolo que me fez aplaudir de pé a Companhia, no entanto, foi o seu Espaço Itinerante de Literatura no Teatro. Explico. No momento em que cheguei ao Barracão dos Clowns, observei crianças, algumas delas acompanhadas por suas mães, sentadas sobre tapetes, em baixo de uma tenda, sob a qual se empilhavam alguns livros infantis em prateleiras armadas para o evento. É tradição do grupo partilhar com o público, momentos antes do espetáculo, as obras literárias que lhes serviram de inspiração para as montagens. Não estivesse eu no auge dos meus notórios 23 anos, ou mesmo tivesse uma criança para tomar emprestada por alguns minutos, teria também sentado nos tapetes mágicos da tenda e experimentado a proposta, pela qual fiquei encantada.

"Seu Rei Mandou"

“Seu Rei Mandou”

A sensação que tive ao fim dos espetáculos é que não é necessário muito para fazer um bom espetáculo infantil. Da mesma forma que crianças, por vezes, preferem as inúmeras possibilidades de uma garrafa PET a um sofisticado controle remoto, um texto valioso com humor genuíno cativa mais que arrobas de luzes e exageros, sem qualquer criatividade. Mané Gostoso ainda há de fazer suas estripulias por vários lugares mundo a fora e Seu Rei tem muitos súditos a conquistar. Para quem não teve a oportunidade de conhecê-los no Festival, a circulação continua e outros estados do Nordeste receberão o grupo. Fica a dica para os pais de crianças e para qualquer um que queira se encantar.

Página do Facebook da Cia. Meias Palavras.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.