Segundo o dicionário Michaellis, resistir significa conservar-se firme, não sucumbir, não ceder. Eu estudei muitas formas de resistência no ensino médio, mas as que mais chamaram a minha atenção sempre foram as resistências políticas, guiadas por ideais de mudança. Aprendi que resistir não é só um ato, é um fato a ser ensinado e encorajado. Desde a última terça-feira, 17, coletivos de artistas e militantes de Natal ocupam o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), localizado no bairro da Ribeira. A pauta do protesto é o fim do governo interino de Michel Temer e o retorno da cultura como ministério.

Foto: Gustavo Nogueira

Foto: Gustavo Nogueira

Uma das primeiras ações de corte de gastos do novo governo foi a mudança do Ministério da Cultura (MinC) em uma secretaria do Ministério da Educação (MEC). Desde o começo da semana, como forma de protesto, mais de 15 órgãos públicos ligados aos extinto ministério foram ocupados em mais de 10 capitais do país.”Este ato é o resultado da discussão de que o MinC é nosso! Essa discussão não é só no Rio Grande do Norte, é um pauta nacional. Foi desse debate que puxamos a ideia da ocupação do IPHAN, com grupos de artistas de teatro, de circo, da música, entre 15 a 20 pessoas. Cerca de outras 100 pessoas apoiaram a nossa ideia e ocuparam o espaço junto conosco”, aponta Danúbio Gomes, 48, membro da coordenação da Ocupa MinC RN.

Passei algumas horas na companhia dos manifestantes, e observei uma programação recheada de intervenções, assim como a contribuição de diversas pessoas – não só ligadas a movimentos culturais – que chegavam com água, sucos e alimentação. Para cada doação realizada, a palavra que mais escutava era resistir. Uma das tarefas dos ocupantes é não atrapalhar as funções da equipe do IPHAN, que recebeu de forma aberta a manifestação e tem um diálogo direto e cooperativo com a coordenação. Professores de graduação e mestrado estão realizando aulas no local. Oficinas de circo e percussão também fazem parte das intervenções, além de debates políticos, apresentações musicais e sarais poéticos. Não falta o que fazer, não faltou o que conversar.

Saindo das paredes da universidade, o professor Daniel Dantas Lemos (UFRN) resolveu ministrar sua aula de Comunicação e Ética no pátio do instituto, convidando alunos e manifestantes para um debate sobre o papel da mídia na construção de discursos e a ética jornalística, que muitas vezes é esquecida nas salas de aula. Para Laís Fernandes, 21, aluna do curso de Jornalismo, “a experiência foi muito boa, pois tirou a aula do convencional e levou os alunos para um movimento como esse. Agregou conteúdo e nos fez vivenciar a ocupação ao lado de artistas e escritores renomados da nossa cidade”.

Foto: Gustavo Nogueira

Foto: Gustavo Nogueira

Foto: Joanisa Prates

Foto: Joanisa Prates

Para o membro do grupo Estandarte de Teatro e mestre em artes cênicas, Lenilton Teixeira, 53, “a comunicação com outras ocupações e coletivos de resistência é de fundamental importância. Para tanto, fizemos um grupo só de integrantes das ocupações a nível nacional, no qual trocamos experiências e narrativas das nossas ações. Estamos organizados e tratamos com todo o cuidado os locais que ocupamos, pois reconhecemos a importância destes prédios históricos”, comenta. Para ele, o rebaixamento da cultura para uma secretaria é muito simbólico, pois parte da classe artística vinha liderando protestos e manifestações contra o impeachment da presidente. “Um governo golpista e notoriamente corrupto, no momento em que assume o poder, tentar calar a cultura em sua primeira ação. Isso é muito significativo e mostra o lado que eles representam”, afirma Lenilton.

Os manifestantes não comentam sobre uma data de desocupação; falam que só sairão quando Temer sair. Gritam palavras de ordem: “Fora Temer”, “O MinC é nosso, “Mais cultura” e, novamente, “Resistir”, esta palavra que não some deste texto ou da boca do povo. Um sentimento forte paira sobre o IPHAN e de nenhum modo é nocivo. Crianças brincam, homens e mulheres conversam. Casais se beijam na escadaria do prédio e na rua. O sol se põe no rio Potengi e eu me despeço da equipe que me recebeu e me apresentou seus pontos de vista. O jornalista sai, a luta fica.

Foto: Joanisa Prates

Foto: Joanisa Prates

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