Os desamores do Androide Sem Par

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Juão Nin é a cara e a voz do Androide Sem Par [Foto: Diego Marcel]

“Se quiser me conhecer, vai ter que passar doze meses comigo”, ultrapassei a data, fato, e embora o álbum do Juão Nin tenha sido lançado há dois anos, o som das treze faixas, as letras e melodias continuam a me embalar entre sabores e desamores. “Grave” (2013) foi o debut da banda potiguar Androide Sem Par, projeto do Dosol Net Label e quem assina a produção musical é o cantor e compositor Luiz Gadelha (Talma & Gadelha).

As relações humanas por si só já são deveras complexas, acrescidas de um punhado de expectativas, frustrações, mágoas e uma pitada de assuntos mal resolvidos a gosto, dão a receita pra uma tragédia amorosa. Juão, multifacetado artista potiguar, é cru e verdadeiro e o resultado é um relato sincero e intimista de suas desventuras amorosas.

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Grave” foi um projeto bem sucedido no site de colaboração online, Catarse. Com a grana do financiamento, o álbum aconteceu. Mas, antes mesmo de ter material gravado, a banda se destacou em 2012 com shows sempre lotados e os fãs cantando junto. Este fenômeno já ocorreu outras vezes, com (a finada banda) Jane Fonda, posteriormente com o Talma & Gadelha e hoje enxergo muito disso no Plutão Já Foi Planeta.

O disco começa de forma lenta e acústica, com Longa Primavera, intimista e esperançosa, a canção traz um clima quase pueril de início de namoro, tema este também presente em Não Espectador.

Na terceira faixa o álbum inicia o primeiro momento de clímax. Com uma sequência de três baladas matadoras, começando por Esses Meses. O single icônico do álbum continua com a temática de comecinho de romance, o tema singelo encontra força na pulsante bateria e nos solos de guitarra e a letra certamente irá “passar o tempo todo contigo”. Na sequência, minha outra favorita, Quando?, que vai te fazer pensar: “mas por que diabos eu fui inventar de voltar com aquele bicho?”. Trinca, encerra a tríade de baladas matadoras, aumente o volume, esbraveje aquele “chifre”, aquele flerte com aquele certo alguém que “tava de  rolé” com mais de uma pessoa.

O álbum acrescenta novas sonoridades no segundo momento de clímax a partir de Preso, exibindo novos instrumentos como um naipe de cordas. Com um ukulele charmoso e instrumentos de sopro, Com um Buraco no Peito, é o que eu chamo de “baladinha Smithiana”, daquelas que, com letra amargurada, te bota pra dançar. Tonto é um blues sem autopiedade nenhuma, cru, rasgado e gritado. Aproveitando que o bar está aberto, pegue mais uma dose pra digerir Tragédia Festiva.

O tom poético e teatral de Juão é expresso nesta terceira parte do álbum com O Mesmo Mar que Une, Separa. Estou Aqui traz à tona lembrança felizes de uma relação romantizada e juvenil. Última Cação, que apesar do título que se refere a um fim, soa mais como uma porrada nos ouvidos, prepara o terreno para a esperança, sim “de querer que algo bom aconteça entre eu e você” que Polos Iguais voz e violão encerra.

Em “Grave“, Juão despiu-se e revelou suas experiências pessoais, com canções que  flertam entre bons e maus momentos com o amor, sugerindo soluções, cuspindo fúria e ainda assim tornando a encantar-se com as sensações que este lhe causa, o que nós, pobres mortais todos acabamos fazendo também. Este é mais um dos bons resultados de trabalhos de artistas potiguares desta nova safra. O disco está disponível para download no site do Dosol.