Paker: roteiro traz inversão de valores com mais um conto do bad boy

Taylor Hackford é um veterano e eclético diretor de cinema, já tendo assinado desde cinebiografias até dramas e filmes de suspense. Contudo, podemos dizer que no gênero “ação com pitadas de humor”, o filme “Parker” é um pioneiro na carreira do diretor. E não podemos dizer que Hackford fez um mal trabalho, considerando a matéria bruta que tinha em mãos. “Parker” é um daqueles filmes que tentam humanizar a vilania, transformando um personagem que facilmente seria considerado o “cara mau” em um protagonista simpático, boa-pinta e humanista que, apesar de ladrão e, quando lhe convém, assassino, ganha a aceitação do público como um sujeito ético e bem-feitor.

Jason Statham é o protagonista do filme, o bad guy com princípios éticos, Parker

O interessante de assistir a filmes com esse tipo de personagem é que, frequentemente, vemos um mesmo estilo de prólogo. O cara vai passar todo o filme fazendo coisas moralmente erradas, mas você vai torcer por ele ainda assim, porque no início do filme ficou dogmatizado que, apesar de tudo, ele é “bom”. Em “Parker” isso acontece da seguinte forma: o protagonista cujo nome é o mesmo do filme (interpretado pelo já conhecido das produções de ação, Jason Statham) aparece travestido de padre em um parque de diversões, prestes a cometer um assalto milionário. Antes disso, contudo, ele interrompe o seu esquema para ganhar um prêmio para uma garotinha em uma barraca de jogos. Durante o assalto, acalma um dos seus reféns, com um discurso digno de uma sessão de terapia. No fim de tudo, algo dá errado e algumas pessoas saem feridas. Então, frustrado e indignado pelo descuido da equipe, Parker discute com os colegas por terem ferido seus códigos de ética enquanto um assaltante correto e honesto. É suficiente para que o personagem ganhe o espectador e não importa se, no decorrer do filme, é o sujo lutando contra o mal lavado, acabamos escolhendo um lado e sendo leais a ele.

Jennifer Lopez é uma corretora solteira em Palm Beach

O enredo passa longe da classificação de genial. O filme desenrola-se na busca por vingança de Parker para com os colegas que lhe tentaram matar no início da trama. Poucos personagens têm destaque no filme fazendo com que a história se centre, praticamente toda, na cidade de Palm Beach, na Flórida, entre várias cenas de ação, a tediosa vida da corretora Leslie (Jennifer Lopez) e, após ela conhecer Parker, na parceria para o crime dos dois.

Ao contrário de “Linha de Ação” (filme anteriormente comentado), Parker faz jus ao gênero no qual foi classificado. As cenas de ação são predominantes, e o roteiro é competente o suficiente para fazer com que o espectador as entenda. Algumas se tornam exageradas, com momentos que beiram ao trash mas, noves fora, as cenas, em sua maioria, chamam atenção e são, no mínimo, suportáveis.

Quanto às atuações, todos estão em níveis medianos. Jason Statham se mostra confortável no papel de sempre, cadeira cativa dos blockbusters de ação. Jennifer Lopez foi desenterrada e provou que continua fazendo cinema tão bem quanto música (tirem suas próprias conclusões). Mas a moça tem presença e é, pelo menos, agradável vê-la na telona. Quanto ao restante do elenco, ninguém aparece por tempo suficiente para que tenhamos possibilidade de elaborar uma opinião concreta.

Jennifer e Jason em cena do filme

Posso dizer que, considerando o que tem saído das caixas das produtoras, “Parker” não é dos piores. De fato, nada no filme alcança um aspecto que chame a atenção de um espectador exigente, mas mantém o nível mínimo para não deixar ninguém indignado. O humor, por vezes presente, do filme ameniza um pouco a trama e provoca algumas gargalhadas para compensar os momentos em que tive que virar o rosto por medo do excesso de sangue respingar da tela para o meu rosto.

O fim do filme também não decepciona, apenas aos mais românticos. “Parker” está na lista das receitas de bolo hollywoodianas, e envolve duas das temáticas mais batidas do cinema: a vingança e o triângulo amoroso. Alguns diretores perdem a mão na dosagem e acabam fazendo bobagem, mesmo com a receita pronta. Outros, como é o caso de Taylor Hackford, são experientes o suficiente para só seguirem o que manda o script, concluírem uma produção que inevitavelmente terá um número razoável em bilheteria, e assim, garantir o presente de casamento da esposa Helen Mirren.