Philomena: road movie aborda culpabilidade católica e perda com sarcasmo britânico

Em uma Irlanda do Norte católica, uma jovem moça se envolve com um rapaz charmoso em uma noite de liberdade e felicidade no parque de diversões de uma pequena cidade. O rapaz galanteador lhe oferece cerveja e lhe elogia, Philomena ingênua e jovem acaba se entregando ao calor e à alegria do momento e peca. As consequências daquela noite foram cobradas à jovem de dezoito anos, mas a dor e a angústia de Philomena durariam bem mais que isso. Baseado em fatos reais, o novo filme do diretor Stephen Frears (A Rainha), conta a história de Philomena Lee, uma mulher que durante cinquenta anos guardou um segredo, o seu filho. Estrelando Steve Coogan (que também assina o roteiro ao lado de Jeff Pope) e Judi Dench, aos setenta e nove anos, esbanjando talento e carisma em uma atuação formidável, merecedora de todos os elogios.

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Steve Coogan é o sarcástico jornalista Martin Sixsmith e Judi Dench dá vida a uma adorável Philomena Lee

A Igreja Católica por muito tempo, e de certa forma até hoje,  dominou seus fieis com base no medo de cometer pecados. A culpa e o medo de não conseguir um lugar no paraíso era o que movia suas vidas. O convento da Abadia de San Ross seguia esses moldes, de culpabilidade e punição, deste modo abrigava pecadoras que não eram bem vistas pelas famílias e sociedade, tais quais a jovem grávida Philomena. As freiras faziam os partos das crianças e em troca as mães tinham de pagar 100 libras. No entanto, a maioria das garotas que iam para lá não tinham essa quantia. Para resolver o problema, as jovens mães quitavam suas dívidas com prestações de serviço por quatro anos, caso de Philomena. As mães tinham apenas um curto intervalo de tempo de uma hora por dia para ver seus filhos que ficavam no orfanato do convento e poderiam ser adotados a qualquer momento. Assim, Anthony, filho de Philomena foi adotado e ela nunca mais teve notícias suas.

O filme se inicia contando a história do jornalista político Martin Sixsmith (Steve Coogan) que se encontra em crise após perder seu emprego. Cínico, amargurado e descrente com as coisas da vida, o jornalista acaba esbarrando com a história de Philomena, uma senhora que no aniversário de cinquenta anos de seu filho quebra o silêncio e quer conhecê-lo. Sixsmith a princípio se nega a contar a história da senhorinha, mas um contrato com uma editora lhe dá a oportunidade de escrever sobre a busca de Philomena. Deste modo inicia-se um road movie a procura do paradeiro de Anthony e só existe uma única pista que confirma sua existência: uma fotografia de quando era criança.

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Martin Sixsmith e Philomena Lee da vida real

Martin é um jornalista pragmático, gosta de assuntos relevantes, sérios, economia, política e não é nem um pouco chegado a ideia de falar sobre “matérias de interesse humano” e embarca nessa busca meio a contragosto. Diferente de Philomena, uma senhora religiosa e misericordiosa, o jornalista não gosta da culpabilidade do catolicismo, é ateu e não compreende como depois de todo o sofrimento que aquela senhora passou ela ainda consiga manter sua fé. O filme a partir daí segue por duas vias interessantes: o questionamento à Igreja e o drama de uma mãe para reencontrar seu filho.

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O diretor, ao meu ver, parece mais engajado em discutir a severidade e costumes da Igreja, como a negação da sexualidade, que podemos ver de uma maneira muito dura e enfática nas palavras da Madre Superiora e o quão enraizados esses preceitos são. Há uma clara crítica às práticas punitivas da entidade religiosa e isso fica óbvio em como ele enfatiza o caso da adoção (que logo percebemos que se trata da venda de crianças) das jovens pecadoras. Mas apesar disso, o que mais me comoveu no longa foi o outro viés, o humano, a ligação que um ateu intelectual e metido desenvolveu com uma senhora simples e religiosa, essa é a grande beleza do filme.

Muito me surpreendi com Steve Coogan, acostumada com o ator em comédias pouco inteligentes, o vejo agora como bom britânico, seco, direto e com um humor negro e sarcástico, em uma ótima atuação. Do outro lado me deliciei com uma adorável, simpática e doce senhorinha que Judi Dench dá vida, em uma atuação merecedora de prêmios. Por falar em prêmios, “Philomena” concorre em quatro categorias no Oscar 2014, são elas: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (Judi Dench) e Melhor Trilha Sonora (Alexandre Desplat). Acredito que a categoria que o longa tenha mais chances seja a de Melhor Trilha Sonora, Alexandre Desplat pode não ter o nome tão conhecido como o de Hans Zimmer, mas já contabiliza cinco indicações por trabalhos de qualidade, e é bem provável que este ano a Academia reconheça-o pela delicadeza e sensibilidade de seu trabalho no longa de Stephen Frears.

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É verdade que o filme por vezes pode beirar o melodrama, mas seus personagens são tão interessantes e bem construídos que não caem no óbvio do dramalhão. Embora o diretor queira sim culpabilizar a Igreja e por vezes pese a mão nesse sentido, os personagens trazem um quê de humanidade que foge a qualquer maniqueismo. Philomena tem seus momentos de raiva, de angústia e de dúvidas para com sua fé, ao passo que Martin questiona seu lado racional e se percebe muito mais sensível a fatores que vão além de um único julgamento sobre as coisas.

As descobertas e as conquistas dos protagonistas são a verdadeira alma da película, assim como todo bom road movie, a verdadeira viagem e as mudanças que esta pode sofrer, na realidade são metáforas para explicar a complexidade e as metamorfoses sofridas pelas pessoas. “Philomena” é um dos filmes deste ano de que mais gostei e independente de quaisquer prêmios que possa vir a ganhar, o longa vale sim muito a pena ser visto, pela humanidade e pela sinceridade que a história carrega consigo.