Piaf – Um Hino ao Amor: Cinebiografia de Edith Piaf com tons de grandiosidade traz uma Marion Cotillard irretocável

Neste final de semana fui acordada ao som de “La Vie en Rose”, por um dos meus vizinhos. O clima de chanson française perdurou por toda a manhã, então eis que resolvi reassistir a cinebiografia da cantora símbolo francesa, Edith Piaf. O filme de 2007, dirigido por Olivier Dahan, conta com um elenco inspirado e uma Marion Cotillard no papel principal, impecável. “Piaf – Um Hino ao Amor” é um filme grandioso, em todos os sentidos da palavra, às vezes, erra a mão e exagera , no entanto, no que diz respeito às atuações temos de tirar o chapéu para Cotillard, merecedora de todos os elogios, prêmios e honrarias. A atriz, desconhecida do grande público, até então, incorporou Le petit môme (o pequeno pardal) de modo que até nos confundimos com a verdadeira Edith.

 Em atuação irrepreensível Marion Cotillard (Edith Piaf) faz sua melhor interpretação até hoje

Contado de modo não linear e abusando nos flash-backs, o longa peca no exagero. Apesar de francês, a tônica de grandiosidade lembra as cinebiografias hollywoodianas, entre o ídolo e o ser humano por trás da fama. No primeiro instante do filme, vemos uma Piaf em decadência, de saúde debilitada, cantando de modo arrebatador, em 16 de fevereiro de 1959, em Nova York, três anos antes de falecer. Logo em seguida somos convidados a conhecer sua infância complicada e sofrida. Filha de uma prostituta aspirante a cantora e de um pai contorcionista veterano da primeira-guerra mundial, a pequena Edith Giovanna Gassion tenta sobreviver, no bordel de sua avó, em uma França pós-guerra.

A cantora que encantou e ainda encanta a todos com sua voz única e interpretações carregadas de paixão e emoção, as quais temos acesso por meio de seus discos e canções, teve uma vida marcada pelo sofrimento e miséria. Antes de ser a cantora símbolo da França e a maior referência do gênero chanson, teve sua infância dividida entre prostíbulos e circos. Piaf enfrentou uma série de problemas de saúde, quase perdeu a visão. Quando adulta, abusou do álcool e das drogas. Casou, descasou e casou novamente. Sofreu, chorou, sorriu, gritou, cantou, e já no fim, não se arrependeu de nada.

Piaf (Cotillard) no estúdio em Nova York prestes a gravar “Milord” ao fundo, o ícone do jazz americano, Billie Holiday

A artista Piaf, antes de ser uma estrela, cantou nas ruas mal cheirosas de Beliville, em bordeis que mais pareciam muquifos abarrotados de bêbados e mulheres da vida. Até que um olheiro, Louis Leplée (Gérard Depardieu, em uma discreta participação), vê potencial naquela desajeitada, maltrapilha e frágil garota e lhe dá a primeira chance em sua carreira. O caminho até chegar ao estrelato é longo, difícil e, ao mesmo tempo,  divertido, assim como o temperamento da cantora. Ao lado de sua amiga mais fiel, Mômone (Sylvie Testud) e educada pelo duríssimo professor de canto e empresário, Raymond Asso (Marc Barbé), que a transforma em uma intérprete de verdade, polida e deslumbrante.

Planos-sequência suntuosos, com cenários trabalhados e bem construídos, cenas intensas recortadas por apresentações da cantora na Europa e nos EUA. Todos esses excessos são apenas uma pequena parte do que Marion Cotillard proporciona aos espectadores, ela faz aquilo que só os grandes atores em poucas vezes conseguem: nos traz a Edith Piaf a tela. Por muitas vezes esqueci que era uma atriz ali e nos cochichos da sala de cinema me referia à atriz como sendo a própria cantora. Carregada de sentimentos e paixão, Cotillard é tão convincente nas cenas musicais, que só reparei que se trata de uma dublagem (deveras bem feita) há pouco tempo. O longa levou duas estatuetas do Oscar para França: de melhor atriz (Marion Cotillard) e melhor maquiagem.

Lado a lado, Edith Piaf e Marion Cotillard, entrega da atriz e maquiagem a transformaram

Vale salientar que este não é o primeiro registro cinematográfico da história da artista: há também “Piaf”, filme francês, dirigido por Guy Casaril em 1974, protagonizado por Brigitte Ariel e “Edith e Marcel” (1983), dirigido por Calude Lelouch, que trata do caso amoroso da cantora com o pugilista Marcel Cerdan, tema bastante explorado no longa de 2007.

A transformação que a atriz sofre no decorrer do filme, é fantástica, Marion não se esconde por trás da maquiagem – outro aspecto que merece todos os prêmios e elogios possíveis -, ela incorpora o espírito boêmio, sofrido e passional de Edith desde sua juventude até seu fim. Poucos atores me fizeram rememorar os ícones representados: Philip Seymour Hoffman em “Capote” (2005), Robert Downey Jr em “Chaplin” (1992), Jamie Foxx em “Ray” (2004) e, posteriormente, Meryl Streep em “A Dama de Ferro” (2011) e Michelle Williams por “Sete Dias Com Marilyn” (2011).

Sylive Testud (Mômone) e Marion Cotillard (Piaf)

Eu sei que soa piegas e tiete, mas eu não vejo outro adjetivo senão arrebatador para definir a interpretação de Marion Cotillard e é exatamente assim que me sinto toda vez que ouço Edith Piaf. A título de cinebiografia, “Piaf – Um Hino ao Amor” é de extrema importância para aqueles que conhecem e desconhecem a história de uma das maiores cantoras de todos os tempos, artista que influenciou toda uma geração de músicos como Charles Aznavour, Jacques Plante, Francis Lemarque e a contemporânea Zaz. No que diz respeito à obra de arte, o filme é exagerado, mas compensa na irretocável atuação de sua protagonista e possui uma excelente trilha sonora com os grandes sucessos de Piaf.