Carta aberta ao Sr. Steven Spielberg

Caro Sr. Spielberg, era com bastante alegria e entusiasmo que eu ansiava por cada novo trabalho seu; isso foi alguns anos atrás, eu ainda era jovem, cheio de sonhos, e, irremediavelmente, tinha uma forte inclinação a defender, e justificar os erros dos meu ídolos – por mais esdrúxulos que eles fossem.

Como quero corroborar aqui, com você não foi diferente; ou melhor, foi. Pois eu não advogava em prol de qualquer um, mas sim do sujeito que indiretamente ajudou a pavimentar os ladrilhos do meu imaginário infantil; e é claro, ensinou-me através de seus filmes, lições importantes sobre coragem, tolerância e amizade. Algumas delas: que não há monstro marítimo que seja páreo à coragem e perseverança; que somos pequenos e ignorantes diante das luzes do desconhecido; que quando demonstramos bondade a um estranho estamos reconhecendo nele uma parte boa de nós, mesmo que esse outro seja um etêzinho feioso e raquítico; que arqueólogos não comercializam as relíquias, eles as doam para que outras pessoas aprendam com elas.

Alguém que consegue permear tão bem a flora infantil, evidentemente é uma criança por dentro, e não tem vergonha de admiti-lo, como você já o fez. Analisando sua obra de uns 15 anos pra cá, eu me pergunto, “Será que ele cresceu?”. Bem, cada vez mais acredito que sim; e pior: você está se tornando aquele adulto chato, indulgente e caricaturalmente moralista! Aquele tipo de pessoa que olha o próprio passado não como um encaixe de si, mas como uma espécie de doença que conseguiu erradicar! (cara, por que tu não acabou o filme quando o menino-robô encontrou a fada? e por que na edição pra DVD de E.T. você apagou digitalmente todas as armas de fogo e as substituiu por walk-talks?)

Enfim, acho triste quando tenho de conjugar as qualidades de alguém no tempo pretérito. Espero que não tarde para que eu volte a conjugar as suas no presente. Esse negócio de ser adulto não é com você; volte a ser moleque. Estou com saudades…

Campina Grande, 15/FEV de 2013

Compartilhe

Fernando Lins
Abandonou a escola logo cedo porque não conseguia aprender nada. Cursou História na UFRN, para mais uma vez descobrir que as instituições de ensino são “gulags” que destroem todo e qualquer sentido genuíno de saber. Hoje, exilado em Campina Grande-PB, dedica-se ao anarquismo espiritual.
Fernando Lins

Fernando Lins

Abandonou a escola logo cedo porque não conseguia aprender nada. Cursou História na UFRN, para mais uma vez descobrir que as instituições de ensino são "gulags" que destroem todo e qualquer sentido genuíno de saber. Hoje, exilado em Campina Grande-PB, dedica-se ao anarquismo espiritual.

Postagens Relacionadas

sala de cinema
Qual o futuro das redes de salas de cinema?
As salas de cinema vivenciam um limbo há praticamente um ano. À exceção de curtos espaços de tempo em...
89ab4dcc24d58e1c39f90f47df02d278b2407b12
A diferença entre crítica e teoria do cinema
Podemos dividir os estudos fílmicos em três práticas: histórica, teórica e crítica. Hoje irei me focar...

Deixe uma resposta

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Pagu
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.