Caro Sr. Spielberg, era com bastante alegria e entusiasmo que eu ansiava por cada novo trabalho seu; isso foi alguns anos atrás, eu ainda era jovem, cheio de sonhos, e, irremediavelmente, tinha uma forte inclinação a defender, e justificar os erros dos meu ídolos – por mais esdrúxulos que eles fossem.

Como quero corroborar aqui, com você não foi diferente; ou melhor, foi. Pois eu não advogava em prol de qualquer um, mas sim do sujeito que indiretamente ajudou a pavimentar os ladrilhos do meu imaginário infantil; e é claro, ensinou-me através de seus filmes, lições importantes sobre coragem, tolerância e amizade. Algumas delas: que não há monstro marítimo que seja páreo à coragem e perseverança; que somos pequenos e ignorantes diante das luzes do desconhecido; que quando demonstramos bondade a um estranho estamos reconhecendo nele uma parte boa de nós, mesmo que esse outro seja um etêzinho feioso e raquítico; que arqueólogos não comercializam as relíquias, eles as doam para que outras pessoas aprendam com elas.

Alguém que consegue permear tão bem a flora infantil, evidentemente é uma criança por dentro, e não tem vergonha de admiti-lo, como você já o fez. Analisando sua obra de uns 15 anos pra cá, eu me pergunto, “Será que ele cresceu?”. Bem, cada vez mais acredito que sim; e pior: você está se tornando aquele adulto chato, indulgente e caricaturalmente moralista! Aquele tipo de pessoa que olha o próprio passado não como um encaixe de si, mas como uma espécie de doença que conseguiu erradicar! (cara, por que tu não acabou o filme quando o menino-robô encontrou a fada? e por que na edição pra DVD de E.T. você apagou digitalmente todas as armas de fogo e as substituiu por walk-talks?)

Enfim, acho triste quando tenho de conjugar as qualidades de alguém no tempo pretérito. Espero que não tarde para que eu volte a conjugar as suas no presente. Esse negócio de ser adulto não é com você; volte a ser moleque. Estou com saudades…

Campina Grande, 15/FEV de 2013

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