Pintura, fotografia e o milagre da Cinematografia

Segundo o dicionário popular, o termo “cinematografia” remete aos métodos e processos utilizados para a reprodução fotográfica do movimento, ou, em termos mais básicos, refere-se ao “fazer cinema”. Não se pode falar de Cinematografia sem que retomemos os primórdios das Artes Visuais.

As representações humanas através da arte se dão desde o Paleolítico, na Pré-História, contudo apenas no Classicismo a pintura começa a desvendar o leque de possibilidades técnicas e criativas das quais podia usufruir. Saindo da Idade Clássica, passando pela Idade das Trevas e pela Idade Moderna, na Contemporaneidade a pintura abala-se por uma ameaça iminente às formas realistas que ela retratava: a fotografia.

Com a disseminação da técnica fotográfica, a pintura passa a apoiar-se nos pilares da subjetividade, do abstrato e das sensações individuais. Portanto, ao mesmo tempo em que, para alguns, a fotografia recebe a alcunha de “crise da pintura”, pode ser considerada também o seu elemento libertador, visto que permitiu aos artistas arrancarem as amarras da reprodução do real e apegarem-se à nova possibilidade criativa do subjetivismo.

A Última Ceia (Leonardo Da Vinci) é uma das pinturas que mais serviu como inspiração para cenas do cinema

Não se pode negar, contudo, a influência de elementos da pintura para a fotografia e, em sequência, para o cinema. A luz e a cor no cinema, por exemplo, se apoiavam nas técnicas das obras de pintura, tendo sido algumas cenas de filmes completamente inspiradas em quadros do Renascimento – momento de grande libertação técnica e criativa para os artistas, sendo até hoje o período considerado a época áurea das Artes Plásticas.

“A Morte de Marat” (Jacques-Louis David, 1793), que retrata a morte de um dos grandes personagens franceses do fim do século XVIII, também serviu como inspiração para passagens do documentário “Revolução Francesa”, do canal History Channel

Algumas películas cinematográficas podem, inclusive, ser encaixadas em determinadas escolas artísticas. Um exemplo são os filmes de Luis Buñuel, tais como “Um Cão Andaluz” (1928) e “A Idade de Ouro” (1930), ambos co-dirigidos pelo pintor espanhol surrealista Salvador Dalí, que imprimiu a marca do movimento do qual participava nas produções.

Cena de “A Idade de Ouro”, de Luis Buñuel e Salvador Dalí (1930)

O cinema surge vendido como “o milagre da captação do movimento”. Acreditava-se que, de fato, o trem movimentava-se e as pessoas na tela caminhavam para fora da fábrica em que estravam trabalhando. A realidade é que o cinema, no momento em que surge, nada mais é que do que a síntese da fotografia, a ilusão do movimento através da sua decomposição em quadros. O cinematógrafo vem ao mundo como a máquina de fazer sonhos e, talvez, essa seja uma definição mais adequada, já que o movimento e a ilusão de cinema enquanto vida estavam na cabeça do espectador.

A Chegada do Trem à Estação (August e Louis Lumière, 1895), considerado o primeiro filme exibido

A primeira das mentiras – a ilusão do movimento – já é verdade em tempos de advento do cinema digital: o movimento passa a ser realidade. A segunda das mentiras, contudo – a de que o cinema é vida – continua latente na cabeça do público, que ainda emociona-se, sorri, angustia-se e chora diante dos sonhos a que assistem acordados, em uma tela gigante.

Fonte:
O texto foi produzido para a disciplina de Cinematografia (Decom/UFRN) e algumas informações foram colhidas durante a aula ministrada pelo professor Paulo Schettino, dia 07/02/13.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.