Assim como muitos movimentos do cinema moderno, o Cinema Novo nasce não só das criticas cinematográficas, mas também dos movimentos cineclubistas influenciados pelo cinema europeu, que se propôs a fugir dos moldes industriais que até então eram impostos por Hollywood, tais como o Neo-Realismo e a Nouvelle Vague. Esses movimentos traziam consigo um elemento importante, que era a busca por temáticas voltadas para os problemas sociais, pelos quais os países estavam passando, isso fez com que tanto o Neo-Realismo, a Nouvelle Vague e o Cinema Novo (apesar do ultimo ser influenciado pelos anteriores) desenvolvessem uma nova estética para contar essas novas historias que estavam sendo levadas as telas.

Essa nova estética tinha como base experimentações na montagem, na fotografia, filmagens fora de estúdios, uso de iluminações ambientes, etc. Tais artifícios não eram usados apenas por causa da falta de recurso, mas com o intuito de quebrar os paradigmas vigentes. No Brasil não foi diferente. Pautados nas transformações sociais e politicas das décadas de 50 e 60, um grupo de jovens começaram a discutir um novo rumo para o cinema nacional, que se opusesse aos filmes produzidos pela Atlântida e aos filmes americanos que eram exibidos no Brasil.

As discussões sobre essa nova forma de fazer cinema tomaram impulso em 1952, durante a realização do I Congresso Paulista de Cinema Brasileiro e posteriormente durante o I Congresso de Cinema Brasileiro. Esse grupo de jovens começa a busca nos elementos realistas uma nova forma capaz de discutir os problemas e questões ligadas à “realidade nacional” e ao uso de uma linguagem inspirada em traços da nossa própria cultura, criando assim o que viria a ser o Cinema Novo Brasileiro.

Um dos filmes que resumem as principais características que marcaram o movimento do Cinema Novo Brasileiro é “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de 1964 e dirigido por Glauber Rocha. O mesmo apresenta uma temática regional sobre um grande problema que assolava o Nordeste: o coronelismo e os falsos profetas que se manifestavam como libertadores do povo.

O filme narra a historia Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes (Mílton Roda) e acaba matando-o numa briga. Ele passa a ser perseguido por jagunços, o que faz com que fuja com sua esposa, Rosa (Yoná Magalhães). O casal se junta aos seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritualístico.

Empregado em sua narrativa, Glauber Rocha expõe no filme a pobreza, injustiça social, fome, uma realidade próxima ao que o Brasil (região Nordeste) passava devido às políticas devassadas e atrasadas até então empregadas pelos governantes. O filme não traz muitas imagens plasticamente bonitas isso porque, para Glauber, e grande parte dos cinemanovistas, buscavam transparecer de forma explícita as mazelas que a sociedade se recusava a ver, características que expressa o que Glauber denominou de “estética da fome”.

A partir dessas características citadas percebamos um filme que representa uma sociedade no seu aspecto mais cruel, evidenciando as mazelas sociais a partir, principalmente, de três temáticas: a violência, o misticismo religioso e a fome. Representando a crença de vários diretores do Cinema Novo, que era transformação da sociedade, tendo o cinema como um dos expoentes dessa pretensão. Por isso, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” se tornou um dos grandes filmes desse movimento, pois o mesmo não só representa esse novo pensamento denominado de “estética da fome”, como também apresenta ideais de uma transformação social, nos quais o movimento se pautava, levando para o cinema discussões sociais e politicas.

Sobre o(a) autor(a)

Fã de cinema desde de criança, estuda Arte e Mídia na Universidade Federal de Campina Grande (Paraíba). Tem como principais paixões a música, os quadrinhos e o cinema.

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