Por um mundo com mais cachos: O que teve no Encrespa Geral

Cachos e mais cachos (Fotos: Taline Freitas)

Cachos e mais cachos (Fotos: Taline Freitas)

Cachos abertos, fechados, enroladinhos. Eram tantas mulheres que apresentaram e assumiram a cabeleira. Brancas, negras, pardas, platinados, tingidos de vermelho… Todas bonitas.

Nesse sábado (11), o Bazar Independente apresentou o “Encrespa Geral”, grupo de mulheres que se reúne em vários lugares do país com um único objetivo: a importância de valorizar as suas raízes afrodescendentes.

O Bazar Independente, que acontece desde o ano passado, ocorre mensalmente e reúne o melhor da literatura potiguar e sempre com um tema específico.

O Encrespa Geral surgiu em São Paulo no ano de 2011, com Eliane Serafim, a partir das redes sociais. No texto publicado no dia 10 de julho, eu falei um pouco sobre a minha “luta” e dificuldade em assumir os cachos perante uma sociedade que vê este cabelo como algo ruim e usam diversas denominações nada sutis, como “pichaim” ou “bucha”.

Eram aproximadamente 15h quando cheguei e estacionei na praça do Disco Voador (tem este nome, porque a caixa d’água parece uma nave), que fica próximo ao Espaço Duas (local onde aconteceu o Bazar Independente e o Encrespa Geral). A primeira coisa que pensei: “Maravilhoso saber que poderei ver mulheres usando seus cachos de todas as formas”.

Quando cheguei ao espaço cultural, rolava um bate-papo das mulheres (homens também) debatendo sobre como assumiram os cachinhos e trocaram diversas experiências. Alguns depoimentos chegam a ser emocionantes, pois mostra que o preconceito ainda está totalmente enraizado.

Muitas das histórias relataram experiências de mulheres que alisavam o cabelo para ficar  de acordo com as modelos e atrizes das capa de revistas. Buscando fugir do preconceito, elas acabavam discriminando a si mesmas ao fazê-lo. A estudante Giovana Oliveira era uma dessas.

“Os cachos estão ligados com a autoestima e reconhecimento da mulher. Eu achava que alisar seria melhor, pois via isso na televisão. Mas não era. Parei de fazer química em 2013 e agora estou me assumindo”, relatou.

Durante todo o tempo, elas diziam que manter os cachos não era uma questão só de moda, mas também era importante de fazer debates políticos, uma vez que muitas pessoas na escola sofrem bullying ou assédio moral no trabalho por não alisarem o cabelo.  Também teve uma dinâmica com crianças e isto foi bacana, pois o amor próprio tem que ser desenvolvido desde cedo.

A jovem Itala Lima está há pouco tempo no grupo do “Encrespa Geral” e é a primeira vez trabalhando no evento. Lima se sentiu acolhida e o pessoal ajuda uns aos outros. Diferente das outras meninas que contaram experiências, ela sempre manteve os cachos. “Uma vez fiz uma chapinha que durou apenas 30 minutos, eu não me identifiquei.”, afirmou.

Mulheres debatendo sobre moda negra

Mulheres debatendo sobre moda negra

Itala estava acompanhada da irmã Isabela, que também tem cabelos naturalmente enrolados, porém preferiu alisar. “Eu faço escova há algum tempo, quero voltar a ter cachos, mas não tenho paciência de deixar meu cabelo crescer. Mas vou conseguir”, justifica. Além disso, foi discutido no evento sobre a importância da cultura negra na miscigenação dos brasileiros e como isto está bastante atrelado com os cachos. Estou voando? Não. O brasileiro é formado por portugueses (nossos colonizadores), índios (nativos das nossas terras, os nossos primeiros moradores) e africanos (escravos).

Cacheadas unidas

Cacheadas unidas

Elas defendem que a falta de valorização dos cachos ainda está ligado com o racismo. Quando houve a abolição dos escravos em 1889, muitos negros ficaram sem emprego e tiveram que morar em lugares mais periféricos da cidade. A maioria das mulheres negras têm cabelos cacheados, e os padrões impostos pela sociedade eram brancas e de cabelos liso.

O que a galera do “Encrespa Geral” quis mostrar é que as pessoas têm a opção de alisar (elas não condenam aquelas que fazem chapinha), mas querem mostrar que é impossível ter beleza onde muitos não se veem. Por isso, que além dos cachos, também é discutido a importância de valorizar a cultura africana, a partir de danças, roupas e cosméticos.

Além do bate-papo rolou oficina de turbante (os adereço também eram vendidos), dicas para manter a identidade capilar, venda de cosméticos especializados, lenços para o cabelo e dentre outras coisas. Claro que comprei um turbante que adicionei na minha coleção de faixas de cabelo e produtos para manter os cachos ruivos, por sinal (a tinta vermelha continua intacta). Valeu a pena o meu momento por lá!

O evento foi encerrado com a apresentação musical de Ionara Marques. Conversei com algumas cacheadas como eu. Termino o texto sobre o “Encrespa Geral” apresentando depoimentos de algumas mulheres que responderam a seguinte pergunta: “Qual a importância de manter os cachos?”.

Andressa Barbosa – estudante: “Desde muito nova, nós sofremos com o nosso cabelo. Agora estamos criando coragem de manter os cachos. A melhor parte de ser cacheada é que mostra que existe diversidade aqui no país”.

Mariana Cavalcanti – estudante de jornalismo: “Eu era a única garota da escola que tinha cabelo cacheado, porém não quis alisar. Acho que meu cabelo é um pouco do que sou e faz parte da minha história”.

Fernanda Soares – integrante do “Mulheres em Luta”:  “A gente sabe que as mulheres desde pequenas passam por preconceito com os cachos. Quando ela sofre, a mesma sofre uma pressão e imposição de modelo do cabelo. Então, eu quando era mais nova chegava alisar, pois achava meu cabelo feio. A partir do momento que tomei a consicência que meu cabelo é bonito e faz parte da identidade, as pessoas começam a ter uma melhor consciência”.

Mais fotos aqui.

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