Pessoal do Encrespa Geral baterá um papo sobre assumir cachos no Bazar Independente (Foto: Manu Freitas)

Por um mundo com mais cachos!

Reza a lenda na minha família que tenho uma trisavó paterna que foi índia. Como minhas raízes são do interior do Rio Grande do Norte, os índios que viviam naquela região eram os tapuias, conhecidos por ser diferentes dos tupis em diversos aspectos.

Pelo pouco que pesquisei sobre os índios tapuias, pode fazer sentido, pois as características apresentadas lembram a dos meus parentes por parte de pai: pele morena, cabelos negros (os meus não são mais =x, estão pintados de vermelho), e levemente ondulados, ora cacheados (historiadores que leem O CHAPLIN, me corrijam se eu estiver errada nos comentários).

Então, claro que nasci com uma mistureba bacana que vem das terras tupiniquins. Assim, eu peguei os genes maravilhosos desses antepassados e tenho cachos.

Fico feliz que agora está crescendo um movimento de pessoas que estão valorizando a cultura de cabelos como o meu. Existe agora até cabeleireiros especializados em cortar os cachinhos.

Pessoal do Encrespa Geral baterá um papo sobre assumir cachos no Bazar Independente (Foto: Manu Freitas)
Pessoal do Encrespa Geral baterá um papo sobre assumir cachos no Bazar Independente (Foto: Manu Freitas)

Neste próximo sábado (11), por exemplo, haverá o “Encrespa Geral”, no Bazar Independente, que fica no Espaço Duas (na Rua Diogo Lopes, 2197, em Ponta Negra). Um grupo de mulheres que assumiram seu “curly hair” vão debater diversos assuntos relacionados ao tema e também vai rolar oficina de turbantes, para deixar as cacheadas mais bonitas.

É, caro leitor, muito difícil assumir os encaracoladinhos no século XXI. É difícil tanto para mim quanto para os outros.

Existe, para quem tem cabelos cacheados, uma leve pressão de querer alisar, uma vez que a maioria das pessoas possui cabelos mais lisos ou ondulados que o meu. Era só olhar na escola, eu era a única que estava com os cachinhos na cachola.

Por outro lado, as pessoas não gostam do diferente e por vezes tratam o que não é comum com atitudes pouco amistosas, incluindo o bullying (“cabelo de pixaim”) .

Eu lembro que tinha uns 12 ou 13 anos quando um cara do meu colégio disse: “Se você alisasse este cabelo, você ficaria bem bonita e ganharia mais elogios dos rapazes”. Um outro garoto pegou no meu cabelo e disse: “Boy, você tem um cabelo super ruim”.

Teve um episódio que uma garota disse que iria comprar uma escova para meu cabelo para ver se melhorava a esponja que tem na minha cabeça. Detalhe, ela se dizia uma grande amiga minha no ano anterior. Da onça, né?

Não vou ser hipócrita, eu aliso meu cabelo na chapinha de vez em quando para festas ou algo do tipo, mas lavo no dia seguinte. Por quê? Eu não me identifico. Do jeito que sou uma pessoa inconstante e desejo mudanças o tempo todo, o cabelo sendo liso ou ondulado para sempre iria me deixar agoniada.

Minha mãe, que sempre teve cabelo liso, sempre fez questão de que mantivesse os cachos . “Lara, eu fazia permanente nos anos 80 para cachear, queria ter um cabelo igual ao seu”. No início, achava que era só um papo para que não fizesse mudanças mais radicais, um elogio de mãe ou algo do gênero. Até olhar as fotos dela quando tinha a idade que tenho hoje, 22 anos.

Meus cabelos avermelhados e cacheados (Foto: Facebook)
Meus cabelos avermelhados e cacheados (Foto: Facebook)

Algumas vezes, o pessoal da escola soltava frases como: “Por que você não alisa o cabelo? Dá menos trabalho. Este argumento quebrava rapidinho. Quando as pessoas fazem escova definitiva e qualquer química esquecem de um pequenino detalhe: o cabelo cresce. A raiz nasce cacheada e a pessoa tem que passar o produto diversas vezes. Assim como um remédio tomado em excesso pode causar efeitos colaterais, os produtos de alisar o cabelo também precisam de cuidado.

O que acontece? Seu cabelo possui um corte químico, às vezes pode ocasionar crise alérgica ou provocar problemas mais graves.

Algumas pessoas faziam questão de falar que cabelo cacheado era horrível e que isto me deixava feia, cheguei a ir ao salão de beleza para tentar alisar. Graças a Deus, a cabeleireira fez um teste de mecha e não topou fazer.

Por ser influenciada, cheguei a relaxar os cabelos, para tirar o volume. Diziam que não precisava fazer babyliss para ficar igual ao cabelo da Gisele Bündchen. Sabe de nada, inocente! As pessoas esquecem da beleza dos cachos de Gal Costa (aquela mulher é um espetáculo, principalmente na década de 60 e 70), Vanessa da Mata, Taís Araújo, Camila Pitanga, Rita Ora, Shakira, dentre outras mulheres.

Entretanto, a cobrança social por um cabelo mais “bonito” (leia-se, liso) prejudicou demais, tive cortes químicos (principalmente quando resolvi juntamente pintá-los ao mesmo tempo com cores fantasias, tipo azul) e na última vez que fiz perdi todo o movimento dos cachos.

Faz dois anos que não relaxo, a transição de um cabelo “semi-ondulado” para cacheado foi complicada, mas tive paciência. Hoje, eles estão bem enroladinhos, hidrato quase toda semana com ampolas e a única química que uso é tinta no cabelo.

O volume dos cachos? É consequência. Cachos sem volume, não são cachos, são ondulações.

Sobre o Encrespa Geral
Onde: Espaço Duas, no Bazar Independente (Rua Praia de Diogo Lopes, 2497, Ponta Negra)
Horário: A partir das 14h30
Outras atividades do Bazar podem ser acessadas neste link a seguir.