Acostumada a criticar o circuito cinematográfico de Natal e a endeusar cidades maiores, esbravejando a plenos pulmões que heresias cinematográficas só aconteciam na capital potiguar, imaginem a minha surpresa quando, a procura de uma sessão respeitável para assistir numa tarde de sábado em Recife, capital pernambucana, me deparo com três cinemas com um circuito tão ou mais deplorável quanto o nosso. Cinco a seis filmes em cartaz, os mesmos nos três cinemas que verifiquei, e pior: todos com cópias exclusivamente dubladas. Apenas um dos três cinemas exibia uma cinebiografia a qual estava empolgada para ver, “Albert Nobbs”, filme britânico de 2011 que só agora chega ao Nordeste brasileiro (não posso afirmar nada quanto ao resto do país). O filme, contudo, tal como a nossa estimada Sessão Cult do Cinemark, apenas era exibido em uma sessão pontual durante o dia. O cinéfilo que reze para que os horários se adaptem ao dele. Bem, naquele dia os meus horários não se adaptaram e, frustrada, resolvi ignorar o desejo de ver um filme na tarde de Sábado.

Ainda que pareça, não é meu intuito equiparar o circuito da capital pernambucana ao de Natal. Apesar dos pesares, Recife tem sessões para quase todos os gostos, embora excessivamente mais para alguns gostos e menos pra outros. Mesmo com dezenas de salas com filmes exageradamente comerciais e dublados, sempre há algumas (a cujo acesso não tive durante a minha estadia lá) com filmes também comerciais, mas legendados. E não podemos deixar de citar a sala de cinema da Fundação Joaquim Nabuco, que diariamente exibe algumas sessões de filmes que parecem ter sido excomungados das grandes redes de cinema que geralmente ocupam os shoppings, como alguns estrangeiros, e vários em âmbito nacional e local. Compensei a minha frustração do Sábado assistindo ao intrigante Shame (Vergonha), lançado em 2011, na dita sala. Convém dizer que alimentos não são permitidos lá dentro, o que nos poupa dos desconfortáveis barulhos e acidentes causados pelas pipocas, refrigerantes e afins. Pontos para Recife.

 

Espaço cinematográfico da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife

Contudo, a viagem me fez agradecer aos céus ainda termos, ao menos, filmes legendados nos cinemas de Natal e a remanescente Sessão Cult. Há um ano, mais ou menos, os filmes dublados quiseram começar a monopolizar as sessões do Cinemark. A população fez manifestos e criticou de várias formas e agora tem havido um equilíbrio aceitável entre as cópias das sessões. Isso não exime o vergonhoso fato de que temos apenas 14 salas de cinema ativas em Natal, que exibem, em regra geral, não mais que 10 opções de filmes paralelos, com média de duas ou, com sorte, três estreias por semana, e pulamos de empolgação quando um filme de diretores como Woody Allen ou Almodóvar nos são acessíveis. Dos filmes exibidos, a maioria são hollywoodianos, um ou dois (com sorte, repito) são brasileiros e quanto às produções locais, me parece cada vez mais uma utopia que elas adentrem as redes de cinema a que temos acesso atualmente.

 

O São Luiz é um cinema de rua em Recife. Em Natal, não há mais espaços assim

Pouco adianta criticá-las. O objetivo principal tanto da Moviecom, quanto da Cinemark, passa longe de ser a qualidade de suas sessões ou atingir o público taxado cult da cidade. Contudo, deveria sim, ser objetivo de iniciativas públicas a cultura em todos os seus âmbitos. O que nos faltam são iniciativas paralelas que não se restrinjam a força de vontade de cinco gatos pingados que fazem, por exemplo, o Cineclube Natal. Precisamos de espaços culturais e de ambientes que, mesmo limitados, estejam dispostos a receber os mais diversos públicos que, sim, existem em Natal. E isso, não é só a boa vontade do povo que faz acontecer.

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