Quando o sexo, bem feito, abafa a linguagem
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Em Cannes, o ano de 2015 ficou marcado pelo polêmico filme Love, dirigido por Gaspar Noé. A crítica e o público dividiram-se em dois blocos consistentes e determinados, um a aplaudir e o outro para vaiar, fenômeno presente na carreira do diretor que aproveita de sua ousadia para criar pequenos paradigmas nos críticos mais tradicionais. O bloco acostumado a vaiar é representado pelos mais tradicionais de jornalistas vinculados as grandes redes de comunicação em massa, deixamo-nos de lado pelo teor conservador e precipitado das críticas que se limitam ao sexo.

Mas por que o sexo? Assistir a um filme de Gaspar Noé e se limitar as atrações chocantes que marcam sua trajetória desde Carne (1991) até Love. É como assinar a rendição do olhar a uma narrativa linear construída para deixar o espectador em estado semivivo, ligado unicamente ao cordão umbilical da diegese hollywoodiana que valoriza o enredo e exclui a participação, muitas vezes até emocional, do espectador em relação as tramas e a fruição estética. Ao chamarem Love de “pornô gourmet” e também ao se limitarem a necessidade de denunciar o abuso de nudismos, de penetrações explicitas, de sexo oral descarado, muitas vezes acompanhado de uma discreta denuncia voltada a falta de sensualidade e a incapacidade de excitar das imagens, encontramos um espectador dos cinemas de atrações se deparando com a ansiedade de saciar seus impulsos vivos, através do desejo do contato com a sexualidade explicita na tela do cinema. Limitar a crítica ao sexo é limitar as capacidades cinematográficas do diretor e cultivar paradigmas conservadores que assombram o cinema a cada filme com conteúdo considerado polêmico.

O cinema e sua crítica precisam amadurecer, assim como amadureceu Gaspar Noé com Love. Os cortes feitos a cuteladas em Carne mostraram o nascimento de um cinema experimental preparado para se desenvolver e impactar o olhar com uma psicologia crua – de início – através de composições como a filha crescida em um cavalo de brinquedo ao fundo e as genitálias do pai a frente do plano. As cores e o movimento de câmera, que irão caracterizar toda trajetória de Noé brotam no longa metragem Sozinho contra todos, de 1998, continuando a trajetória do édipo no açougueiro de Carne. Passando para duas grandes obras cinematográficas Irreversível (2002) e Enter the Void (2009), que deixaram o autor conhecido por todo o mundo. Em ambos os casos, principalmente em Irreversível, a presença das características do cinema chamado de “atualidades” era intensa ao mesclar certos pontos realistas com fortes elementos ficcionais através de imagens impactantes, perturbadoras e sensacionalistas. A perturbadora cena do estupro e a abertura do filme de 2002 deixam clara a valorização de Noé com o choque. A fruição estética é perturbadora em ambos os filmes, nos sufoca sem trégua, causando náusea, dor de cabeça e uma vontade de abandonar ambas películas ao dividir os traumas dos personagens com o espectador.

A diegese em Irreversível e Enter The Void é avessa, te incomoda no assento e deixa constrangido ao assisti-los em companhia de outras pessoas. O choque se caracteriza muito como atração nestes dois casos. Porém, a narrativa vai muito além desse propósito, enriquecendo a produção cinematográfica de Noé ao transformar o apelo visual do impacto em mais um componente da película, dificultando muito ao olhar crítico que tenta se desvincular do envolvimento emocional e curioso da história para acompanhar as entrelinhas da forma fílmica escolhida pelo cineasta, pela composição do mise en scène e na fruição estética em si, que no caso de Noé, não é digestiva e complexamente contemplativa. A estruturação temporal em ambos os filmes já apresenta traços de descontinuidade mais elaborada (em Enter the void) e regressiva (em Irreversível) ao começar o filme pelo início, criando a máxima “o tempo destrói tudo”.

love_in_3Então, se depois de tanto choque estético e emocional e de um crescimento perceptível nos níveis estruturais de seus filmes, por que o sexo vem acompanhado de tanta polêmica? Love apresentou um Noé amadurecido cinematograficamente, cuja exploração de novos formatos temporais é nítida. As experimentações anteriores permitiram a criação de uma linha temporal cuja descontinuidade é admirável. O tempo continua destruindo tudo, não mais com a simplicidade do tempo reverso, mas com a busca de uma valorização dos fatos simbólicos para o personagem Murphy, das suas memórias, dos desejos pulsantes contidos em sua sexualidade. Se nos aventurarmos na reconstrução cronológica da narrativa, ficaremos confusos, pois, com ajuda do 3D, entramos no turbilhão mental vivido pelo personagem que é proporcionado pela saudade, pela insatisfação amorosa, pela falta de alicerces familiares e amorosos, por uma vida movida a desejos e impulsos. O relacionamento entre Electra e Murphy se resume a paixão corporal, a aventuras sensoriais e a exploração dos corpos, alimentando medos e inseguranças por viverem um amor voltado aos impulsos sexuais. Como forma de fortalecer as seguranças e o relacionamento, se debruçam novamente ao prazer sexual em boates regadas a orgias ou novas experiências, como o ménage com a personagem Omi. A falta de estrutura dos relacionamentos se sustenta através dos diálogos crus e simples, revertendo todas as tentativas de um diálogo maduro de conciliação em impulsos sexuais. A falta de alicerces nos personagens aparecem também na insatisfação profissional de ambos: Murphy com devires cinematográficos, sonha e se auto afirma como diretor de cinema, sendo lembrado a todos instantes por sua namorada que ainda não passa de estudante da arte fílmica; enquanto Electra considera-se artista, mesmo que para isso deva sustentar relações sexuais com Noé, personagem interpretado pelo próprio diretor, o ex-namorado e dono de uma galeria de arte, apimentando o ciúme e as inseguranças do casal.

Love se apresenta como a maturidade estética e narrativa de Gaspar Noé. O uso e abuso de cenas de sexo explicito compõem os elementos de atração do filme, do choque visual por lidarmos tão mau com a sexualidade, o que não caracteriza o filme como um “pornô cult” ou “pornô gourmet”. Gaspar, como cineasta audacioso, lida com temáticas paradigmáticas. Ao crítico, cabe a análise filmografia em primeiro plano, rompendo com a diegese neste primeiro momento para contextualizar o sexo e seus usos dentro do filme, suas funções limitadas a atração em alguns momentos – como a cuspida de sêmens em 3D nos espectadores – e suas funções psicologisantes e historicisantes dentro da linguagem fílmica. Concluindo com um questionamento feito pelo próprio Noé: qual filme foi mais polêmico que Salò (de Pasolini, de 1975),  um filme escandaloso que queria retratar a sobra de mentalidades fascistas na Itália pós-guerra. E ambos conseguiram fazer o espectador colocar-se no lugar do objeto que desejaram representar, valorizando e chamando atenção para cada mudança muscular, para as tensões e relaxamentos que acompanham toda ação de suas obras.


Crítica de Gabriel Carneiro Nunes, especialmente para O CHAPLIN

“Formado em História, deve sua percepção e compreensão social aos cineclubes, onde o olhar cinematográfico se fez com mais audácia ao próprio passado e demarcou entre os próprios frames as fronteiras individuais que tornaram, para o autor, a história estética. Estudante da modernidade no primeiro cinema, não limita sua filmografia aos pequenos minutos registrados por um cinematografo, mas, transita feito o tempo como do mudo ao falatório.” (Texto informado pelo autor)

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