Sempre achei que os chamados que mais devemos escutar são aqueles que chegam não como uma opção, mas com naturalidade, como se não fossem nada mais que o percurso natural da vida, quase como uma necessidade. Foi assim que em 2011 surgiu este blog que aqui escrevo. Pode parecer um arremedo da famosa e repetida história contada por J. K. Rowling de que Harry Potter surgiu pronto em uma viagem de trem de algumas horas, mas O CHAPLIN (assim, com esse nome mesmo, e posteriormente achei que poderia ter pensado melhor sobre esse aspecto) também surgiu em uma viagem, no meu caso, de ônibus mesmo, de Natal para a capital do Ceará. E para ser sincera, fico até envergonhada de este ter sido o único produto de uma cansativa viagem de nove horas.

Eu havia acabado de conhecer um mundo completamente novo e estava ansiosa para expor alguns dos aprendizados que adquiri com ele. O jornalismo e o cinema haviam me fisgado, mas sozinha eu sabia que não teria ânimo suficiente, então convidei outros três amigos para participar da brincadeira. Um ano depois, não éramos mais quatro, mas sete, e a proposta começava a se expandir: não éramos mais um blog de amigos para falar desinteressadamente sobre um hobbie, mas uma revista cultural que, aos poucos, ia abarcando o que os nossos braços alcançavam. Cinema, música, séries, literatura e quadrinhos… logo chegaram mais um número de colaboradores e com eles também o teatro, as artes visuais, a gastronomia e todas as outras seções que você pode conferir no menu superior. O crescimento parecia tão natural quanto aprender a andar.

Contudo, apesar da liberdade e autonomia para colocarmos em prática o tipo de jornalismo em que acreditávamos (particularmente nesse caso, uma linha editorial que valoriza o texto crítico e a opinião), alguns problemas ainda eram identificados e frequentemente atrapalhavam o andamento sempre otimista do projeto. Depois desse imenso nariz de cera (entendem por que não estou nos veículos tradicionais?) vamos à primeira parte do meu título (por sinal, uma tentativa frustrada de fazer referência à clássica comédia “Quatro casamentos e um funeral”, tenho certeza que você só identificou a semelhança agora), os quatro desabafos sobre jornalismo cultural alternativo:

1. É BASTANTE DIFÍCIL DEDICAR SEU TEMPO A ALGO QUE NÃO TE TRAZ RETORNO FINANCEIRO…

… ao passo que é extremamente fácil fazê-lo por algo em que você acredita. E essa dicotomia vai sempre acompanhar qualquer pessoa que queira investir esforço em um projeto independente – até que consiga sanar uma das complicações, ou seja, ou você consegue financiar o seu projeto, ou deixa de acreditar nele.

2. NINGUÉM DÁ UM PASSO SEM UM ESTÍMULO

Não é porque não há estímulo financeiro (a princípio), que outros incentivos não possam (e devam!) existir. Na verdade, ninguém vai trabalhar gratuitamente sem qualquer espécie de fomento que mantenha o sujeito impulsionado. Convenhamos, sequer levantamos da cama pela manhã se não tivermos um impulso – seja ele a vontade de fazer xixi, a fome, a necessidade de trabalhar ou a escolha por ver o sol.  Portanto, é sempre importante estimular os colaboradores e a si mesmo (óbvio!), afinal, é você quem tem a importante função de levantar-se primeiro todos os dias – mesmo quando a cama parece muito convidativa, a fome não é tão forte e a vontade de fazer xixi não parece motivo suficiente. Cabe a nós não desistirmos e estarmos sempre criando formas de manter o projeto atraente.

3. O RESPEITO NÃO VEM DE GRAÇA

As pessoas (os investidores, os artistas, as produtoras, os profissionais, e claro, os leitores…) não vão acreditar gratuitamente no seu projeto. A princípio você vai ser só mais alguém que resolveu jogar opiniões na internet – como tantas outras pessoas. Para se alcançar a credibilidade que tanto almejamos é preciso fazer mais (muito mais!) que os veículos tradicionais, que têm o suporte de um nome reconhecido, de um CNPJ, de jornalistas já conceituados no mercado. Para tanto, é preciso estar sempre provando o seu valor. É preciso nunca atrasar ou dar bolos, é preciso sempre cumprir com o prometido, e mais que tudo, absolutamente sempre esforçar-se para publicar um conteúdo de qualidade e credibilidade. Nenhum leitor é obrigado a ser fiel ao seu projeto. Os produtores e artistas não podem (até podem, mas midiaticamente não é interessante) negar uma entrevista à Globo ou ao jornal de maior circulação do Estado, mas se eles se dispõem a conceder entrevista a um veículo alternativo, ou eles 1. acreditam na sua proposta ou 2. gostam do resultado do tempo que destinam a isso. O mesmo vale para os investidores, que só “fecharão” com o seu projeto se forem cativados por ele. Então é sempre bom ter responsabilidade com o que se escreve, pois sobretudo no jornalismo independente, tudo o que se tem é o seu nome. O preço de se ser independente é depender de todos.

4. SE MAOMÉ NÃO VAI ATÉ A MONTANHA…

… a gente constrói uma montanha dentro de Meca. Infelizmente (ou não), as iniciativas de jornalismo cultural alternativo não têm o mesmo apelo e facilidade para conseguir recursos que os blogs políticos, por exemplo. Então, nem sempre é fácil conseguir patrocinadores (quase mecenas!) fieis que se proponham a bancar um projeto. Nesse caso, o que restam são duas opções, 1. bancar você mesmo o seu projeto (o que fiz por muito tempo), ou 2. o projeto ser autossuficiente e bancar a si próprio. Não considero a primeira opção muito esperta porque uma hora você vai cansar de gastar dinheiro apenas pelo prazer de ver sua ideia de pé e vai preferir investir o capital em outra coisa. Quanto à segunda alternativa, é verdade, é necessário coragem e disposição para colocá-la em prática. Nem sempre achamos que ela pode dar certo até que aquela amiga mais ligada às ferramentas do marketing “puxe sua orelha” e te faça ver que o seu projeto pode comportar muito mais que textos e imagens. A solução é arregaçar as mangas e pensar em possibilidades de, como se diz hoje, “monetizar”, ou seja, tornar a iniciativa financeiramente viável e até mesmo lucrativa – por que não? Isso pode (e vai!) dar trabalho, é bem verdade, mas também é uma maneira de engajar ainda mais a equipe, que terão novos estímulos para colaborar. E, na realidade, pode ser até bem divertido.

E é aqui que partimos para a última parte do meu título, o convite literário.

Zine "Iapois Poesia"

Zine “Iapois Poesia”

Um dos projetos paralelos deste blog a que demos início este ano envolve o apoio a iniciativas culturais, entre elas, a produção de fanzines. É uma forma que encontramos de ajudar os autores que desejam vender sua arte (não obrigatoriamente na praia), e também de conseguirmos nos auto financiar.

Com isso, fica aqui registrado o convite para comparecer ao primeiro dos eventos promovidos por O CHAPLIN este ano, o lançamento do fanzine do coletivo literário Iapois, Poesia!, que acontecerá na próxima sexta-feira, 23, a partir das 17h, no Montana Café, um espaço bem bacana, com comidas deliciosas, localizado no CCAB Sul (Av. Roberto Freire, Natal/RN). O fanzine, que está, modéstia à parte, muito bonito e riquíssimo a nível de conteúdo (com nomes como Daniel Minchoni, Sinhá, Carito Cavalcanti e Marcelino Freire, além de outros tantos talentosíssimos poetas), tem 40 páginas e será vendido ao preço de R$ 10.

Além do zine, também teremos bottons, chaveiros e camisetas para vender na ocasião a preços super acessíveis e, ao adquirir tanto o zine quanto qualquer um desses produtos, você estará sendo o nosso apoiador e ajudando a nos manter de pé diante do complicado cenário que narrei anteriormente.

Victor  H. e Regina Azevedo, dois dos autores presentes no zine "Iapois, Poesia!"

Victor H. e Regina Azevedo, dois dos autores presentes no zine “Iapois, Poesia!” | Foto: Andressa Vieira

Proclamados os desabafos e feito o convite, podemos voltar à nossa programação normal. Mas fiquem espertos que, durante o ano, outros convites virão.

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