“Que horas ela volta?” e o mundo visto pela porta da cozinha
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O Brasil é um país onde se acredita que pobre e rico convive “junto e misturado” num carnaval sem fim, no entanto, essa convicção de “todos juntos” entra no rol das lendas urbanas reproduzidas diariamente em discursos que pouco têm a ver com a nossa realidade. A nossa herança do modelo escravagista ainda está impregnada nas relações sociais, principalmente, as que envolvem trabalho doméstico, tema retratado em “Que horas ela volta?” filme dirigido por Anna Muylaert escolhido pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar 2016.

Que horas ela volta?” acompanha a personagem Val (Regina Casé), uma empregada doméstica que trabalha há 20 anos em uma mesma casa e é considerada “quase da família”. O emprego de 24 horas, as condições do quarto em que a personagem dorme, as distinções de locais freqüentados na casa e as diferenças em relação à alimentação são as características mais latentes e incômodas do filme pela sua semelhança com a realidade das mucamas no período da escravidão,  também  consideradas “quase da família”.

Jéssica e Val - Mundos em colisão

Jéssica e Val – Mundos em colisão

Jéssica (Camila Márdila), outra peça importante deste quebra-cabeça, é a filha de Val, que criada longe da mãe não conhecia sua realidade e chega para contestar todas as regras invisíveis dessa relação com os patrões. Como uma heroína do mundo real, Jéssica chega para representar essa parcela da população que, nos últimos anos com as políticas de inclusão social e ampliação do acesso à educação, está reivindicando seus espaços na sociedade e que por isso provocam a fúria da Classe AAA que vê seus locais “exclusivos” (aeroportos, Universidades) sendo ocupados pela população mais humilde.

A representatividade desses dois universos que se colidem no filme é muito importante para aqueles que nunca se sentiram representados pelo o que está sempre na tela: a visão da “Casa Grande”. Uma câmera que está a serviço da visão da Val, a visão das “periferias” sobre os locais nobres que são comumente utilizados como locais de ação das cenas (sala, sala de jantar e etc.) enriquecem a narrativa de uma forma única e rara no cinema.

Que horas ela volta?” é um filme que exige o mínimo de reflexão de quem está assistindo e é muito emocionante para quem passou ou presenciou situações semelhantes as das personagens principais. Por passar uma mensagem tão importante, que pode deixar em situação ruim aqueles que preferem manter seus privilégios a contestá-los, são muitas as tentativas de atenuar  e novelizar o seu tema principal. Como foi o caso da polêmica reportagem exibida no Fantástico do dia 13 que trazia casos positivos de empregados “quase da família”, semelhantes a película, e que após a repercussão negativa foi parcialmente corrigida em outra reportagem no Fantástico do dia 20, com esclarecimentos sobre a PEC das domésticas e um caso real com um final “não tão feliz”.

O filme, que levou prêmios no Festival de Sundance (EUA) de melhor interpretação feminina, pelas atuações de Regina Casé e Camila Márdila, e ainda melhor filme de ficção, por votação popular, no Festival de Berlim, enfrenta ainda uma barreira fora das telas: o machismo, acentuado durante um debate no cinema do museu Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife, onde os cineastas pernambucanos Cláudio Assis (“Amarelo manga” e “Febre do rato”) e Lírio Ferreira (“Baile perfumado e “Sangue azul”) interromperam Anna Muylaert, diretora do filme, e chamaram Regina Casé de gorda, situação que evidencia ainda mais a opressão.

Vale ressaltar que Anna Muylaert é também a primeira mulher em 30 anos a representar o Brasil no Oscar (a última foi Suzana Amaral por “A hora da Estrela” – 1986), mais um ponto evidente de um cinema que tem privilegiado, ao longo dos anos, diretores do sexo masculino.

Veja o trailer do Filme:

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