Querida Sala de Cinema – Uma Carta

Querida Sala de Cinema,

Eu nunca escrevi para você antes. Nunca foi necessário. Em toda a minha vida adulta, foram poucas as semanas em que não te visitei. Mesmo nas épocas de estudante de graduação, morando sozinho (liso) longe dos pais, quando faltava dinheiro para tudo, nunca faltou dinheiro para ir te visitar – #meiaentradaparaquemprecisa.

Mas aqui estou eu, três semanas em isolamento, quatro longe de você, morrendo de saudade e de preocupação. Por isso, te dedico alguns parágrafos mal escritos.

Esse não é o período mais longo que fico sem ir até você. Mas certamente é o mais doloroso. A pandemia é um pandemônio de calmaria. Não sei quanto tempo levará até nos vermos novamente.  E essa incerteza só é piorada pelo fato de saber que você irá sofrer muito com tudo o que está acontecendo.

Estamos todos tristes e sozinhos, trancados em casa. Sofremos juntos, separados. Talvez de todo esse sofrimento, a minha preocupação com seu bem estar seja das mais frívolas. Mas como você sempre esteve presente, mesmo nos momentos mais difíceis, me dou o direito de reservar parte da minha preocupação a você. Pois não sei como você irá sair dessa, depois de meses fechada. E o medo disso ser o princípio do seu fim me dói na alma.

Eu não consigo lembrar ao certo da primeira vez que te conheci. Mas lembro perfeitamente de todo o ritual. Minha primeira memória clara de você foi no antigo Cine Veneza, um dos raros cinemas de rua ainda abertos, lá em Porto Velho. Ir ao cinema com meus pais, comprar jujuba na porta, ficar na fila na calçada, admirar os espelhos infinitos na entrada da sala. Já mais velho, o programa que era de família foi substituído pela companhia dos amigos e namoradas.

Admito, naquela época, o filme era o mais importante. Era o que realmente me atraía. Foi apenas mais velho, morando sozinho em diferentes cidades, que aprendi o valor da liberdade que é ir ao cinema sem qualquer companhia. Algo, para muitos, inaceitável. Para mim, as vezes, preferível. Vários sábados, em matinês, visitei você para assistir dois, as vezes três filmes seguidos. E assim você passou a ser parte essencial da minha vida.

O charme do Cine Veneza foi substituído pela praticidade dos multiplex de shopping – Cinemark, Cinépolis, GNC, Araújo – e de arte – Guion, Capitólio, Estação, Unibanco, Belas Artes, Capitólio. Mas para mim o seu valor sempre foi o mesmo. As vezes maior, as vezes mais confortável, as vezes com cheiro de mofo, as vezes mais moderna. Para mim, tanto faz. Sempre te aceitei do jeito que se apresentou e sempre aproveitei a experiência acima de tudo. E nunca te julguei pelo filme.

E olha, cada filme porcaria, hein? Não me leve a mal, mas a qualidade vem caindo ano a ano.

De verdade, isso não me importa. Seja para ver um filme ruim ou um filme excepcional, era você que eu procurava quando estava triste e precisava de conforto. Quando estava entediado e precisava de entretenimento. Quando aliviado depois da entrega de algum trabalho e precisando desopilar. Ou mesmo para curtir a namorada ou amigos.

Verdade seja dita, meu amor aos filmes nunca esteve necessariamente vinculado a você – mesmo porque, fora o Capitólio e o Estação, onde mais poderia assistir os clássicos? Sim, assisti muito mais filmes sem você do que com você.

Mas você faz qualquer filme dez vezes melhor.

Assistir um grande filme é sempre uma excelente experiência. Mas assistir um grande filme com você é das melhores experiências.

Hoje, posso assistir praticamente qualquer filme feito na história da humanidade em minutos, na praticidade do meu computador, seja ligando Netflix, Prime ou Youtube. E acredite, eu assisto.

Mas não é a mesma coisa sem você. Nunca é. Nunca será.

Em casa, a tela nunca é grande suficiente. Mesmo o mais moderno sistema de som nunca dominará completamente o ambiente. Sempre aparece algo para desviar a atenção. As guloseimas de supermercado e pipocas de micro-ondas são o equivalente a um churrasco servido na bandeja. E o ritual? Todo mundo tem um ritual quando vai ao cinema. Impossível de replicar.

Eu posso estar sendo um pouco dramático aqui. Eu sei que de uma forma ou de outra, você irá sobreviver. Mas com toda a ameaça dos outros meios, sei que você tem perdido espaço e essa crise irá apenas aumentar isso. O que será de você se tiver que ficar meses fechada? E se não puder voltar ainda esse ano? Quantas irão fechar? E as pessoas que irão perder os empregos? E se os empresários resolverem largar de mão? E os cinemas de arte, que já sobrevivem de forma heroica sem essa crise toda?

Entenda, esse não é um pedido para voltar tudo agora. Isso é impossível. Você terá que ficar fechada pelo tempo que for necessário para a segurança de todos e quanto tempo é isso, não faço ideia. Minha tragédia é saber que o certo a ser feito significa um grande sacrifício a você. Então sou forçado a virar as costas a uma velha amiga, sem alternativa. Dor tamanha.

Eu sei que nos veremos de novo. Você reabrirá as portas e eu estarei lá na primeira oportunidade. Vou tentar compensar o tempo perdido. Pouco importa o filme. Sei que você estará diferente. Sei que não será fácil. Talvez tenha uma pegada mais popular. Alguns talvez te julguem decadente. Mas não me importo. Eu estarei lá por você, novamente. Como você sempre esteve lá por mim.

Saudades sempre,

Diego Paes