“De vez em quando é preciso passar um tempo no hospício, ou então preso, para entender as coisas neste país”

Ricardo Piglia

Se na atualidade não há ainda nenhum escritor brasileiro do nível do argentino Ricardo Piglia, isto se deve ao fato de que, 1 -estamos tratando de um dos melhores ficcionistas contemporâneos, e 2 – Piglia não põe um véu sobre as mazelas de seu país e finge que não há nada lá, como muitos daqui costumam fazer. Pelo contrário, ele mostra, e com primor literário, a ferida. Sua literatura é como o negativo de uma fotografia de uma bela paisagem argentina, seja do campo ou de Buenos Aires. Expõe o que não é visto, e que muitos fazem força para esconder. Um escritor que não foge do conflito.

Mas suas obras passam longe de uma crítica social rasa. Em Respiração Artificial (1980), a trama é permeada pela tensão dos anos da ditadura argentina, mas não chega a citar especificamente o regime político. Seu romance mais recente, Alvo Noturno (Companhia das Letras, 2010), encaixa-se perfeitamente na metáfora do negativo de uma fotografia, em que a paisagem é o pampa argentino, nos anos 70, com seus aristocratas rurais, gaúchos rudes, e estrangeiros mal-vistos.

Ricardopiglia

Alvo Noturno é o primeiro romance de Piglia depois do ótimo Dinheiro Queimado, de 1997. Após tanto tempo, foi aguardado com enorme ansiedade, e pode-se dizer que esta foi correspondida. Uma literatura travestida de romance policial que retrata aspectos obscuros da formação de um país, desconstruindo vários de seus mitos. O ponto de partida é a investigação sobre o assassinato de um americano natural de Porto Rico, que visitava um povoado ao sul da província de Buenos Aires por motivos mal-esclarecidos. Envolvem-se na investigação um comissário da polícia antiga, Croce, e o jornalista Emilio Renzi, alter ego do escritor, personagem também de Respiração Artificial.

Abriu com a descrição do povoado porque se deu conta de que era esse o tema que interessaria em Buenos Aires, onde quase todos os leitores eram como ele e pensavam que o campo era um lugar pacífico e tedioso, povoado por pessoas de gorro basco na cabeça, sorrindo como uns idiotas e concordando com todo mundo. Um pessoal bem-disposto que se dedicava a trabalhar a terra e cultivava as tradições gaúchas e a amizade argentina. Já percebera que aquilo era uma farsa, numa única tarde ouvira mesquinharias e violências piores que tudo o que seria capaz de imaginar.

A prosa sofisticada, que usa da ironia, e a construção de parábolas em meio a uma investigação que, muito mais que policial, revela um passado mal-contado da Argentina, são as marcas maiores do escritor, também presentes neste Alvo Noturno. O assassinato de um estrangeiro misterioso, sua investigação e suas consequências são o fio condutor que mantém o leitor preso à trama, mas de forma sutil são mostrados elementos como violência, racismo, corrupção, lavagem de dinheiro, o massacre de indígenas, que compõem o outro lado da história do país (e do continente).

AlvonoturnoTambém, em certos momentos, Alvo Noturno narra as mudanças da época, em que a modernidade chega destroçando tradições antigas sem tempo nem que estas se despeçam devidamente. O fim de uma época de inocência no campo: “Tudo é negócio, já não se usam mais cavalos, só para correr ou para jogar polo ou para distrair meninas da estância. Um maneador, por exemplo, um homem que faz laços, cabrestos como o cego Míguez, digamos, não tem mais, já não precisa.”

É difícil rotular um livro como este, que à primeira vista aparenta ser um simples romance policial noir. Talvez seja, isso e um tanto mais. Mas a melhor característica de um romance noir utilizada na trama é a índole dúbia de seus personagens, aumentando o ambiente de incertezas, em que qualquer desfecho não pode ser descartado, mas não deixando de ser imprevisível.

Apesar de ter sido lançado em 2010, Alvo Noturno é um livro difícil de ser achado nas livrarias. Mais fácil recorrer à compra pela internet ou encomendar numa dessas megastores, ou mesmo procurar um exemplar dando bobeira num sebo. Seja como for a compra, recomendo que seja feita. Se não deste livro, qualquer outro do autor, que além de romances, escreve ensaios sobre literatura. Ricardo Piglia é um escritor para ser lido e estudado, e francamente, invejado também. Os brasileiros que o digam.

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