Schroder (2013, Ed. Intrínseca), da americana Amity Gaige, é antes de tudo um romance que lida com acerto de contas diante do passado. Os capítulos, que chegam a ser interrompidos para um esclarecimento do narrador, tratam de uma reconstituição dos passos da vida de um réu, o personagem-título do livro.

A relação do personagem com o passado, diante de um dilema do esquecimento é bem simbolizada pelos conflitos vividos pelo típico imigrante que chega aos Estados Unidos na década de oitenta, Erik Schroder, de quatorze anos, que na ânsia por esquecer seu passado na Alemanha Oriental, muda de nome, quando vai se apresentar, para um mais americano: Erik Kennedy.

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“O sobrenome não foi difícil de escolher. Eu queria um nome de herói, e apenas um homem era chamado de herói em Dorchester. Um garoto de bairro, um irlandês perseguido, um semi-deus. Ele também foi aquele que fez um discurso para encorajar os cidadãos de Berlim Ocidental nos idos de 1963, deixando-os com um sentimento palpável de autoestima que durou até muito tempo depois de esse homem ser assassinado, e o status de herói que ele tinha continuava intacto quando o meu pai e eu chegamos aos Estados Unidos, anos mais tarde. Na verdade, pode-se dizer que, no fim das contas, John F. Kennedy foi a razão de termos vindo para este país.”

Amity Gaige

Amity Gaige

E essa jornada de herói buscada por Erik, que é reconstituída por ele mesmo no livro, dá início às escolhas que desencadeiam a trama com reflexões sobre identidade, relacionamentos(entre pai e filho com grande força), decepções e perda. Há o momento em que o personagem se pergunta, se tivesse se dedicado a ser apenas um homem, inteiro, uma identidade, se sua vida poderia não ter fracassado. E reflexões assim permeiam o livro.

No início do livro, Erik Schroder nos avisa que está começando a escrever um relato em que seu advogado pediu para contar a história de sua vida. Mas aqui, casando bem com a epígrafe, um poema de E.E. Cummings, o romance se apresenta mais como cartas do personagem para a sua ex-esposa, com o coração pesado e cheio de arrependimentos, deixando o desenrolar policial em segundo plano, para o bem da trama.

Bom livro. E apesar de uma prosa leve, a melhor característica de Amity Gaige é não subestimar o leitor.

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