Este blog deve muito a Roberto Nunes. Mais do que uma postagem-factual devido à recente morte desse contribuidor inestimável para a cultura cinematográfica de Natal, este texto é um agradecimento – ainda que, infelizmente, Roberto nunca venha a lê-lo, mas creio que seja importante, apesar disso, que os nossos leitores saibam da importância de Nunes para esse espaço e para a jornalista que vos fala.

Se o livro “Ecrã Natalense”, do estimado pesquisador e cinéfilo Anchieta Fernandes, ganhasse uma edição mais recente, seria inviável publicá-lo sem um capítulo especial dedicado a Roberto Nunes e ao projeto Cine Cult. Capítulo este que seria findado muito mais precocemente do que deveria. Apesar dos seus apenas 47 anos, os feitos de Roberto em Natal certamente já preencheriam várias páginas. Para conhecê-los, recomendo a leitura do texto de autoria do amigo jornalista Fábio Farias, em seu blog Apartamento 702. Mas neste texto em questão, focarei na larga contribuição direta de Roberto para O CHAPLIN e, indiretamente, para esta escriba.

Roberto tinha um jeito paulista meio carioca que me agradava. Antes de conhecê-lo, mas já íntima de seus feitos em Natal, sobretudo do projeto Cine Cult, do qual eu era uma frequentadora assídua, eu esperava ver um senhor aristocrata, com jeitão de produtor de cinema, acostumado às honras dos vários festivais de cinema do mundo inteiro pelos quais passou. Surpreendeu-me ver em Roberto um sujeito despojado, competente em seu trabalho de produtor e na missão de incentivador e realizador cultural, e despreocupado com a vida. Descobrir um bar que vendesse cerveja barata em Natal e ficasse aberto até o raiar do sol era algo que o alegrava enormemente.

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Foto: Sylara Silvério

Roberto tinha um jeito engraçado de falar de cultura. Eu nem sempre concordava com tudo o que ouvia dele, mas uma frase me marcou especialmente e resumiu toda a minha relação com a sétima arte: “Filme é para ser visto no cinema”. A discussão veio mais ou menos às 03h da manhã, após uma das várias sessões (lotadas) do filme “Azul é a cor mais quente”, uma das obras que chegaram a Natal graças a Nunes.

Saía do cinema acompanhada de Leila de Melo, também colaboradora deste blog. A sessão começara tarde, já passava de 22h, e devido a longa duração do filme, foi mais ou menos às 2h que encontramos Roberto do lado de fora do shopping, em uma conversa empolgada com o jornalista Sandro Fortunato e Beatriz Adami, que o acompanhava. Dirigi devagar, pensando “que loucos, vão ser assaltados a essa hora!”. Parei o carro e ofereci carona. Vinte minutos depois estávamos os cinco no Pittsburger da Avenida Prudente de Morais, único lugar com cerveja aberto àquela hora da noite pelas redondezas.

“Olha, Natal é uma cidade maravilhosa, mas isso não existe em São Paulo”, protestava Roberto. “Cansei de ter insônia de madrugada, pegar um metrô e ir tomar uma cerveja em algum lugar. Nunca me aconteceu nada”. Enquanto isso, eu pedia um suco de laranja e ele e Sandro riam da minha pouca compatibilidade com o álcool.

Em outro momento, Roberto protestou da dificuldade de se colocar em prática projetos em Natal. Sugeri então que procurasse lugares alternativos, além dos shoppings. E foi quando respondeu-me: “Não concordo. Lugar de se ver filme é no cinema”.

E foi seguindo essa ideologia que Roberto nos trouxe muitos filmes. E nos cinemas. Ainda que alguns chegassem com atraso, eu evitava os downloads clandestinos na expectativa pela chegada da obra ao Cine Cult. Nunca me frustrava, afinal, sempre acreditei que muito da graça de um filme está na experiência cinematográfica. Roberto pensava da mesma forma. RMVB nenhum conseguiria substituir a escuridão, as poltronas do cinema, o som arrebatador e o cheirinho de pipoca. Quer dizer, pipoca não, protestou. Sandro concordou.

Não é todo blog independente que tem a oportunidade de publicar matéria exclusiva com um diretor reconhecido nacionalmente. Graças a Roberto, O CHAPLIN produziu uma entrevista com o Karim Aïnouz, diretor do filme “Praia do Futuro”. Também entrevistamos os protagonistas de “Hoje eu quero voltar sozinho”, cuja sessão especial no Cinemark lotou. Roberto entendia a importância de projetos independentes, que fugiam aos circuitos comerciais, e sempre nos apoiou quando o procuramos.

Não estava no seu ciclo próximo de amigos, mas conheci o seu trabalho. E sou grata a ele. Roberto é uma daquelas pessoas sem as quais meu conhecimento cinematográfico ainda se limitaria aos filmes de sessão da tarde e corujões de domingo. E se, segundo Flaubert, o que importa não é o homem, mas a obra, Roberto vive, pois em sua vida, duas coisas lhe eram indissociáveis: a cerveja e a obra.

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