Sola: a poesia como esporte nacional

 Ele é um dos criadores do evento de literatura que queria tornar a poesia o esporte nacional, o tal Poesia Esporte Clube. Fez parte da SPVA (Sociedade dos Poetas Vivos e Afins), em Natal. É um dos fundadores do já conhecido selo/editora Jovens Escribas. Criou o Sarau do Burro, o selo DoBurro e o Cabaret Revoltaire. Ele é o Sola, natalense do Ipiranga – o único bairro que merece ser citado no hino nacional! – e  também criou o MENOR SLAM DO MUNDO, entre outras pequenices. O cara é Daniel Minchoni e conversou com a gente sobre poesia e outras lutas.

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O CHAPLIN: Como nasceu o seu interesse por poesia? Em que idade?

 Sempre fui muito ligado nas letras das músicas. Ouvinte de rap desde criança, sempre me interessei muito pela história e pela forma que ela era contada, até mais do que pela musicalidade em si. E, nesse contexto, posso dizer que sempre fui amante e atento à poesia. Mas, oficialmente mesmo, passei a escrever com rotina e interesse desde 1998, quando na faculdade fiz parte do zine Blasfêmia e comecei a participar e organizar saraus pra falar poesias na faculdade. O gosto pela poesia falada veio bem forte com a fusão da cultura popular nordestina com o CD de poesia do CEP20000 publicado pela revista TRIP, que foi grande influência pra mim.

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 O CHAPLIN: De onde veio a ideia de fundar os Jovens Escribas?

Nasceu como toda ideia jovem, idealista, alcoolizada, e, – por que não? -, imbecil. Estávamos escalando uma montanha em campos de carvalhos e paramos pra descansar à sombra de uma rocha. Pensamos: por que não desistir dessa vida de arqueólogos e virarmos escritores renomados, como o Paul Rabitt e o Bruna? De lá pra cá temos nos dedicado a vidas burguesas e cheias de glamour, constantemente recusando contatos da Caras e da G Magazine para mostrarmos nossos corpinhos bronzeados de escritores sexys. Essa é a versão mais bem aceita por nosso assessor de marketing. Tem a outra tese que defende que estávamos à beira do Nilo, queimando haxixe e jogando Playstation quando ao encarar o poente pensamos: por que não? E depois: why so serious? E deu no que deu. Tem uma versão resumida que diz que nos encontramos no bar e estamos endividados até hoje. Mas nos amamos (ou nem tanto). E vivemos felizes para sempre.

62214_162171247132604_4354696_nO CHAPLIN: Você também faz graffiti. O que veio primeiro: a poesia ou o graffiti?

O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Sempre gostei de escrever. E o graffiti também é escrita. Sempre pixei e sempre li frases de pichação. Desde criança, onde for que fosse. Pois bem, não sei se isso também era uma forma de me interessar pela ludicidade do pixo ou era uma forma de me interessar pela rebeldia da poesia. Quando moleque fiz alguns graffitis, depois parei. Mudei pra Natal. Mudei. Mas meu espírito sempre foi urbano. Veio a faculdade, a poesia, mas paralelamente sempre desenhando e sempre que possível grafitando. Fiz uma pintura na biblioteca da escola e na capela da casa do vô do Wilder. Uma verdadeira Sistina sertaneja.  Quando voltei pra Sumpaulo, já fazia poesia e retomei o graffiti com mais afinco. Com seriedade e quantidade pra poder falar que de fato fazia isso. Mas sempre me vieram em paralelos. De acordo com o humor. Quando estou estressado puto triste, desenho. Quando estou feliz alegre sorridente, poesia.

O CHAPLIN: Como é seu processo de construção literária?

Prefiro criar ao vivo. Oralmente. Geralmente chego num sarau, com uma ideia na mão e nada na cabeça, e faço ali, de improviso. E vou acertando o vôo do carcará peneirando. Vou falando várias vezes até formatar pela memória e o que ficar ficou. Mas também sento a bunda pra ler e quando leio tenho vontade de escrever.  E aí é o velho processo: leitura e lapidação. Tem coisa que escrevo meramente pra documentar, pois como foram criados pra ser apresentados não funcionam. Do mesmo jeito que transformo muitos textos em performance distorcendo e deturpando. Sem dó nem piedade. Sem apego. Crio como der. O que não pode é encostar.

564506_758467184169671_1271239067_nO CHAPLIN: Antigamente, um poeta/escritor era visto como alguém solitário. Escrever significava apenas se trancar em um quarto escuro e bater nas teclas de uma máquina. Depois, publicar e voltar ao quarto escuro para poder publicar de novo e outra vez sempre. Hoje em dia, eventos literários acontecem em todo o mundo: saraus, competição de poesia falada, cafés literários, conversas, palestras com escritores e tantas coisas mais. Sabemos que pra você isso é importante e que você, inclusive, organiza alguns eventos assim. Por que você acha isso tão legal e de onde surgiu essa vontade de FAZER?

Eu quero é botar o bloco na rua. Se engana quem pensa que ler só se lê nos livros. A leitura-mundo é tão rica e importante quanto qualquer outra. O poeta que se enclausura está perdendo. Mostrar o que sabe na rua, na raça, pode ser uma experiência muito enriquecedora pro processo da escrita. Evidente que os puristas não aceitarão isso como literatura, dirão que livro só escrito, que o processo é solitário… Essas besteirolas com sabor de acerola. Que enrolam, mas que dizem pouco ao mundo atual. Eu prefiro pôr a poesia na rua do jeito que for, na maior quantidade de possibilidades possíveis. Chegar nas pessoas.  Estimular. Sugerir. Criticar. Ouvir. Prefiro estar que ser. Até porque acho que estar te faz ser. Vontade é poder. E um “livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada…”, já dizia o Sérgio Sampaio.

O CHAPLIN: São Paulo pode ser como for, mas é cheia de super eventos envolvendo arte. Como é saber que tem um evento todo dia e que você não precisa ficar num quarto escuro batendo nas teclas de uma máquina de escrever?

Eventos são feitos por pessoas. Qualquer lugar onde tenha pessoas, os eventos podem acontecer. Tem os maiores, com mais projeção e tem os humildes. Sampaulo proporciona muito o contato porque tem muita gente fazendo. Isso é fato e é foda. Mas isso também pode ser perigoso. Tem os poetas de sarau, que não são poetas se não tiver microfone. E isso é um dos vícios das facilidades. Escrever e fazer sem saber de possibilidade e reconhecimento é uma coisa importante. Primeiramente produção, depois holofote. Tem muito poeta se perdendo. Mas, falando do lado bom, no sarau vemos a produção viva. Isso não tem preço. É momento mágico, pra mim sofredor.

O CHAPLIN: Você e Sinhá estão juntos há um tempo. Ela é, como até você diz, a poesia personificada. Você acha que essa união contribuiu pra você ter mais inspiração?

A Sinhá é a poeta da casa. Eu só corro atrás. Mas não é inspiração, é referência.