Taxi Driver: um sonho/conto americano

“Chamam de ‘sonho americano’ porque é preciso estar dormindo para acreditar nele”  George Carlin

Violência, prostitutas, viciados, pervertidos…miséria. Um taxista vagueia por uma grande metrópole; impassivelmente, testemunha a degradação de uma sociedade e a frustração de uma geração.

Seu nome é Travis, e suas divagações nos apontam para um EUA que não cumpriu com o escopo do “Sonho americano”. A malfadada Guerra do Vietnã mostrou o lado sádico e intolerante do “paraíso da democracia”. Nixon mentiu; e a crise econômica minava as promessas de que todos seriam ricos e famosos.

Travis inconscientemente tem ciência disso; porém, a sua ótica é míope, não alcança os contornos que delineiam aquela realidade absurdamente distópica para um americano alimentado por um seio conservador e ufanista.

Travis é um alienado. Sabe muito bem que há algo errado; só não sabe apontar o quê. Talvez sejam os negros, os cafetões, os viciados… não importa de quem seja a culpa, o que vale é nutrir a raiva. Essa será a argila que esculpirá o seu ato de revolta; o seu “troco”.

Travis também é um apaixonado – no sentido mais platônico do termo. Betsy, a quem ele observa já há algum tempo,  é o depositário de todo o seu amor. Ao seu julgo, ela simboliza valores perdidos da América, tal como a pureza e a inocência. Mas Travis não a conhece estritamente. Está tão alheio a ela quanto a sua paranoia em relação ao mundo. “Um cinema pornô seria perfeito para um primeiro encontro!!”.

Em um ato de uma ingenuidade quase  pueril, a leva a um cinema pornô. Betsy se ofende, e lhe dá “adeus” tão rápido quanto lhe disse “olá”. Ele não entende. Não queria ofendê-la, muito menos insinuar-se sexualmente; na verdade, gostaria apenas de compartilhar algo recorrente em sua vida – o ato de ir a sessões de pornografia no interlúdio de sua vazia existência.

Os sentimentos de Travis também estão voltados para outra garota. Iris, uma prostituta adolescente. Sozinha, frágil e explorada, logo se torna o alvo dos arroubos altruístas do motorista. Ajudá-la a recompor-se dignamente será o seu legado positivo à sociedade que convenceu-lhe a lutar uma guerra suja, só para depois de cumprido o dever, condená-lo à solidão.

Pouco a pouco, um Travis cada vez mais isolado e paranóico ensaia a execução de seu testamento para a América. A forma pungente com que se exibe diante de um espelho reflete o panorama disfórmico em que estão mergulhados alguns americanos que não tiveram sua fatia do bolo. A violência e a beligerância contra tudo e todos é a resposta daqueles que não conseguiram acordar do sonho. Tudo o mais vem a seguir…