“The Boxtrolls” e a sombria história infantil de Pontequeijo

“The Boxtrolls” chegou às salas brasileiras em setembro de 2014. Contudo, admito que meu ano não foi muito inspirador para animações, ao contrário do que geralmente ocorre – normalmente, bato todos os filmes do gênero que surgem e uma das minhas premiações favoritas é o Annie Awards, que premia animadores e demais profissionais envolvidos com essas produções. Com o fim de ano se aproximando, as indicações foram surgindo e bateu aquele desespero. De todas as animações que pareciam mais promissoras, eu apenas havia visto uma. Contudo, nos dias de hoje, essa é uma realidade facilmente remediável e isso explica o fato de esta crítica vir com três meses de atraso. Superado esse gigantesco e desnecessário nariz de cera (um hábito do qual não me desfaço), vamos ao que importa.

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Confesso que quando vi um gigantesco cartaz com um garoto desajeitado e criaturas estranhas dentro de caixas (?), levei o filme muito pouco a sério. Motivo pelo qual não tinha atentado para assisti-lo até então. Contudo, “The Boxtrolls” é o exemplo vivo (ou deveria dizer animado?) de que não devemos julgar o livro pela capa – neste caso, o filme pelo cartaz. O filme por vezes lembra a excentricidade de “ParaNorman” com o humor macabro e a estética admirável de Tim Burton.

Tudo começa quando já nos primeiros segundos de projeção, ouvimos o dramático grito “Meu filho, não!” e um bebê é supostamente roubado de seus pais pelos “Monstros das Caixas”, que a partir de então passam a ser criatura temidas e caçadas na cidade vitoriana de Pontequeijo, cuja principal característica é sua aristocracia obcecada por luxo e por queijos. O bebê, contudo, é criado como um dos Boxtrolls e passa-se a chamar “Eggs” (Ovo, na tradução brasileira).

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Pulando maiores informações sobre o enredo, “The Boxtrolls” chama atenção pela forma como é conduzido. A narrativa simplista dá espaço para muito esmero na animação, personagens divertidos (a exemplos dos próprios boxtrolls que são uma versão menos fofa dos famosos Minions), e várias referências históricas. Uma coisa que me chamou atenção, por exemplo, é a diferenciação de castas pela cor dos chapéus: os brancos, pertenciam às classes mais elevadas que detinham o prestígio necessário para saborear banquetes de queijos dos mais variados tipos; os chapéus vermelhos, por sua vez, pertenciam aos cavalheiros de classe mais abastarda, que não compartilhavam dos requintes dos “Chapéus Brancos”. Diferenciar a classe social por esse acessório era bem comum nas sociedades de alguns países entre os séculos XIX e XX.

A fotografia do filme também faz questão de ressaltar a sujeira da cidade (que remete também à sociedade) da época. Há poucas cores e o visual sombrio predomina durante toda a animação. Outro ponto forte é a trilha sonora, forte e dramática. Certamente, é impossível passar despercebida. A música tema, “The Boxtrolls Song”, é uma das melhores peças de filmes a que já escutei este ano.

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Por fim, destaco o diálogo final do filme: dois personagens iniciam uma discussão metalinguística sobre sua condição de animações e começam a supor informações sobre as pessoas responsáveis por seus movimentos. “Devem ganhar muito mal. Provavelmente têm outro emprego”. Crítica ao sistema ou apenas uma piada para nos fazer sair do cinema rindo, foi divertido observar essa quebra da parede que separa os criadores de suas obras.

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