O filme “A Noite Americana” nos oferece um pertinente exemplo sobre os elementos vivenciais que norteiam o “fazer cinema”: os dissabores, os desencontros e as dificuldades técnicas que habitam para além do verniz da “magia” da tela encontram ressonância nessa obra que, se nutrindo da dinâmica estrutural com o qual se fomenta um filme, nos apresenta uma percepção sensível, irônica, e por vezes cínica do que acontece nos bastidores.

Na cena de abertura, percebemos o uso da metalinguagem, ou seja, um filme dentro de outro filme. Tal artifício narrativo tem o objetivo de revelar ao espectador o enorme aparato estratégico que se exige para a concepção e o andamento de uma cena, além de todos os indivíduos que emprestam seus esforços para ela. Ainda nessa sequência inicial, há uma rápida passagem onde se faz um uso interessante da metalinguagem: uma das assistentes de direção explica a uma outra como anotar as marcações à respeito da mudança de tomadas, e nesse ínterim, vemos uma mudança brusca do ângulo de câmera, que corrobora com a fala das assistentes.

Pouco a pouco, o diretor nos apresenta a constelação dos personagens que habitam o cotidiano das filmagens, mostrando que as relações entre os profissionais são regidas por uma certa artificialidade: a convivência dias à fio e a falta de privacidade por vezes implica em uma indiferença em relação ao que está sendo produzido, como é o caso da personagem Severine, que não esquece constantemente suas falar por estar por demais envolta em suas neuroses.

Mediante os pensamentos do personagem Ferrand, diretor do filme, tomamos contato com as agruras que habitam a mente de um realizador cinematográfico em ritmo de produção; conhecemos os pensamentos de Ferrand, e através deles tomamos contato com suas inseguranças em relação a obra, que acabam por não transparecer nas atitudes do diretor: em uma de suas divagações, Ferrand diz para si mesmo que não tem a certeza se vai conseguir terminar o filme, ao mesmo tempo que continua a delegar ações ao longo do set de filmagem. Essa passagem nos denota que uma das qualidades imprescindíveis a um realizador é a manutenção de sua calma e a serenidade frente aos obstáculos e dificuldades inerentes a rotina dispendiosa que rege um set de filmagens.

A ilustração da rotina é um dos pontos recorrentes do filme, onde vemos configurar-se todo um aparato de situações onde conhecemos as inquietações sentimentais e existências de alguns indivíduos da equipe. O personagem de Alphonse é abandonado por sua noiva que foge com um dublê; Julie, a estrela do filme, recupera-se de uma depressão; e Severine precisa que suas falas sejam espalhadas em cartolinas pelo set, uma situação que alude à relação entre o diretor americano Billie Wylder e a atriz Marilyn Monroe, que só decorava suas falas quando as mesmas estavam dispostas em bilhetes espalhados no set de filmagem.

Outros diretores são referenciados no filme, tais como Fellini, Hitchcock, e em um plano detalhe emblemático, vemos meia dúzia de livros sobre diretores como Bergman, Chabrol e outros cineastas que influenciaram Truffaut. Essa passagem diz respeito a um ponto importante da formação de um diretor cinematográfico, que é o estudo e o conhecimento de outros diretores. O próprio Ferrand, após esta cena, mostra-se mais altivo na sua relação com a regência da obra.

Em certa medida, a relação de Ferrand com sua obra é intercalada por sonhos, no qual ainda menino, planeja roubar fotografias do filme “Cidadão Kane” de um cinema. Em um preto-e-branco noir, acompanhamos o garoto em sua empreitada, e mais que uma travessura, sua atitude apresenta-se como uma ode ao cinema, visto que a paixão deliberada por essa arte está encimada pelo desejo de ser ter contato, mesmo que indireto, com a constituição do “fazer cinema”.

O diretor, Ferrand, se apresenta como o norte por onde se articula todo o sistema do final. Nele, o realizador tem de lidar com os mais variáveis níveis de dificuldade, tanto no que tange à técnica, quanto as relações humanas. O filme nos conta um pouco da mística e responsabilidades que estão abarcadas na figura do diretor, em uma época que o mesmo ainda não era um mero operário subjulgado às vontades senhoriais de grandes estúdios; os encargos de Ferrand não se limitam apenas a esfera da produção cinematográfica, mas também a seara dos diferentes egos e personalidades que povoam a estrutura de uma produção e à sua maneira, o personagem tenta contornar todas essas implicações, com o intuito salvaguardar a excelência de sua obra, o que é umas das preocupações primordiais de qualquer artista.

Em “A Noite Americana”, conhecemos que o “fazer cinema” não se configura apenas por seus aparatos técnicos e financeiros, mas sobretudo pela vontade e paixão das pessoas que se comprometem a construir algo além de suas próprias vidas.

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