A primeira vez que ouvi falar dessa película (Harry e Sally – Feitos um para o outro) foi em uma aula da disciplina Cinema na Universidade. A professora classificou uma determinada cena do filme como “genial” e perguntou quantos na turma haviam assistido. Para a surpresa e desespero dela, apenas uns três braços levantaram-se. O meu não estava entre eles. No mesmo dia, quando cheguei em casa, apressei-me em baixar o filme, na esperança de corrigir o quanto antes minha heresia cinematográfica. Mas a minha redenção só foi, de fato, concretizada, ontem, quando resolvi criar vergonha e assistir à película.

O filme começa com um casal de velhinhos falando para a câmera sobre o seu primeiro encontro e a sua vida juntos após décadas de casamento. A cena se repete mais três ou quatro vezes no filme, sempre com casais idosos, mas com histórias diferentes para contar. A intenção é dar um ar de realidade para a trama, fazendo com que o espectador se identifique com “uma história possível”. E, na realidade, não tenho certeza se os participantes das pontas eram atores de fato ou personagens da vida real.

O que se segue é uma comédia romântica deliciosa, e bastante peculiar. Não porque nos leve a um romance inimaginável, impossível, ou que todos sonhamos viver. Mas porque a roteirista soube como colocar a vida normal de cada um em uma trama e ainda assim torná-la interessante. Digo isso porque poucos são os espectadores que desejam ver uma história de amor “comum” nas telonas. Ao contrário, sempre estamos buscando pelos sonhos, pelas paixões à primeira vista, a superação das dramáticas barreiras, os primeiros amores eternos.

Ora, respondam-me, leitores: quantos de nós casaram com o primeiro amor de nossas vidas? Quantos de nós se apaixonaram à primeira vista? Quantos de nós viveu um amor utópico como os que geralmente são vendidos nas comédias românticas? Bem, não que não seja possível, mas eu acredito que a porcentagem daqueles que se identificam com essas situações é bem baixa. Agora, quantos de nós foi apresentado ao namorado(a) ou marido (esposa) por um amigo? Quantos de nós não gostou dele(a) a princípio? Quantos de nós precisou de anos para enxergar quem realmente valia a pena na vida? Quantos de nós fomos (ou ainda somos) invisíveis para a pessoa de quem gostamos por muito tempo? Quantos de nós acabou vendo no melhor amigo(a) um(a) ótimo(a) amante e parceiro(a) para a vida toda? Isso porque geralmente, é assim que acontece. E, cá para nós, hoje acredito que essas são as melhores histórias de amor.

Harry conhece Sally por volta dos vinte anos. Na ocasião, ele é o típico “garanhão” e ela a típica “universitária certinha e determinada”. Ele se interessa por ela (como poderia se interessar por qualquer outra mulher do mundo), mas ela cria a pior das impressões acerca dele e fica aliviada quando a viagem de 18 horas que faziam rumo a Nova York termina. Cinco anos depois voltam a encontrar-se ocasionalmente. Harry mal lembra de Sally e ela, por sua vez, torce para que ele realmente não lembre. Naquele momento, trocam mais algumas palavras. Ele estava noivo e ela comprometida. E novamente, somem da vida um do outro, tornando a se encontrarem apenas cinco anos mais tarde. Harry era um homem completamente diferente daquele que Sally conhecera há dez anos. Estava enfrentando um divórcio – que ele não desejava – e bastante abatido por isso. Sally também estava se separando, contudo, um tanto mais controlada que Harry. Dessa vez, Sally interessa-se por Harry, e o convida para sair. Ele entende o contato como amizade e assim permanecem por anos.

O filme de 1989, dirigido por Rob Reiner, e com roteiro de Nora Ephron (de Silkwood e Mensagem para você) tem muito pouco do clichê do cinema de comédia norte americano. As cenas de humor são criativas, e o mesmo se pode dizer dos diálogos, ponto forte da trama. Harry e Sally funcionam como arquétipos diferentes que contrastam constantemente em ideologia, atitudes e forma de pensa sobre várias situações diferentes na vida. Os jovens Meg Ryan e Billy Crystal no quase início de suas carreiras estão cativantes e bastantes convincentes.

Foram precisos vários encontros, contratempos, relacionamentos e experiências para que chegassem a um ponto em que Harry e Sally encaram o que o próprio título (em sua versão brasileira) já spoila: que foram feitos um para um outro. E quem disse que precisa ser à primeira vista, não é?

“When Harry Met Sally” prova que é possível fazer humor e romance para o cinema sem apelar para clichês, exageros, personagens caricatos e trilhas sonoras dramáticas. Afinal, nem sempre ouviremos “I will always love you” ao fundo quando beijamos um desconhecido para alertar-nos de que aquele é o amor das nossas vidas.

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