Durante alguns períodos do meu curso busquei em determinados momentos compreender melhor a atividade jornalística, entender basicamente o processo de construção de uma matéria como também depreender as questões ideológicas que movimentam a parcialidade de um jornalista crendo que se torna quase impossível a imparcialidade por completo, pois entendo que a partir da escolha do assunto que você vai tratar já denota o posicionamento ideológico de um jornalista.

Na busca por um conteúdo de cunho jornalístico me deparei com um dos autores que eu considero um dos mais emblemáticos do século XX, John Reed, que para muitos é considerados um dos grandes jornalistas de todos os tempos. Li o seu livro mais famoso “Os dez dias que abalaram o mundo”, que traz um relato completo sobre os acontecimentos que antecederam e sucederam a revolução bolchevique, trazendo os principais fatos que levaram Lênin ao poder como também a construção da URSS.

Uma narrativa bastante completa e detalhista que possibilita compreender de certo modo o movimento proletariado e grevista que emergia naquele momento. Seus relatos nessa obra, que no Brasil tem uma ótima versão editado e lançada pela Companhia das Letras, foi bastante importante para que eu adentrasse ao mundo do jornalismo cultural, porém essa obra não serviu de inspiração apenas para esse que vos escreve mas também para muitos jornalistas que buscam investigar o mundo político, cultural e criminoso.

SAVIANO

Roberto Saviano, autor de Zero, zero, zero

Dentre esses autores em que percebemos uma certa inclinação para os mesmos passos de John Reed, destaco o italiano considerado por muitos um herói, Roberto Saviano, autor de duas grandes obras, Gomorra e Zero Zero Zero, que investiga o mundo do crime e que também foi lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. Ainda não tive o prazer de ler Gomorra, mas acabo de finalizar a leitura de Zero Zero Zero e posso dizer que a obra me chamou bastante atenção.

Em seu segundo livro, Saviano se torna mais ousado e construiu uma matéria completa sobre o mundo do narcotráfico, desde sua origem até os dias atuais, denunciando os nomes dos grandes líderes dos grupos narcotraficantes como também os caminhos que a heroína percorre para entrar nos Estados Unidos. Contudo, não se trata apenas de uma denúncia desses grupos, mas também um relato histórico que pouco é difundido.

zero zero zero

Capa de “Zero Zero Zero”

Logo nas primeiras páginas, Saviano demonstra que parte da culpa para o desenvolvimento do narcotráfico no México está intimamente ligada à entrada dos Estado Unidos nas duas grandes guerras. O autor relata que durante muito tempo, antes de entrar nos conflitos, os Estados Unidos  construíram uma acordo junto com o México o qual obrigava a todos os produtores rurais durante o período de guerra a cultivarem a papoula, que servia como base para o desenvolvimento morfina e da heroína. A partir daí, muitos produtores faziam acordos escusos com policiais mexicanos para que pudessem desviar parte das papoulas para consumidores civis tanto no México como nos Estados Unidos, iniciando assim o narcotráfico.

A parte que mais me chamou atenção foram os capítulos em que Saviano denuncia o que todos sabem, mas poucos comentam: a transformação dos grupos narcotraficantes mexicanos em grandes indústrias multinacionais que patrocinam campanhas políticas em todo o mundo com o intuito de burlar fiscalizações e derrubar as fronteiras que impedem o trânsito da heroína. Os relatos da obra são tão incríveis que, em determinadas páginas, Saviano denuncia que o narcotráfico já possui tanto políticos como juízes e policiais em suas folhas de pagamento se tornando praticamente impossível erradicar esses grupos que já dominam a distribuição e a comercialização da heroína, maconha, cocaína e metanfetamina tanto na América quanto na Europa.

Um outro aspecto que me chamou bastante atenção durante da leitura foi a inteligência de determinados líderes do narcotráfico.  O investimento realizado superou o fim de fortalecimento do trafico, e buscou também o desenvolvimento arquitetônico e educacional de determinadas cidades, investindo na criação de universidades, bibliotecas e até mesma na construção de igrejas.

Zero Zero Zero é uma obra bastante interessante, indico todos os leitores que adquiram esta obra que vai além de uma denúncia, possibilitando ao leitor compreender melhor um assunto que devemos discutir bastante já que, querendo ou não, estamos imersos no ciclo de violência gerada pelo tráfico.

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