O cinema brasileiro é uma grande mistura de referências e inspirações. Temos muita história, temos diversas culturas convivendo neste país de dimensões continentais e sobrevivendo ao tempo, transmitindo seus conhecimentos às novas gerações através das mídias, incluindo o cinema. Já se foi o tempo em que o cinema brasileiro era classificado como de péssima qualidade, sem criatividade ou paixão. Diretores como Glauber Rocha, Walter Salles e Fernando Meireles não só levaram nosso jeito para o mundo, eles trouxeram também o jeito brasileiro para o próprio brasileiro, que não se reconhecia e através do cinema pôde se ver, se orgulhar e refletir. Grandes atores e atrizes também surgiram, eternizando personagens, trejeitos, mostrando o que é ter gana e fazer arte num país onde não são valorizados.

Na segunda-feira, 20, O CHAPLIN teve a honra de conversar com Zezita Matos, atriz de longo reconhecimento no cinema nacional, que esteve presente no 7 Estrelas, evento do Departamento de Comunicação da UFRN para a discussão e crítica sobre cinema brasileiro. Na entrevista, questionamos a atriz sobre o atual cenário do cinema nacional, sobre a velha e a nova geração de diretores, projetos e sonhos. Confira a conversa:

Zezita07 (Silmara Braz)

O CHAPLIN: Historicamente, o eixo Rio-São Paulo era o principal e praticamente único eixo cinematográfico reconhecido nacionalmente, mas hoje, através do incentivo governamental, este eixo se desmistificou e se tornou possível dar espaço à produção independente, principalmente em Pernambuco. Qual a sua opinião sobre os editais públicos e a possibilidade da democratização do cinema através deles?

Zezita Medeiros: Eu vejo que agora, cada parte do país está tendo essa condição, de produzir seu cinema e refletir o Brasil por completo, seja através de editais ou de outros tipos de fomentos governamentais.  Estamos podendo mostrar uma coisa que ficava muito restrita a cada região, mas que agora temos total liberdade para a criatividade e para a realização dessa criatividade, com o auxílio do Estado. Antes, realmente só ouvíamos falar do cinema paulista e do carioca, o que dava a ilusão de que só em São Paulo e no Rio de Janeiro é que se produziam cinema, que só lá existiam bons atores, atrizes e diretores. Hoje, o que vemos, é um jovem diretor fazer sucesso e não precisar sair da sua cidade no interior de algum estado do Nordeste.  Dar oportunidade é a chave e precisamos de muito mais.

O CHAPLIN: Você fez parte do elenco de três filmes muito aclamados pela crítica nacional, são eles “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) de Marcelo Gomes, “O Céu de Suely” (2006) de Karim Aïnouz e “Baixio das Bestas” (2006), de Cláudio Assis. Você pode nos contar um pouco sobre como foi trabalhar com esses diretores?

ZM: O Marcelo é de uma delicadeza com os atores extrema e foi com ele, de fato, que fiz o meu primeiro longa, o “Aspirinas”. Depois veio Karim e o seu convite para o filme “Suely”, onde fizemos um trabalho muito bonito. Nós atores não tínhamos roteiro, isso só pertencia ao Karim e à produção. Ele nos contava parte da história, nos apresentava o contexto e a gente, entendendo ela, partia para atuação livre. Ele nos deu toda essa liberdade e isso foi muito gratificante. Ao fim desse trabalho, já estando de volta a João Pessoa, Claudio Assis vai até onde estou e me convida para trabalhar com ele na preparação dos atores, mas logo em seguida ele me pergunta se eu gostaria de participar do filme também. E Claudio, então, completamente diferente dos outros dois. Eu aprendi demais com “Baixio” e sua inspiração realística.

O CHAPLIN: Você acabou de dar uma palestra sobre a mulher no teatro e ainda apresentar sua visão da mulher no cinema. Qual é a posição da mulher hoje?

ZM: O papel da mulher hoje é no teatro, é no cinema, é na rua… Como eu sempre achei que fosse e sempre pensarei assim. Sou educadora profissional, mas minha vida começou entre o teatro e a educação, e a mulher tem o direito de estar onde ela quiser.

O CHAPLIN: Além da liberdade, a nova geração de cineastas tem mais oportunidade. O que você enxerga neles?

ZM: O que me chama atenção é essa vontade de mergulhar no cinema, no que podemos chamar de trabalho autoral. Eu acho isso muito interessante nos jovens. Eles estão imprimindo uma nova história no cinema nacional, cheia de criatividade e coragem.

O CHAPLIN: Por fim, indique três filmes nacionais que todos deveriam assistir.

ZM: “O Céu de Suely”, “A História da Eternidade” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”.

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