Entrevista: Halder Gomes e Edmilson Filho, os cearenses por trás de Cine Holliúdy

Cearense que sou, foi impossível não me sentir contente e, de certa forma, orgulhosa com o sucesso que “Cine Holliúdy” vem arrebatando desde o seu lançamento, em meados de agosto. No fim do mês passado, o filme deixou a exclusividade das salas cearenses (que permaneciam abarrotadas mesmo depois da primeira semana de exibição) e colocou o pé na estrada para percorrer o resto do país, munido de suas legendas para aqueles que não estão familiarizados ao genuíno e hilário “cearensês”.

Desde então, “Cine Holliúdy” tem recebido críticas elogiosas e se tornou favorito no ranking das bilheterias brasileiras, bem como na lista de comédias nacionais do ano. O maior mérito do filme, ao meu ver, não se constitui exclusivamente de seu roteiro, produção ou demais quesitos técnicos: a questão é que é extremamente gratificante ver um “formato” diferente popularizar-se, obter sucesso e cair nas graças do povo, mesmo sem os cenários cariocas, o elenco global e a impessoalidade cultural estampada na maioria das mais recentes produções brasileiras, que buscam cada vez um “sincretismo” que agrade não só à completa diversidade cultural nacional, mas também aos gostos estrangeiros.

Bem, não digo que esse seja um caminho errôneo, mas à medida que o cinema tenta abranger a todos, distancia-se da representação de cada um. E é exatamente o oposto disso que Cine Holliúdy propaga em cada frame. É puro Ceará, figuras do interior, linguajar próprio, e ainda assim consegue cativar como poucas produções que estampam o padrão Globo Filmes. Ponto para o Ceará. Ponto para o Nordeste. Ponto para o Brasil. E, acima de tudo, ponto para o cinema!

Edmilson Filho e Halder Gomes. Foto: Divulgação/Internet

Logo após ver o filme e me dar conta de sua importância para o atual cenário do cinema nacional, imediatamente busquei os dois principais nomes responsáveis pela obra: o diretor, Halder Gomes, e o ator Edmilson Filho, que interpreta o personagem principal do filme, o sonhador Francysgleydson. Ambos cearenses, que prontamente se mostraram disponíveis para a entrevista. Contratempos e desencontros impediram que eu conseguisse as duas no prazo de tempo que tinha em mente, mas eis que finalmente saíram.

Percebi que Edmilson e Halder têm uma coisa em comum, e que provavelmente também seja uma grande sorte para ambos: apaixonados por cinema e artes marciais, têm o grato sabor de poder desempenhar trabalhos nas duas áreas. Quem viu “Cine Holliúdy” pode notar que o filme homenageia não apenas a Sétima Arte, mas também o cinema oriental que se dedicava a retratar combates entre os mocinhos e os vilões, e que despertava no público as mais extasiadas reações. Entre uma paixão e outra, alguns trabalhos prévios e muito esforço, surge um filme “genuinamente cearense”, como tem sido classificado. Para conhecer um pouco de dois dos nomes que ascendem com ele, confira as entrevistas abaixo.

 

Edmilson Filho nasceu em Setembro de 1976 (37 anos), na capital do estado do Ceará. Como ator, já trabalhou no cinema, televisão e teatro. A carreira de comediante iniciou-se desde cedo, com 17 anos. Hoje, Edmilson vive em Los Angeles (Estados Unidos), onde trabalha como professor de taekwondo, paixão que nutre desde a infância, e dedica-se a trabalhos e pesquisas na área artística.

Conte um pouco do seu histórico em suas carreiras (como ator e nas artes marciais).

Edmilson Filho – Bom, comecei no humor em 1993, ganhei um festival em Fortaleza, fiz humor por três anos e depois disso me dediquei integralmente ao taekwondo, como atleta. Sou três vezes campeão brasileiro e vários outros títulos nacionais e internacionais. Em 2000, recebi o convite de vir morar nos Estados Unidos para dar aulas de taekwondo. Mudei para Los Angeles em 2001. Em 2003 fui morar em Londres, em 2004 voltei a atuar no curta “O artista contra o caba do mal”, e depois disso me dediquei a só dar aulas, não mais ser atleta, e de alguma forma voltar ao meio artístico. Em 2010, fiz uma participação no filme “As mães de Chico Xavier”. Nesse meio termo sempre escrevendo, estudando cinema e atuação, até que chegou a vez do “Cine Holliúdy”.

Seu personagem no filme Cine Holliúdy é um apaixonado incondicional por cinema desde sempre. Você também tem essa paixão? Como se consolidou a sua relação com o cinema? 

Edmilson Filho – Sim, tenho essa paixão pelo cinema também, hoje é isso que me motiva. Eu como ator estava aberto a novas formas de me expressar como artista e comediante, e o cinema foi a forma que chegou primeiro, pela influência do diretor Halder Gomes.

O filme se torna engraçado pelo “idioma” particular do cearense (principalmente, o do interior). Todas as expressões já eram familiares para você ou houve um processo de adaptação?

Edmilson Filho – Muito familiar com tudo, alguma coisa aqui ou ali, mas a língua foi fácil, eu até hoje uso algumas das palavras que estão lá no roteiro do filme.


Antes você já havia gravado um curta com o diretor do longa seguindo a mesma ideia. Então você já estava familiarizado com o personagem? Foi fácil interpretá-lo?

Edmilson Filho – Sim, foi fácil até certo ponto, porém teve muitos ensaios e estudos para passar a verdade e naturalidade que o personagem pede.

Como você classifica o atual momento do cinema cearense frente ao grande circuito nacional?

Edmilson Filho – Antes e depois de “Cine Holliúdy”. Agora sim, o cinema cearense chegou de frente. Os números estão aí para provar isso.

Qual você acha que é a importância de um filme “tipicamente cearense” tanto para os cearenses quanto para o público de cinema de uma forma geral? Você julga que há um preconceito na indústria cinematográfica nacional?

Edmilson Filho – O filme chega para se afirmar como uma forma de comédia em que o público se identifica e se vê na tela, isso é bom e pode trazer mais produções dessa natureza, e é uma forma de colocar a cultura de um povo pela linguagem para outras partes do Brasil. Eu não acho que tenha preconceito não, o que tem são meia dúzia de pessoas que não entendem que por ser diferente também pode ser.

O filme demorou três anos entre os processos de gravação, pós-produção e veiculação. Por que tanto tempo? A equipe encontrou dificuldades no processo?

Edmilson Filho – Isso tudo se resume a uma coisa: dinheiro. Quando se tem dinheiro tudo vai mais rápido. Mas mesmo assim, dois anos é um tempo normal para uma produção para sair nos cinemas, isso sem contar o roteiro que pode levar mais um ano de preparação.

O filme conta com elenco, em sua maioria local (cearense), mas também nomes do circuito nacional. Como foi a relação de parceria e o reconhecimento entre o elenco?

Edmilson Filho – Foi tudo ótimo, sem problemas, o elenco local e o de fora se deu super bem, afinal somos todos artistas e cada um dentro do seu conhecimento tinha algo para acrescentar. Não poderia ter sido melhor.

Halder Gomes é um diretor, produtor e roteirista cearense. Se tornou primeiramente conhecido por seus curtas-metragens “Cine Holiúdy – O astista contra o caba do mal” (2004) e “Loucos de futebol” (2007). Seu primeiro longa, o independente “Sunland Heat – No calor da terra do sol” (2004), foi lançado direto em homevideo, assim como seu filme seguinte, a produção americana “Cadáveres 2” (2008). Dirigiu, ao lado de Glauber Filho, o drama espírita “As mães de Chico Xavier” (2011). Também participou do roteiro e produção de “Area Q” (2011), de Gerson Sanginitto, uma parceria entre Brasil e Estados Unidos .

Em uma entrevista que li você diz que seus planos são ficar pelo Ceará mesmo. Você tem um apego ao Ceará, ou ao Brasil? Uma espécie de vontade de fazer as coisas acontecerem por aqui?

Halder Gomes – Foi uma opção artística. Se tentasse uma carreira fora, sempre estaria faltando alguma coisa ao optar por contar as histórias alheias. Não que esteja fechado pra isso, pelo contrário, mas estando aqui estou mais próximo das minhas inspirações e estrutura de produção. Mas, sim, tenho um apego especial pelo Ceará.

O roteiro do filme também é seu. De onde partiu a ideia? Quais foram suas inspirações para a obra?

Halder Gomes – O roteiro é construído de memórias da época do filme – década de 70 – e recortes do universo das artes marciais, do qual também fiz parte por mais de vinte anos da minha vida. A ideia surgiu do curta “O Astista Contra o Caba do Mal”, que fez muito sucesso em festivais, com o público e a crítica. Os constantes comentários de “quero mais” e o conselho da jornalista Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau serviram de motivação pra escrever o longa. As inspirações foram as memórias da minha infância. No entanto, quis fazer muitas reverências a músicas e filmes de sucesso da época.

Você se identifica com algum personagem do filme?

Halder Gomes – Sim, muito, com mais de um. O Francysgleydson (protagonista) é o alter-ego da luta pra fazer cinema independente, a determinação, coragem, ousadia, empreendedorismo, sonhos… O Valdisney é a lembrança de um garoto que viveu a infância no interior do Ceará, na década de 70, onde sonhar era a maior ferramenta para chegar em outros lugares, culturas e profissões.

O filme presta uma homenagem ao cinema. Fale um pouco sobre sua relação com a Sétima Arte.

Halder Gomes – Minha relação com o cinema vem desde a infância, quando os filmes de artes marciais, westerns, Hércules, etc. me fascinavam. Sonhava com aquilo, e não sabia ao certo quando, onde e como faria parte daquele mundo. Minha relação com o cinema é mais de correr atrás pra fazer do que para assistir. É uma arte que me fascina porque me desafia ao extremo. Gosto de desafios, e o cinema é infalível nisso.

Você já teve experiências em produções internacionais. Poderia falar um pouco sobre isso? Quais foram os principais aprendizados?

Halder Gomes – Na verdade comecei no exterior, como dublê de lutas, em filmes de artes marciais – sou mestre 4º grau em taekwondo. Desde então, exerci muitas funções em produções fora do país, o que me deu muita experiência, consciência de planejamento, precisão orçamentaria, direção, etc.

Cinema para você é ofício ou paixão?

Halder Gomes – As duas coisas. Cinema é muito complexo, trabalhoso e arriscado. Sem as duas coisas não dá pra almejar resultados expressivos.

Edmilson e Halder no set de filmagem de Cine Holliúdy

 

Quais as suas principais inspirações cinematográficas?

Halder Gomes – Não sou muito de buscar inspirações. Conto minhas histórias da forma que vejo cada roteiro pedir. Vou do meu jeito mesmo. Sou mais de fazer reverências às coisas que curto e admiro do que buscar inspirações. Quando as busco, vou ao universo da pintura, que é o que mais me atrai.

Como você encara o atual momento do cinema brasileiro?

Halder Gomes – Muito bom! O Brasil é um país privilegiado com suas políticas de incentivo a produção, distribuição, etc. A diversidade de conteúdos e a qualidade dos mesmos coloca o país em capacidade de competir no mercado nacional com os blockbusters estrangeiros e nos festivais internacionais de grande projeção.

E do cinema cearense frente ao circuito nacional?

Halder Gomes – O cinema cearense vive uma situação paradoxal. Há uma produção vasta e de qualidade, porém sem o reconhecimento/investimento de políticas públicas e privadas à altura da força criativa e capacidade profissional.

Após o sucesso que tem sido Cine Holliúdy, os planos são descansar ou aproveitar o fôlego para engatar um novo projeto?

Halder Gomes – Não sou muito de descansar. Adoro meu trabalho, e isso me faz não querer parar. Na verdade, o momento agora é de fazer acontecer os próximos filmes, e isto já está em andamento.