Recentemente, conheci e li uma das melhores poetas del Brasel: Nanda Prietto. A minha timeline no Facebook tinha, no mínimo, vinte compartilhamentos de links carregados de poemas da garota. Todo mundo doido, encantado, maravilhado. Cliquei, de curiosa, e não consegui mais parar de ler. Era uma poesia ácida, necessária e muito rock n’ roll.

”Nanda Prietto” é o heterônimo de uma menina de 16 anos que mora em Poços de Caldas – MG, toca guitarra base na banda de rock (em fase de extermínio) ”Macacos e Donzelas” e vai cursar o terceiro ano do Ensino Médio. Por ela ser uma Escritora Suicida e usar um heterônimo, não pode se mostrar além palavras. Dessa forma, reproduziremos apenas texto e deixaremos de lado fotos da Nanda. Seu livro, ”Princesa Mas Peçonhenta’‘, continua inédito. Tive a honra de entrevistá-la, e segue abaixo o relato do papo bem aberto que tivemos:

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O CHAPLIN: Você apareceu meio do nada na internet e conquistou um monte de poetas e escritores com bastante estrada. Como aconteceu esse contato com a Germina e o grupo Escritoras Suicidas, por exemplo, pra publicar seus poemas lá?

Criei um perfil no Facebook, separado da minha vida comum, para expor poemas e tentar alguma interação com quem lida com literatura Brasil afora. Fiz isso por sugestão da minha psicóloga. A receptividade para meus poemas foi melhor do que eu esperava. Primeiro, a Silvana Guimarães me chamou para eu me tornar uma Escritora Suicida. Já participei de duas edições da revista. Depois, o Claudio Daniel me convidou para mandar poemas para a Zunái. A Andréia Carvalho, para a Mallarmargens. E a Silvana, para a Germina.

O CHAPLIN: Quando você começou a escrever? Houve algum incentivo? 

Comecei a escrever poesia com treze anos. No começo, escrevia poemas dignos de latas de lixo e do fogo. Até que descobri Rimbaud e foi amor à primeira leitura. Vi que não devia expor vísceras de plástico e sim pôr à prova meu coração ainda vivo, sangrando e pulsante, esfregar a genitália na cara dos hipócritas. ”Uma Temporada no Inferno” é minha bíblia. Agora incentivo, não tive de ninguém do meio literário, nem de professores. Aliás, meus professores são uns idiotas! Meus pais até tentam entender minha poesia, mas não conseguem. Não cobro isto deles: basta que não me torrem para que eu pare de escrever. Já tentaram fazer com que eu desistisse, porque eu me expunha muito, mas mostrei pra eles que não posso viver sem escrever.

O CHAPLIN: Você também compõe músicas? Fala um pouco da sua banda.

A banda é formada por amigos, mas já está acabando, antes mesmo de lançarmos qualquer material em qualquer espaço. Dois dos integrantes, o André Pequenão e a Billie, que são irmãos, vão se mudar com os pais para a Inglaterra, até o Carnaval. Toda a aparelhagem é deles, então já viu, né? Na banda, além de tocar guitarra base, eu componho as letras, mas não tenho coragem de mostrar. São muito toscas, em comparação com a de outros letristas da nossa música.

O CHAPLIN: Quais são suas maiores influências na poesia?

Como já disse, minha maior influência é Rimbaud. Mas adoro Carlos Drummond de Andrade e as letras do Kurt Cobain e da Björk. Mas, tenho outras influências de poetas de outras searas, como por exemplo, o cineasta Lars Von Trier, e ainda Lisbeth Salander (interpretada por Rooney Mara, na versão americana), que, mesmo não sendo uma poeta propriamente dita, possui uma estética que tem tudo a ver com que eu curto.

O CHAPLIN: Muita gente gosta de escrever enquanto houve música. E, como sua poesia é muito rock n’ roll (como eu já disse), fiquei imaginando se você escreve ouvindo música.

Todos os poemas do Princesa Mas Peçonhenta, sem exceção, foram escritos enquanto eu ouvia ou Nirvana (Nevermind) ou Linkin Park (Hybrid Theory). Tenho escrito alguns poemas ouvindo Björk, o que tem sido um experimento para mim. Ainda não expus nenhum destes novos poemas, pois estou insegura.

O CHAPLIN: Como anda a produção do “Princesa Mas Peçonhenta”? Já existem editoras interessadas?

O livro já está com um número imenso de poemas. Dá um trabalhão decidir o que deve integrar o conjunto ou não. Ainda não tenho editora, nem sei se isso me interessa. Talvez, eu disponibilize o livro para download. A literatura tem que ser espalhada da melhor maneira, afinal, livro custa caro.

O CHAPLIN: Alguns dos seus poemas são bem ácidos, inclusive pro lado sexual/sensual da força. (E eu adoro isso!) Você tem 16 anos. Nem todo mundo engole isso, talvez por inveja, talvez por não acreditar, não gostar e outras infinitas possibilidades. Algum familiar, por exemplo, já comentou isso? Como é a relação com família e amigos? 

Esse lance da idade é pura besteira! Se eu tivesse 97 anos e lesse Rimbaud, Drummond e Kurt Cobain, com a intensidade que os li nos últimos três anos, chegaria aos 100 anos sendo a mesma poeta que eu sou hoje. Alguns de meus poemas são pura crítica ao sistema que nos enjaula, nos acua e nos tortura. Devolvo ao mundo o ácido que ele me obriga a destilar.

Se há um quê sexual em meus poemas, é por conta de alguma tensão que tive nessa seara. Nunca tive sexo com meninos. Meus pais sabem disso, me dão liberdade para tratar disso com eles.  Até hoje, só tive experiências íntimas (tirando amassos com amigos) com três meninas, uma delas minha prima, com quem estive por quase nove meses. O namoro só terminou porque minha tia fez um escândalo quando descobriu. Fiquei mal demais, pensei que fosse morrer, quase morri mesmo!

Como não tenho muita experiência de vida, tenho que escrever sobre o que já vivi ou sobre o que planejo viver. Mas não sou cega, nem alienada. Vejo as manifestações de esquerda e de direita… vários retardados sendo manipulados, bois indo para o mesmo abatedouro através de túneis diferentes.

Quanto aos amigos, a maioria desconhece meu lado de poeta. Tirando meus pais, em minha família, poucas pessoas se dignariam a ler meus poemas.

O CHAPLIN: Pra você, qual o lado bom e o lado ruim em ser uma poeta jovem? 

O lado bom é que posso errar o quanto for necessário para aprender: vão dizer que é porque sou inexperiente. (risos). O lado ruim é que há certas coisas que só podem ser escritas com a experiência ganha ao longo dos anos. E eu quero tudo-ao-mesmo-tempo-agora!

O CHAPLIN: E para o futuro, quais são os planos?

Quero aprofundar a apreciação de várias poéticas, assistir a bons filmes, curtir várias obras. Não quero escrever pra sempre. Quero me tornar artista plástica e aproveitar em minhas obras o aprendizado da poesia.

O CHAPLIN: Por que você escreve?

Por enquanto, escrevo porque de outra forma morreria.

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