Ingmar Bergman é para poucos; esta não é uma afirmação que visa taxar sua obra como um elemento elitizado, destinado apenas àqueles com um alto grau de cultura cinematográfica. É que o cinema de Bergman incomoda pela sua sinceridade e crueldade em desnudar as vestes que encobrem o caráter humano; ver representado na tela os vícios que carregamos em nós mesmos, é como tomar um choque de consciência em relação a nossa condição em um mundo condenado à incomunicabilidade e miséria das relações humanas. Deixo aqui uma indicação de 5 filmes de Bergman, obrigatórios para quem gosta de cinema, e para quem quer penetrar mais densamente na obra de um dos maiores artistas do século XX.

 

Sorrisos de uma noite de verão

 

Em uma fazenda, na virada do século, ocorre uma verdadeira ciranda de paixões, comandada pela anfitriã que escolheu a dedo os convidados. Inspirado na peça de Shakespeare, Bergman realizou uma comédia romântica espirituosa, sensual e divertida, considerado no Festival de Cannes a melhor comédia poética, categoria inventada apenas para premias o filme com justiça. O filme inspirou um musical de grande sucesso na Broadway e ainda Sonhos eróticos de uma noite de verão, de Woody Allen.

 
O Sétimo Selo

No século XIV, cavaleiro sueco volta da luta nas Cruzadas e encontra sua terra natal assolada pela peste negra; quando a Morte lhe aparece, ele propõe um jogo de xadrez para adiar sua hora. Parábola existencial e religiosa sobre a relação solitária e incerta que o Homem tem por vezes perante Deus. Bergman exercita todo o seu talento com este filme em preto-e-branco belíssimo, e a obra é fruto de uma das poucas concepções não-realistas de sua carreira.

 

A Fonte da Donzela

Indo para a igreja a jovem filha de uma família de uma família generosa é estuprada e morta. Tempos depois, os criminosos se hospedam na casa da vítima, mas tanto eles como os anfitriões desconhecem a verdade a respeito dos dois lados. Baseado em uma lenda medieval, Bergman teceu um drama poético de profunda ressonância moral. A dramaticidade da obra é reforçada pela fotografia de Sven Nykvist, habitual colaborador do diretor. Venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro.

 

Persona

 

Atriz entra em crise e fica muda, passando a se tratar com uma enfermeira psiquiátrica; aos poucos, os papéis se invertem. Uma das melhores investigações psicológicas já feitas no cinema, este rápido ensaio de Bergman é um verdadeiro tour de force para as duas atrizes centrais, pois a câmera praticamente nunca as abandona. Tensão e inquisição caracterizam o contato de duas mulheres de forte personalidade, com um texto ao mesmo tempo poético e perturbador.

 

Fanny e Alexander

 

Rica família da cidade sueca de Uppsala reúne-se para comemorar o Natal de 1907, e seus integrantes são vistos pelos olhos de duas crianças. Obra notável na filmografia de Bergman por mostrar uma ternura pouca vista em seus filmes anteriores e linha dramática mais convencional. Concebido como uma minissérie para a TV, com aproximadamente cinco horas de duração, passou depois por montagem supervisionada pelo próprio diretor para a exibição nos cinemas. Ganhou merecidamente os Oscar de filme estrangeiro, fotografia, direção de arte e figurino.

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